quinta-feira, 23 de outubro de 2014

HOSPITAIS, GENERAIS, PROMESSAS E 400 ANOS DE PADRE ANTÓNIO VIEIRA


As amigas e amigos que têm gosto em acompanhar-me nestes encontros dos dias ímpares  em que vou monologando em voz alta, notaram que, a propósito de Outubro, promessas e Milagres, tento penetrar no íntimo das coisas e dos gestos, chegando à conclusão de que , em sociedades retardatárias, o gesto, enquanto signficante, desmente e adultera o verdadeiro significado das coisas. Pela trilogia dos  títulos anteriores --- “Onde se  fala do dicionário do lume e das velas”…“O Senhor “vendeiro” do Templo? E Sua Mãe feirante de arraiais?”… “Na torcida de uma vela poderá construir-se um monumento de egoísmo exibicionista” --- concluo (admitindo e respeitando aquilo que noutros é expressão fé viva e dolorosa)--- que o significante é uma afronta ao significado. Fecho hoje este ciclo de reflexões com dois casos” muito sérios:
O primeiro, histórico, actual, vivido em carne e osso: um amigo meu foi bater ao hospital com uma moléstia normal e aí agarrou uma outra, fatal, isso mesmo, uma infecção que o amarrou durante 17 meses consecutivos a a uma cama-prisão, completamente imobilizado. “Quase desesperei, mas uma força interior dava-me pés e asas para acreditar que venceria aquela batalha. Lembrava-me de Jesus de Nazaré. Mas, acredita, amigo Martins, nunca fiz nenhuma promessa, nem a Jesus nem à sua Mãe. Apenas me limitava a orar assim: “Divino Mestre, tu que atravessaste a Galileia e deste a cura ao paralítico e ao cego que encontraste à beira do caminho, só te peço que quando passares ao pé da minha cama te lembres deste pobre paralítico que é teu amigo”. Com as lágrimas a correr pela face (a dele e da minha) hoje estou curado. Sem fazer promessa nenhuma. Obrigado, Senhor, pela força que me deste, a mim, aos médicos, aos enfermeiros, aos auxiliares”.
O segundo “caso”, mais sério, porque tremendamente acusativo, vem no Livro dos Reis, capítulo quinto,   e resume-se: Naamã, o comamdante-general do exército sírio, tendo contraído a lepra, dirigiu-se ao Profeta Eliseu, depois de ter percorrido os melhores físicos (médicos e magos) de Damasco. E ficou limpo, “com a carne tenra como a de uma criança”  (5,14). A comitiva vinha preparada com presentes, ouro, prata, vestes sumptuosas para oferecer ao Profeta, o qual, em alta jura, protestou que não aceitaria nada, em nome do Deus Vivo. Entretanto, o seu ajudante, o levita Giési, tendo presenciado toda esta cena, deixou que o general e sua comitiva se afastassem a alguma distância, para logo se seguida , clandestinamente, a trote da sua montada, correu, correu e, com uma falácia ardilosamente engenhada, pediu as preciosas prendas e o “milagrado” ofereceu-as generosamente e em duplicado para acção de graças ao Deus de Israel. Ao fim da tarde, o Profeta chamou-o a contas e disse:Agora estás rico com o dinheiro com o dinheiro de  Naamã . Mas terás ainda mais uma coisa: “Vais ficar com a lepra dele, tu e a tua descendência. E assim se fez.” (5, 27).
Comentários, para quê?... Ficam ao vosso critério.
Termino com a sentença do Pe.António Vieira, no sermão da segunda dominga da Quaresma, em S.Luis do Maranhão, capital do nordeste brasileiro, diante dos altos comissários (altos e hipócritas) da Irmandade das Misercórdias: “As imagens de Jesus crucifiicado que estão nas igrejas são imagens falsas porque não padecem. Imagens verdadeiras de Jesus crucificado são os pobres, os doente, porque padecem e sofrem. Melhor que houvesse nesta cidade um hospital e não houvesse igreja. Mas, não havendo maneira, então que se converta esta igreja em hospital, que Deus ficará mui contente disso”.
Dito há mais de 400 anos!
       Onde cabem aqui as promessas vendidas e compradas para as igrejas?
Só regredimos, só nos enganaram!
E há povo que gosta de ser enganado.
23.Out.14

Martins Jr.