segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

QUANDO VIRÁ O DIA DE NATAL?! - Emoções póstumas de um 25 de Dezembro
















Hoje
dizem que é dia de ser bom
de ser poeta lunar
sem métrica sem ritmo e sem rima
Dia de ser vidente
Dia de êxtase  necessário  e  obrigatório
onde nos servem mensagens e missas
coctlail’s cremosos
souflés de chef’s vestidos de neve
saldos fitas  lantejoulas
embrulhos tudo embrulhos
cheios de coca e hax
por um dia extraterrestre
À mesa come-se coração de povo
embrulhado em crepes chinesas
E no pinheiro disforme dos generais
mandam ao ordenança
que pendure mísseis e granadas
dentro de luzentes balões azuis
e o Menino --- ai os meninos---
não os esqueçam deitá-los engordá-los
na noite da manjedoura
Para os comermos prontos o ano inteiro
nas valetas nas favelas nos escombros
Chamem os apontadores de morteiro
e ponham alto o Franz  Gruber da noite de paz
para abafar o troar dos canhões da guerra
Mais o doce e o champanhe
sedativa anestesia
no meio das estrelas cadentes
dos fogos de artifício
Depois  o povo apanha as canas
e deita-se feliz no estupefaciente das cinzas

Oh Menino de Belém
Escusavas de ter vindo
Eles inventavam-te
Para fazer-te embrulho de uma noite
De abraços visionários
Tão falsos e tão voláteis
Como a fumaça de um hax



















Mas um dia e outra noite virão
Aos milhares e milhões
E o colosso coro  dos sem-natal
O grito nocturno  dos sem-abrigo-global
Partirão bafios de gala e meninos de cristal
Para alcançar o Dia
E cantar  cantar  cantar

Hoje é Dia de Natal! 

29.Dez.14
Martins Júnior

sábado, 27 de dezembro de 2014

MENSAGEM DOS PRESÉPIOS DA RIBEIRA SECA - Homenagem à terra e conquista da Alegria

Presépios há muitos. Conforme o gosto, a época, o lugar.

Há-os rudes e puros como as montanhas, há-os especiosos, de cristal e porcelana no requinte dos salões aristocráticos, há-os folclóricos e divertidos, com figurantes a repetir maquinalmente as mesmas piruetas, há-os, ainda, do tipo antiquário ferro-velho, com bonecos e quinquilharias arrancadas ao bolor das dispensas domésticas, há-os negros da cor da Senhora da Aparecida, há-os amarelos, vermelhos, enfim, há presépios para todos os gostos. E todos eles estimáveis e respeitáveis na sua intencionalidade.


Aproveito, pois, este espaço para apresentar o nosso:
Como em todos os anos, optámos por um presépio temático, no palco aberto da Ribeira Seca. O cenário é sempre inspirado no tema, quase mini-curso intensivo tratado ao longo das nove Missas do Parto. Neste ano de 2014, os participantes leram e eu comentei sucintamente as fagulhas de luz penetrante da Exortação de Francisco Papa intitulada “A Alegria do Evangelho” ((Evangelii Gaudium)  e, no clarão dessas ideias-programa elaborámos o presépio. Para nos identificarmos com a mensagem realista, por vezes dura e agreste da mensagem, fomos buscar à terra os elementos construtivos de um grande globo terrestre --- precisamente o que restou dos incêndios e do vírus devastador dos pinheiros cá na ilha. E lá foram homens e mulheres por essas serras fora juntar do chão centenas, milhares de pinhas, à mistura  com a chuva e  geada fria que fustigavam os ossos e as mãos enregeladas.


Depois, semelhando a bordadeira que tece de “garanitos e ilhós” a toalha encomendada, assim homens e mulheres foram colocando, carinhosa e pacientemente, cada pinha nos alvéolos de que se formava o globo terrestre., emoldurado por seis raios de uma estrela, simbolizando os seis “sítios” desta comunidade da Ribeira Seca, segurados pelo romântico e macio tapete de musgo, cor da esperança. Dentro da grande gruta extraída dos pinheiros, as imagens típicas do presépio., tendo por cortina de cena dois repuxos de água cristalina. Tudo muito simples, tudo “puro com as flores e doce como as donzelas”, teria dito o fino poeta Ruy Belo.

Mas faltava a coroa, ”a cereja em cima do bolo”, ou melhor, o íctus inspirador deste rústico poema, faltava o Autor da “Alegria do Evangelho”, que ditou o tema de fundo: Francisco Papa. E lá ficou a sua efígie em tamanho natural, encimando o planeta, bafejando-o com o seu sorriso libertador.

Em vez de esculturas artificiais ou de outros motivos folclóricos de diversão, implantámos o pensamento do líder Francisco, (Não à globalização da indiferença, Não à economia que mata, Sim a uma Igreja, Porta aberta da casa do Pai, etc.) através de placas dispersas em todo o perímetro do presépio para trazer mais perto de nós o autêntico renascimento de J:Cristo e a razão de ser de toda a sua vida.

