terça-feira, 21 de outubro de 2014

“CONTRA OS CANHÕES – MARCHAR”


No Dia do Exército em Machico

“CONTRA OS CANHÕES – MARCHAR”

Tocou-me muito de perto a comemoração do Dia do Exército, este ano realizado em  Machico, deixando-me intensamente dividido em dois sentidos opostos: Primeiro,  a inspiradora mensagem do concerto da Banda Militar, em coordenação com elementos da Escola das Artes e o Grupo Coral de Machico. O Segundo, como é da praxe, a amostra exibicionista das armas de guerra no anfiteatro da baía de Tristão Vaz. Recordado da trágica vivência da guerra colonial em Cabo Delgado, Moçambique, aqui deixo a expressão desta emotiva contradição.


Frente a frente
Corpo a corpo
Criados no mesmo ventre
Vestidos da mesma pele:
Um,
Nado-morto
Monstro procriador de monstros!
O outro,
Seiva-fogo intemporal
Orgasmo fecundante e ode triunfal
No canteiro-partitura
Que abraça o perto e a lonjura!

Lado a lado
A mão terna de acordes e cantatas…
E as satânicas unhas
com que a ferro matas…

Metais de sol sonoro
Rasgando o meio dia…
E abutres 
Abrindo covais na terra fria…

Contradição tamanha
Nos joelhos da baía
Regaço da mesma mãe!

Tirem daqui essa tralha metralha
Porque mais bela e outra
É a nossa batalha

Enfardem esses tóxicos lixos
Não poluam esta terra
Levem-nos para os bunkers
Dos offshores  corruptos
Façam lá a sua guerra
Que se auto-destruam
Palácios  e redutos
Onde  sádicos armazenais
Rios do sangue inocente
Com que vos embebedais

Fora com o deus dos exércitos
Mais o exército dos deuses
Que misturam missas e mísseis
Hóstias e munições
Bazucas e bentos guiões

Oh se pesásseis e vísseis
Aqui em qualquer país
Quantas bocas infantis
Ficam sem leite e sem pão
Para gerar  um morteiro

E quantos quer um canhão
Quantos corpos quantas almas
Para portar-se canhão

Ainda trago
O  cheiro e o travo
Nesta palma da mão
Que ajudou
A levantá-los do chão
Meus amigos do peito
Camaradas de caixão
Que a madrasta nação
 Em terra alheia esquecidos
Enjeitou e sepultou

Não conheci outras
Senão
Armas assassinas
Contra gentes indefesas
Em suas pobres palhotas
Carentes de amor e pão

Por isso
Flautas trombones trompetes
Mais alto soai
Tambores, já, convocai
De norte a sul todo o povo
“Levantai hoje de novo”
O esplendor da Esperança

Sejam sempre as vossas armas
Partituras de Bizet
Allegros adágios crescendos
Alma e fé
Na baía de Tristão
Lutando sempre de pé!


(Fotos retiradas do Facebook oficial da Câmara Municipal de Machico)