segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A evidência científica e o nosso conforto: “SEM MORTE NÃO HÁ VIDA”


         Na roda gigante de todas as vidas, há um repetido stop que no nosso calendário civilizacional se pode definir como “duas em uma”: é o Dia da Apoteose, 1 de novembro, e o Dia da Saudade, o que imediatamente se lhe segue. Reúne-se o grande fórum da família universal, o incomensurável abraço do antes, do agora e, presuntivamente, do depois. Abrindo a necrologia dos jornais, vemos que todos os dias são 1 e 2 de Novembro.
         É neste círculo envolvente que trago esta reflexão sobre o que, sendo tão banal, se nos torna tão estranho. Pelo pavor e pela dor. Há quem lhe chame o último acto da nossa vida, há quem o classifique como a nossa última reforma, e até Fernando Pessoa vê o caso tão normal que até reconhece  que “morrer é só deixar de ser visto”.
         Pois bem, devo confessar que, de entre todas as intuições e definições --- e são tantas para quem, como eu, acompanha vezes sem conta o itinerário final de amigos e conterrâneos --- um dado empírico esboçado por um cientista de renome, o Prof. Dr. Carlos Fiolhais, tocou-me mais intimamente quando lhe ouvi em recente conferência: “Cientificamente, sem morte não há vida”. 
         Tanto basta para serenar os nossos ânimos perseguidos pelo espectro da morte. A nível da física, da química, da biologia, a conclusão é essa.
         Olhei então para o milagre da terra, para as mutilações a que são sujeitas as árvores, a vinha e, colocando-me na “pele” do ramo amputado, gritaria para o agricultor: “Por que me cortas, por que me matas?” . E a resposta está lá na raiz e no tronco. E que beleza maior que o rebento das folhas, as amendoeiras em flor, as cerejeiras mimosas branqueando a paisagem?! Mas a flor terá de cair para dar lugar à plenitude do fruto. E quantos grãos produzirá um grão de trigo entronizado num relicário sacro ou no mais rico guarda-jóias?... Zero. Mas “se morrer e se sepultar na terra dará muito fruto” (Mt. ) brotarão espigas douradas, pão farto para o banquete da vida.
         Transpondo a evidência biológica para o domínio da antropologia e da sociologia, quão diversos seriam os comportamentos e que de transformadoras e reconfortantes partilhas seriam tecidos os nossos dias?... De pais para filhos, de governantes para governados, de empregadores para assalariados, de mestres para discípulos. E que paz interior saber-se que a nossa finitude individual é a factura do inquilino transitório em prol do crescimento global projectado na História futura!  É inevitável dar o lugar a outros. Inevitável, mas glorioso!
         Deixo ao recôndito de cada consciência o fluir personalista deste filão inspirador.
         A este propósito, dei hoje com os olhos numa reportagem  (inquéritos e testemunhos) do “Libération”, edição de 2 de Novembro, intitulada “Mourir et Chansons”,  onde se lê:_”Entre os ateus e os crentes, tanto nos crematórios como nas igrejas, a música pop, rock, electro e demais variedades são cada vez mais convidadas para os ritos fúnebres”. Acrescenta ainda que, normalmente, as músicas são aquelas que o defunto mais apreciava, desde Time to Say goodbye de Andrea Boticelli e Sarah Brightman, Tears in Heaven  de Eric Clapton, Goodbye My Lover de James Blunt até a histórica Candel in the Wind de Elton John.
         Pela minha parte, jamais esquecerei aquele funeral, há muitos anos na igreja da Ribeira Seca, de uma mãe de seis filhos, ceifada por dolorosíssimo e prolongado sofrimento. Antes da cerimónia fúnebre, aproxima-se a filha mais nova, dez anitos, e diz-me ao ouvido: “Sr. Padre. A minha mãe, antes de morrer, disse-nos que ao sair o caixão pusesse o CD “Festa do Povo/ O Povo é que trabalha/ E faz o mundo novo”.  Arrepiei-me, pois nunca tal acontecera e perguntei-lhe o porquê  “É porque  essa canção era a que a mãe pedia, e aliviava-lhe as dores  mais fortes”. E assim se fez, com o espanto e a comoção de todos os presentes.
         “Sem morte não há vida”.
         Quando chegar a hora, não serão apenas os olhos e o coração que vamos doar aos que ficarem. É a vida toda que se transmite como um facho olímpico às futuras gerações. E aí, misturado com o orvalho da saudade, será maior o Cântico do Amor - entrega  total.
   
3.Nov.14
Martins Jr.