Por fim, .no alto mais alto da elipse iluminada, o Menino  no centro do mundo simboliza gestualmente a sua bênção, essa verdadeiramente “urbi et orbi”, também para a Ribeira Seca e para quem nos visita.

O nosso presépio, mais que distracção, é um convite à reflexão, tendo em linha de conta que as alegrias não podem ser gratuitas, antes pelo contrário, devem ser conquistadas pelo talento e pela força braçal de todos nós, tal como o prazer de olhar para ele torna-se maior para quem nele se empenhou. Significa ainda uma homenagem à natureza e a todos quantos trabalham a terra. É o presépio da identidade rural, produtiva, construtiva.


Um abraço de festa especial para as delicadas mãos que conceberam e deram corpo ao presépio no interior do templo da Ribeira Seca. Bem hajam. Moldado num estilo diverso do presépio exterior, ele revela a criatividade e o requinte estético dos seus autores e autoras.

Tudo somado: À luz dos presépios, construamos a Alegria nos votos de Boas Festas e Feliz Ano que nestes dias mutuamente trocamos.

27.Dez.2014
Martins Júnior

quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

domingo, 21 de dezembro de 2014

SALVEMOS O PAPA, SALVEMOS A “ALEGRIA DO EVANGELHO”, SALVEMOS O NATAL FUTURO

Bem sei que nestes dias de azáfama pré-natalícia não há lugar nem minuto para longas divagações. Mas não ficarei bem comigo próprio se não partilhar convosco um ponto alto da nossa preparação para o Natal, o qual compendia a conclusão do que hoje foi visto e comentado na nossa Missa do Parto. Já tive ocasião de informar que na ementa da nossa mesa eucarística cabem as tradições, os cânticos de outrora, as quadras ao desafio no adro após a cerimónia litúrgica, os doces e licores. Mas o que não pode faltar é a marcação de uma ideia enriquecedora que vá mais além do folclore cíclico desta estação. Neste ano, a ideia marcante foi a leitura, pelos participantes na cerimónia, da mensagem “Evangelii Gaudium” do Papa Francisco. E tem sido uma verdadeira descoberta sentir na assembleia como que o clarão de um relâmpago libertador em cada página do texto. Quando são sábias e concretas as palavras o povo sabe escutá-las e ponderá-las. De facto, uma coisa é ouvir uma palestra em ambiente académico sobre o pensamento de Francisco Papa, outra é captá-las na fonte pela voz de homens e mulheres, ao vivo, durante o decorrer do acto. E que força, que beleza, que coragem, que mergulho ao dentro da vida! Foi preciso chegar à varanda do século XXI para saber que um Papa tanto sobe ao Olimpo do pensamento humano-divino  como desce até à profundidade telúrica da nossa condição. Tudo ali está, como nunca antes se ouvira. Ali se juntam teses de teologia e filosofia, constatações e perspectivas da ciência económica, ali se consigna um manual de pedagogia política! Ao estilo  da famosa Summa Theológica de Tomás de Aquino, bem pode falar-se de uma Universitas Summa este feixe luminoso chamado “A Alegria do Evangelho”.
Mas o mais importante é o desbravar da densa floresta da sociedade em que vivemos. Ele afronta os casos e, como um bandeirante,  avança, peito aberto, na vanguarda da denúncia e do compromisso. E aqui reside não apenas a solução mas também um problema de futuro: ele não aponta, faz o trabalho da mina, escava, abre a esplanada, mexe com as imutáveis estruturas, feito como Isaías para “derrubar e construir”. Qual o patrão que vai à frente numa manifestação de trabalhadores?... Ou qual o arquitecto ou engenheiro que mete as mãos na massa e faz o trabalho do pedreiro ou do servente?... Francisco Papa!
É por isso que, no seio da máfia vaticana e financeira, há quem queira liquidá-lo. É que ele está a fazer as tarefas que competiam aos bispos e cardeais, mas não as fazem, remetendo-se a um silêncio cúmplice em que no embrulho da “virtude” se esconde a mais vil cobardia. Quem poderá salvar o Papa? Só o povo, só os cristãos! Porque das hierarquias “beatíficas” nada há esperar senão os anátemas de Anás, Caifás e Herodes contra o Menino de Belém. O povo tem de tomar nas mãos o poder de iniciativa rumo à conquista da “Alegria”.

É verdade que estamos na trégua fagueira do Natal, onde tudo se veste da mais terna brancura da Paz. Mas perante a transparência matinal deste Homem que as trevas “vermelhas” dos purpurados querem afogar, parece que o único caminho de salvação é afastar, senão mesmo “derrubar dos seus tronos” (Lc.1,52) esses “arcanjos”  do obscurantismo e da escravidão. É uma boa campanha para salvar o Papa, a Alegria, o Natal. Mas sempre com “as armas da Luz”  (Paulo, Romanos, 13,12).

