terça-feira, 7 de outubro de 2014

UM SR. COELHO, A CEGONHA E OS BEBÉS


           Há coisas diante do nosso nariz que nem ao Demo lembram. Como esta que vou  contar, quantas mais não haverá?!  Basta estar atento e descodificar-lhes a dimensão semântica.

         E podia começar assim; “ Era uma vez uma criança de cinco anos de idade”… Mas não. Foi mesmo, um dia destes, uma menina de cinco anos de idade, filha única de um jovem casal, na hora do recreio, foi interpelada por uma outra coleguinha:
                   ---Quantos irmãos tens?
                   --- Nenhum. Sou eu sozinha.
                   --- Eu cá tenho mais um e gostamos muito de brincar  juntos .

         Aí, a pequerrucha, corou, com um misto de mágoa e de espanto no olhar, mas passou logo à “defesa da honra” (diríamos nós, os adultos) e prontamente respondeu:
                   ---Sabes, a minha mãe disse que há um sr. coelho que não deixa a cegonha trazer mais meninos  para a nossa casa.
         A educadora de infância que deu meia volta estratégica e  com a mão no rosto tapava o riso  perante  uma laracha tão ingénua e tão directa..
         Nem de propósito! Nesse mesmo dia parece que o nosso Primeiro ficou com as orelhas a chiar, pois o tal senhor que a mãe ensinou à menina andava a perorar ardorosamente perante casais e educadores que é urgente fazer subir os índices de natalidade no nosso país.
         Os comentários ficam para quem lê.
        Sublinho apenas títulos da imprensa de hoje: “Em Agosto de 2014  o número de crianças que receberam abono desceu  44 859 em relação ao período homólogo…O apoio a crianças e jovens da educação especial caiu em mais de 69% entre Julho e Agosto deste ano… Mais de 400 000 estão sem subsídio de desemprego” E o menu servido à mesa dos casais portugueses alonga-se de dia para dia.  

         Ao nosso Primeiro já não lhe basta mandar emigrar os jovens. Ainda lhe sobra tempo para enxotar as cegonhas. Querem humor mais negro e arrasador , saído da voz branca  de uma infante?

         Há que repensar  o dramático discurso que se oculta sob a resposta da menina de cinco anos. “Não há nada mais terrível do que o olhar de uma criança”, estou a ver e a sentir um outro olhar, o de Antero de Quental. Até mesmo os movimentos rendilhados dos que esbracejam na praça pública para a salvar a vida intra-uterina da criança, oxalá tenham o mesmo afã em segurar a vida extra-uterina desde que sai do seio da sua mãe.

         Uma palavra final, um cântico, uma epopeia para tantos e tantas que, profissional ou voluntariamente, permanecem generosos e anónimos junto ao imenso berçário de quantos esperam amor, energia e perseverança para enfrentar a vida.

7.Out.14
Martins Júnior