21.Dez.14

Martins Júnior

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

UMA BOA NOVA


Nesta encosta fria e chuvosa em que nos é dado viver aquecem-nos as notícias, quase todas contrastantes e concorrentes, aquecem-nos as passadas agitadas na lufa-lufa de encher a arca e o presépio. Por isso, escasseia o tempo de ler e comunicar. No entanto é de notícias, fruta da época, que trago a ementa da noite.. Refiro-me aos rituais, todos vestidos à moda de cada  terra --- as missas do parto --- todas respeitáveis, se coerentes com o meio em que nascem. Felizmente, aqui em Machico-cidade deixámos de ouvir, á nossa  beira,   os estouros dos foguetes às 5,30 da madrugada, um costume, embora atávico na Madeira, mas absolutamente contra-natura natalícia.
Pela minha parte, partilho convosco o estilo que optámos seguir neste modesto, mas verdadeiro, templo da Ribeira-Seca, Lapinha-Mãe de um povo suburbano. Desde há algumas décadas, procurámos unir a tradição à inovação: a tradição, nas canções históricas que desde criança ouvira eu próprio de pais, avós e bisavós, sem alterar  as variantes locais, nem na letra nem na música:  tem sempre um sabor a frescura e a saudade encher as paredes do templo e as pregas da alma com sonoridades que vêm das colinas do passado. A inovação está nas temáticas escolhidas para as nove manhãs, entre 16 e 24 de Dezembro de cada ano. Cedo me apercebi que as pessoas trazem no seu íntimo um projecto ou promessa ou pendor: não faltar a nenhuma Missa do Parto, faça frio ou chuva ou vento e, daí, entendi oferecer um só tema para reflexão dos participantes, tema esse que, sendo único, se desdobra em muitas das suas vertentes, uma espécie de mini-curso intensivo, cirúrgico, que marcasse de forma impressiva o fundo cultural e religioso de quem faz tamanho sacrifício.
Muitos e diversificados foram esses temas, entre os quais, as figuras que antes e depois de Cristo tornaram presentes o seu nascimento e a sua mensagem, figuras como Moisés, Isaías, João Baptista, os primitivos mártires,  Joana d’Arc, António Vieira, Mahatma Gandhi, Luther King. Teresa de Calcutá, Zeca Afonso e tantos outros. Noutro ano, escolhemos o estudo das diferentes religiões;  noutro, as oscilações climáticas e o dever de respeitar a natureza criada;  noutro, os povos e continentes, irmanados no mesmo abraço;  noutro, ainda, a simbologia física e psicológica das cores, aliadas à saúde e à beleza, etc., sendo todos os presépios inspirados nas respectivas temáticas.
Este ano, coincidindo com o 78º aniversário de Francisco Papa, estamos envolvidos na “Alegria do Evangelho” (Evangelii Gaudium), a sua Magna Carta para o mundo. O propósito é colocar nas mãos das pessoas o texto integral,  lido por um dos presentes, consoante o seu dia. Será o nosso presépio gigante inspirado na figura de Bergoglio abraçando o globo terrestre, todo ele composto de centenas, milhares de pinhas das nossas montanhas, trazidas pelas mãos de homens e mulheres desta comunidade. O fundamental é que não se faça do Natal apenas um folhetim folclórico, recheado de broas e licores com  que (também nós!) confraternizamos descontraidamente, despicando ao desafio, no adro da nossa igreja, após a cerimónia litúrgica. É preciso que o Natal/2014 não seja só na hora, mas  faça história dentro de nós pelo clarão de uma ideia que perdure.
Quem vier, venha por  bem. Porque aqui mora  a “Alegria do Evangelho”, a alegria branca do abraço universal!

19.Dez.14

Martins Júnior

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

UM MUNDO PARTURIENTE - Divagando sobre adventos e missas do parto


Parecendo um desvio sazonal banalizado pela tradição, tenho vindo a reflectir, divagando, com o desejo de ver o dentro desta quadra. Nada melhor que citar as “Ilhas de Zargo”, do eminente investigador e poeta madeirense Padre Eduardo Pereira:: “Precede a solenidade da Festa um novenário conhecido pelo de Missas do Parto, celebradas ante-manhã com loas ao Menino, que dão lugar às primeiras demonstrações de júbilo e entusiasmo pela aproximação daquela quadra festiva.Os templos regurgitam de fiéis que afrontam a chuva, o vento forte e o frio das rigorosas manhãs de Dezembro e se encaminham para a igreja com toques e descantes. O rajão , a gaita e outros instrumentos de uso regional cadenciam o passo dos ranchos e as castanholas estalam desconcertantes aquecendo as mãos do garotio. O povo torna-se expansivo e alegre; uma feição sentimental de comunicativa familiaridade estreita vizinhos e amigos; adormecem todos os ódios e renascem, como motivos de vida, a esperança e a saudade. É a única quadra do ano em que a alma popular vibra espontânea e dá largas a uma expansão natural” (vol.I:: 405).
Muitas e variadas são as interpretações para este fenómeno de euforia colectiva. No subconsciente das pessoas está presente a matriz original do Menino Salvador, aliada àquela reminiscência de um povo explorado pelos senhorios e ansioso por chegar à Festa para beber cacau e canja de galinha.
Para além destas possíveis leituras do evento, vejo um outro móbil, este já incrustado na própria condição humana: a expectativa, a chegada, o advento de algo de novo. Os cuidados neonatais, a espera de uma nova vida, reflectindo-se depois, em termos psico-sociológicos, no nosso olhar atento a “dias melhores que hão-de vir”, enfim, o movimento anímico da gestação de um outro futuro, tudo isso, projectado e incarnado no Menino de Belém, acende em nós uma chama na noite escura. Não só as nossas mães: nós próprios somos parturientes de um sonho maior. E este íman secreto, mas congénito, talvez condense e atraia “uma feição sentimental que estreita vizinhos e amigos; adormecem ódios e renascem motivos de vida e esperança”. Por isso, as Missa do Parto são do povo, da colectividade anti-selectiva, da massa anónima que ocupa, por direito próprio, o “átrio dos gentios”. Pela mesma razão, não há figurinos nem paradigmas, não há especialidades sociais, muito menos político-eclesiásticas. “Cada terra com o seu uso, cada roca com o seu fuso”. E deveríamos, mesmo, preservar a singularidade de cada lugar, para que o parto da vida ganhe mais autenticidade e convicção naqueles que participam. As modernas redes de comunicação, sobretudo as mais interessadas na publicitação dos seus produtos, acabaram por tomar conta daquilo que nasceu puro e mobilizador. Não deixa de ser abusivo que segmentações classistas e entidades oficiais se apropriem, de um património cultural em que o povo é protagonista e autor. Fazem lembrar aquelas graduadas figuras partidárias em manifestações em que só aos trabalhadores e seus representantes, os sindicatos, pertence agir e autonomamente liderar. Há quem ainda não tenha descoberto o ridículo de ser “festeiro” no verão e “parteiro” no inverno.
E cantemos todos, cada qual no seu refrão:”Virgem do Parto, oh Maria!”


17.Dez.14
Martins Júnior

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

MILITARES NA DITADURA, BISPOS E PADRES NA LUTA - RELATÓRIO DA COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE


Concebeu-se, por unanimidade prévia, que no Natal se fizessem tréguas totais. Convencionou-se, desde a choça ao hipermercado, que só se desenhassem paisagens brancas de neve e luvas vermelhas para aquecer as mãos e os corações. Mas os factos desmentem este acordo tácito, com notícias contrastantes neste Dezembro, desde a Declaração Universal dos Direitos Humanos até à violência doméstica, atrocidades islâmicas, corruptos e corruptores, enfim, convenhamos que o próprio berço do Menino não foi de algodão ou de cambraia romântica.
E uma das notícias que agitaram o mundo, mais localmente o Brasil, foi o Relatório da Comissão Nacional da a Verdade, sobre a tortura no tempo da ditadura militar. Dizem os jornais, nacionais e estrangeiros, que a própria Dilma Rousseff  não conteve as lágrimas quando recebeu em mão o fatídico documento, lembrando-se do tempo em que ela mesma fora torturada.
Neste lembrete de hoje, quero compartilhar convosco uma coincidência “ímpar”, para mim, dado que foi nesse período de 1972, que me encontrei em Olinda e Recife com o arcebispo Hélder da Câmara (“não conheço esse bispo comunista”, disse-me o vendedor da banca dos jornais, a escassos metros da sede diocesana); foi então que conheci o corajoso bispo de Goiás e  os padres dominicanos na igreja da Lapa;  foi em São Paulo ---  oh ingénua imprudência --- que me atrevi a subir as escadas de um tribunal militar, na “Brigadeiro António”, e dei de contas que se tratava do julgamento de um preso, opositor ao regime, o que me fez descer imediatamente as mesmas escadas.
Mas o que mais me tocou foi a ida ao “Paço” do bispo Duarte Calheiros, em Volta Redonda,  periferia do Rio de Janeiro: Já não estará  certamente entre nós, senão a memória de um cidadão comum, entrando numa casinha rasteira, situada na encosta que deixava ver a largueza de uma cidade marcadamente fabril.
Uma senhora negra pergunta-me (a mim que esperei mais de uma hora na rua) “então não viu o sr. bispo? Ele entrou há pouquinho dirigindo um fosquinha azul”. (fosquinha é a designação brasileira de um vulgar volkswagen). Abriu-se a porta e encontrei-me com um homem robusto e optimista, um cinquentão, sem atavios nem cordões de ouro. Estremeci! Ganhando ânimo, disse-lhe que procurei a catedral e não encontrei vestígios dela na cidade, ao que ele me respondeu junto à varanda: “Oh padre madeirense, você está a ver aquele telheiro de zinco lá ao fundo?” Sim, é uma fábrica. E ele: “Não, é a minha catedral. Olhe mais além e mais acima, são também as minhas catedrais.”  
Chega, entretanto, um  jovem de seus trinta anos, cabelo à escovinha, enfiado numa t-shirt branca. Abraçaram-se. Era um padre que tinha acabado de cumprir pena na rigorosa prisão da “Praia Grande”. Achei que já estava a mais naquele encontro de confidências sobre os maus tratos e torturas infligidos ao, nessa altura, intrépido clero brasileiro, ao lado das vítimas da ditadura militar. Mas ainda houve tempo para uma outra confidência: “Sabe, padre madeirense que o Estado brasileiro já me instaurou três processos a que tenho de responder judicialmente? Olhe, o último foi na Semana Santa, quando pedi a um artista que me fizesse no altar  um painel da Crucifixão. Imagina que a Auditoria militar descobriu na face do Crucificado o rosto do Che Guevara!” Duarte Calheiros e o padre, seu colaborador, sublinharam com uma risada tipicamente carioca a notícia dos futuros julgamentos, talvez na “Brigadeiro António”.
Seja esta mini-prenda do dia ímpar um derivado da mirra --- martírio e sacrifício --- que o Rei Negro ofereceu ao Menino. Sirva também para descobrir a pureza da Igreja do Brasil em tempo de ditadura, na esteira do grande missionário Padre António Vieira, o bispo António Fragoso, Leonardo Boff, Frei Beto e tantos outros  em defesa de quem vive o seu presépio na valeta das vias rápidas e nos antípodas de reis, banqueiros, cardeais e bispos anafados.
Um afecto especial para um outro lutador contra a ditadura brasileira, o Pe. Alípio de Freitas, ainda vivo, a quem agradeço a presença na Associação José Afonso, em Lisboa, no lançamento do Cancioneiro e CD “A IGREJA É DO POVO E O POVO É DE DEUS”,  história de luta de um povo madeirense, a Ribeira Seca.
Vejam e façam o paralelo com a paisagem dos dignitários eclesiásticos do rectângulo e da ilha do basalto.      

15.Dez.14

Martins Júnior

sábado, 13 de dezembro de 2014

DIA DE FINADOS E DIA DE NATAL Na Assembleia Regional da Madeira


Não é do meu gosto  escrever sobre as águas residuais, muito menos daquelas que escoam das políticas  mal cheirosas cá do sítio, já porque delas estão cheias os bidões da tinta impressa diariamente, já porque cada vez mais me convenço que estes esgotos não se limpam com paliativos de letra, mas com uma forte bombada de lixívia  anti-tarro velho. É nossa essa tarefa. De todo o povo esclarecido.
Mas hoje não podia deixar de assinalar o verdadeiro dia útil daquela inútil arrecadação que dá pelo nome de Assembleia Regional da Madeira. Esse, sim, dia “Ímpar”. o encerramento do debate do Plano e Orçamento para 2015,  anteontem .realizado. Curvo-me perante a dignidade e a verticalidade de toda a Oposição e repugna-me a maioria daquela maioria de sempre ( agora sovada e sem pio, porque dividida) e que, cega e surda, fica embasbacada perante o  “testamento vital” do ex-futuro exilado daquela casa. Segui-o, via RTP/M, coisa que nunca tinha feito, e fi-lo na esperança de lobrigar alguma luz de decência ao fundo de trinta seis anos e tal. Afinal, a mesma imundície da cabeça aos pés, isto é, desde o primeiro dia que lhe conheci naquela que ele transforma em caserna de um qualquer Biafra: a falta de nexo na conversa, a perda de rumo no discurso, a estafada “secreta triangular”, com a maçonaria à cabeça, seguida de uns rasgos lunáticos à espera que a Oposição reaja para lhe dar mais” guita”: depois, despe-se do verniz mínimo e aparece Gringo e Adamastor (pensa ele) e vocifera, espuma, esbraceja como um doido.
Doeu-me até à medula ver os esgares e os palavrões contra Edgar Silva, insultado por ter sido o primeiro na Madeira a insurgir-se contra os exploradores da pobreza infantil e da dignidade moral dos chamados “miúdos das caixinhas”. Só visto, contado ninguém acredita! Só eu sei o quanto de humilhação selvagem sofri no  antro do ex-futuro banido daquela tribuna, até ao ponto de me expulsarem da Assembleia por ter denunciado veementemente o roubo das pratas, essa tragicomédia que os DDT, os donos de tudo isso, da ALR, bem sabem onde param. Mas se muito deram,  mais apanharam, sobretudo naquele dia em que o Tribunal do Funchal deu razão à minha denúncia. e, subsequentemente, de cravo vermelho na lapela subi de novo  ao alto da tribuna diante daqueles que de lá me tinham expulsado.
O que fortemente me arrepiou foi ver o mais insolente caluniador e mais agarotado elemento daquela casa terminar o viscoso “testamento vital” citando o Evangelho de São Mateus, referente ao Juízo Final. Blasfemo! Não admira tamanha desvergonha da parte de quem deve tudo à Igreja do Paço episcopal,, aos bispos que o puseram no palanque e lhe tributaram idolátrica subserviência, a troco de uns pós de cimento e de uns órgãos para as igrejas.
Ele bem podia apostrofar (já que se pôs no trono do Eterno Juiz) com casos bem conhecidos seus:  ”Afastai-vos de mim, malditos, porque apenas engordastes os vossos amigos e serventuários… Afastai-vos, vós que vos banqueteastes e embebedastes em jarros de cristal à custa dos que passavam fome e sede… Afastai-vos, vós que decretastes a prisão de inocentes e protegestes criminosos do vosso partido… Afastai-vos”.
E afastado está, ao menos daquele púlpito. Dali já não sairá mais poluição. Nas minhas intervenções  sempre afirmei que, em termos de educação e civismo, o legado oficial deixado  aos jovens de hoje e de amanhã é  mais negro que o betuminoso das vias rápidas e mais sufocado que os vangloriados túneis sem luz ao fundo.
Podia continuar, mas deixai-me ficar por aqui. E logo concluireis do porquê de não querer falar das águas residuais cá do burgo. Tenho muito que contar. Talvez um dia!
De qualquer maneira, salvè o dia 11 de Dezembro de 2014, com a sua brilhante e contraditória simbologia: dia de finados para o obscurantismo despótico e dia de Natal para um Ano Novo parlamentar.
13.Dez.14
Martins Júnior

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

OS TRÊS PRIMEIROS E OS TRÊS ÚLTIMOS BISPOS DA MADEIRA Curiosas coincidências dos “500 anos” da Diocese


Não faltam temas e questões actualíssimas para comunicarmos mutuamente, desde os chamados “Dias Mundiais” (contra a violência doméstica, por ex.), os eloquentes e emocionantes prémios “Nobel da Paz”  (pensemos na  jovem Malala) e sobretudo a vasta inspiração que nos traz a quadra natalícia. São tantos os temas e os comentadores, que, da minha parte, prefiro debruçar-me sobre a tão proclamada “gesta” dos 500 anos da diocese, ainda quentes da celebração e da inauguração da estátua. E ouso, até, interpelar todo o católico madeirense sobre tal acontecimento: como o vê, como o lê, como o interpreta.
         Porque se, nas gloriosas efemérides da história profana, nos contentamos  com o festival de artifício em que se desenrolam, o mesmo não deveria acontecer com um fenómeno tão apelativo à consciência cristã como os cinco séculos de uma crença que nos legaram os antepassados. quais os conteúdos e os efeitos de tão respeitável tradição?  Já no anterior  artigo evoquei Camões, quando se referia ao enganado “povo néscio”  e, de novo, alerto  para que não  sejamos povo néscio, insensível, inconsciente.
Nas comemorações do V centenário, exaltou-se a proeminência da Arquidiocese funchalense por ter sido a Mãe de todas as outras dioceses criadas fora do território europeu, de “aquém e além-mar”: África, Ásia, Índia, Brasil, na América Latina. E,  para assinalar tamanha amplitude desse abraço ecuménico, aqui vieram bispos e cardeais, altos representantes dos citados continentes, iniciar com pompa e circunstância a largueza desse abraço.
Volvidos 500 anos, pergunta-se se cá dentro ainda existe a cultura do abraço inclusivo que a diocese-mãe de outros tempos  levou às mais longínquas paragens?
Em dois parágrafos apenas vou sintetizar uma possível resposta a esta pergunta:
Os três primeiros bispos da Madeira --- D. Diogo Pinheiro Lobo, (1514-1525),  D. Martinho de Portugal, parente do rei (1533-1547) e D. Frei Gaspar do Casal (1556-1569) --- dirigiram a diocese quase todo o tempo, a partir de Lisboa, onde tinham residência oficial. O primeiro e o segundo nunca puseram cá os pés e o terceiro acabou por  desistir do governo da diocese, após os últimos oito anos  de residência na capital. As distâncias  e  as dificuldades inerentes ao respectivo transporte impediram a assistência pessoal e continuada aos seus diocesanos.
Os três últimos bispos, os mais recentes, precisamente no pós-25 de Abril--- os prelados Francisco Santana, Teodoro Faria e António Carrilho --- nunca puseram os pés numa modesta igreja da Madeira, que fica a escassos 25 minutos do Funchal, apesar das inúmeras cartas dos paroquianos nesse sentido.  Chama-se Igreja de Nossa Senhora do Amparo, em Ribeira Seca, Machico.
Por agora, escusam-se mais comentários. Contra factos, sejam eles quais forem, não há argumentos. É caso para perguntar: após quinhentos anos, onde está   a Igreja inclusiva da  Diocese-Mãe de “todas as terras novas e a descobrir”? Como se confrontam as faustosas comemorações e os laudatórios monumentos com a realidade de três personagens que preferem acorrentar-se à carruagem do poder político em vez de proclamarem factualmente a liberdade dos filhos de Deus?
Para completar a farsa  perante um povo que julgam “néscio”, devo dizer que  achei muita graça quando um sacerdote intitulado vigário geral proclama, à porta da Sé e para as câmaras da TV, o corajoso apelo do Mestre “Faz-te ao largo”! Maior e melhor não podia ser a ironia das comemorações. De que largo estão a falar?  Do Poço… das Desertas, das Selvagens, das Índias, dos Brasis?
O “Largo” do Mestre fica ali tão perto, fica aqui mesmo na ilha!

11.Dez.14

Martins Júnior

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

“ACABOU-SE O QUE ERA DOCE” ADEUS, ADEUS, 500 ANOS!


Adoptei o amistoso ditado popular para dedicar estas linhas aos três “doces” anos --- longos, badalados, clangorosos 1096 dias --- --- que duraram e se arrastaram as comemorações dos cinco séculos da diocese do Funchal.
Não vou comentar hoje as ditas comemorações. Fá-lo-ei em breve, como é meu dever, porque os 500 anos também são meus, são de todos os madeirenses e, em minha opinião, cada madeirense  deveria apor a sua impressão digital neste Livro de Ouro quinhentista da sua ilha, enquanto cristão diocesano.
Contemplo apenas o fecho das festas. E tanto basta para aquilatar da sua essência. Finis coronat opus --- diziam os antigos que o fim é a coroa da obra, em termos mais nossos, é a cereja em cima do bolo. E que cereja!... que tem tanto de cerejão como de cerejinha pêca. Na realidade, onde estão os “atlantes” de além-mar, os filhotes da arquidiocese, espalhados por essas dioceses longínquas?...  Onde o rasto dos patriarcas,  núncios “apostólicos”,  enviados pontifícios? Esfumou-se o cerejão da espaventosa estreia para dar lugar à cerejinha da horta caseira, a prata doméstica, representativa dos medalhados locais --- os mesmos de sempre --- perfilados e emproados, à espera que o pontífice presidente lhes dirigisse a primeira palavra: “sr. representante de… sr.  presidente do… sr.  presidente da… sr. comandante daqui ou dali”… Só lhes faltavam as fofas almofadas vermelhas que, no meu tempo, punham aos pés do governador civil e do governador militar. Para lotar o templo, a coincidência aniversariante dos escuteiros que, pelo todo, farda, bandeiras e lacinhos, me trouxeram à lembrança a antiga Mocidade Portuguesa, especialmente no 1º de Dezembro, com todas as forças em parada. Da “legião” de presbíteros, os padres, poucas sombras brancas e até os dois bispos madeirenses, desconsolados e órfãos, aposto que incomodados, murmurando para a cruz peitoral:” Por que não eu, que sou madeirense, a presidir, em vez de um estranho algarvio que nunca teve a ver nada com estes cinco séculos da nossa bem-aventurada Madeira?!...
E para que nada fugisse ao protocolo do festim das comemorações autonómicas, faltava a estátua. E lá vai a caravana habitual das inaugurações, vira as costas a João Paulo II, passa à ilharga da grossa madona da Praça do Povo e arredonda-se na marca de “canto” do velho “Almirante Reis”, onde a água benta substitui a incenso para aclamar a gesta dos portugueses (mais uma aposta: alguns figurantes estariam  a dizer “cubanos”) que vieram trazer a esta ilha a Fé de Cristo nas caravelas.
Qual Fé?  Perguntem, se puderem, ao Zargo, ao Tristão, ao Afonso V, o “Africano” e ao próprio Infante D. Henrique, o que os moveu na ânsia das Descobertas. Império, Poder, Comércio, Riquezas exóticas. A Fé não passou de uma bengala do Império, tal como os capelães militares na guerra colonial,  tal como o Eminentíssimo Cerejeira servia de hissope a Salazar e os últimos três bispos para a Madeira mais não foram que manequins nas mãos do poder político regional.
Melhor comentário não acho para esta encenação babada e inútil, do que repetir a estrofe 95 do Canto IV dos Lusíadas:
Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama,
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
………………………………………………………….
Porque tenciono voltar a este tema, faço minhas as duras, mas criteriosas observações do meu amigo Padre José Luís Rodrigues na sua página do “Banquete da Palavra”. E quando é que nós madeirenses abrimos os olhos, quando é que vamos acordar desta letargia com que se enchem igrejas, promessas  e procissões, em tudo talhadas à medida e embrulhadas nos pacotes  dos poderes mundanos, esses mesmos que nos carregam aos ombros com um peso maior que aquela cruz intrusa  a que chamam monumento aos 500 anos?
É ainda a estrofe 96 que, adaptada a este episódio, nos brada de longe e avisa:
Chamam-te Fama  e Glória Soberana
Nomes com que se o povo néscio engana
Obrigado, Luís Vaz  de Camões! Não queremos ser néscios ou parvos ou insensíveis.
9.Dez.14

Martins Júnior

domingo, 7 de dezembro de 2014

NATAL HAVERÁ SEMPRE! MAS DEUS… “DEUS AINDA TEM FUTURO ?


Nem de propósito!
Vivemos a euforia pré-natalícia como que embalados naquela onda mítica que, mesmo na estação gélida, aquece o poente de cada ano que passa e a todos bafeja desde o berço  ao ocaso das nossas vidas. O Natal não acabará jamais. É a ternura do Menino, é o calor das “lapinhas” madeirenses, é o sortilégio multicolor nas ruas, nas varandas, nas árvores e é, sem falhar, o comércio das grandes e pequenas superfícies que se encarregam de tocar as campainhas publicitárias avisando que está  na hora de trocar prendas. O Natal tem, pois, futuro garantido.
Indagar-vos-eis, estou a ver, sobre qual estranho toque foi este de fazer tão questionável sublinhado: “DEUS AINDA TEM FUTURO?”.
A resposta vem no título do livro, lançado, dia 4 pp,, no Centro Nacional de Cultura, Lisboa, no qual tive a grata oportunidade de tomar parte e intervir. É uma edição da “Gradiva” e compendia  o colóquio de três dias realizado em Valadares, sob a proficiente coordenação do conhecido e amigo nosso Prof. Dr. Pe. Anselmo Borges. Inclui as prestações de abalizados teólogos, nacionais e estrangeiros, cientistas, agnósticos, crentes e não crentes, mas todos preocupados com o Ser, “um tema inesgotável, sem fim e eternamente recomeçado”, no dizer do grande Mestre Aristóteles. Não vou decifrar os vários capítulos das 333 páginas impressas, dado que, após Coimbra, Porto e Lisboa, esperamos que o Funchal mereça brevemente as honras da sua apresentação.
Refiro-me tão-só aos oradores presentes na mesa: além do citado coordenador, também o presidente do CNC, Dr. Oliveira Martins; o presidente do Conselho Nacional de Bioética, Prof. Dr. Oliveira e Silva e o neurólogo, filósofo, teólogo, Prof. Dr. Javier Monserrat, da Universidade Autónoma de Madrid e da Universidade Comillas, também de Madrid,
Quero supor que para grande parte das pessoas este é um assunto arrumado: os que crêem crêem e os que não crêem não crêem. Ponto final. Mas não será bem assim. Basta pensar, por mais vasta que seja a nossa imaginação, nos milhares, milhões. biliões, triliões de livros que passaram pelas mãos de pensadores e pelos prelos das tipografias sobre o enigma de Deus, designadamente após as novas teorias do bosão, do big-bang, da evolução das espécies --- a inextrincável dicotomia “creacionismo-evolucionismo”. Por outro lado, não esqueçamos as decorrências que advêm da existência de Deus: as religiões e o seu séquito de superstições, angústias, medos e depressões; os fanatismos geradores de guerras, de sanguinárias enormidades; os tronos e ditaduras que se ergueram “em nome do Pai”; os mártires que pagaram com a vida a firmeza das suas convicções; os mitos estripadores da inocência original da psicologia humana e subsequentes explorações financeiras, enfim, cuidado, muito cuidado em desvendar e traduzir a transcendência e/ou a imanência da Divindade para os nossos códigos infinitamente distantes do Supremo Ordenador do Universo.
Claro que --- como tenho dito aos que frequentam o nosso modesto templo --- dá menos trabalho rezar que pensar. Mas pensar é preciso, é urgente, neste  exíguo quadrado que é a nossa vida.
E, por isso, o Prof. Dr. Oliveira e Silva abriu a toalha sobre a mesa com esta pergunta nevrálgica: “De que Deus estamos a falar?” e, na mesma linha, os restantes oradores e intervenientes do vasto auditório. E por aqui me vou ficar, deixando a cada um de nós a mesma interrogação essencial: “Em que altar e a que Deus presto o meu culto e a minha vassalagem?... E como será a face do Deus dos outros?”...  Desde já previno que a floresta da dúvida e do conhecimento nesta matéria não é caminho chão. Mas vale a pena procurar a Luz! Condição “sine qua non” para seguir viagem nesta rota das estrelas, cito o Prof. Dr. Javier Monserrat: “é absolutamente indispensável baixar as armas e abandonar toda espécie de ditadura do pensamento: “Que os teístas não sejam dogmáticos nem os ateístas sejam irredutíveis”.
Peço desculpa por este aperitivo, talvez demasiado denso, para o Natal. Repousemos o nosso olhar nessa criança-adulto da gruta de Belém que trouxe um programa didáctico ao mundo e pelo qual deu tudo quanto tinha: mostrar uma das faces de Deus, aquela que antes e depois dele, as instituições encarregaram-se de denegrir.

7.Dez.14

Martins Júnior