quarta-feira, 5 de novembro de 2014

BRITTANY MYNARD Suicídio assistido: glória ou maldição?


Não é do desemprego, nem é da guerra, nem da fome, nem da inflação, que venho propor o nosso habitual colóquio do  dia ímpar. É de algo aparentemente muito mais ténue, silencioso, mas estremecedor!
Refiro-me à morte assumidamente optada por essa jovem de 29 anos, em Portland, Estado do Oregon, USA. Nem custo de vida, nem fome, nem algemas serão mais impressivas  e dolorosas à sensibilidade humana que este gesto de alcance ilimitado. Que pensar ou que dizer acerca dele? Para começar, talvez seja  útil aproximá-lo de nós, da nossa família, trazê-lo para dentro de casa. Acontecesse a um dos nossos familiares. Ou a nós próprios. Qual a reacção, qual a resposta? Um cancro no cérebro… incurável…já no términus dos seis meses de vida  permitida pelo “monstro” assassino!
Deixemos livremente correr o pensamento, as incógnitas, os palpites. Primeiro, escutar a ciência, a neurocirurgia, a psicanálise, o acervo orgânico em causa. Depois, o sujeito passivo, o seu universo espiritual, depois a morte, o suicídio e o seu contraponto, a vida. Não embarquemos em dogmatismos de cátedra, mesmo que do Vaticano venham:  Será a vida um valor absoluto?  Parafraseando J:Cristo acerca do sábado: estará o Homem ao serviço da vida ou a vida ao serviço do Homem? 
Para o efeito, ajudar-nos-á a monitorização de  casos similares no decurso da História:

+  Na Grécia Antiga. o fundador da filosofia, Sócrates, mestre de Platão e Aristóteles, tomou ele próprio a cicuta letal na Primavera de 399 a.C.. Porquê? Condenado à morte  por irreligiosidade e perversão da juventude a quem ensinava a superioridade do conhecimento e a universalidade das normas morais, não permitiu que as sádicas mãos dos poderosos ditadores lhe tocassem: executou, ele mesmo, a sentença com a dignidade do seu carácter.

+ + Já antes, na história judaica, uma mãe de sete filhos incitou-os a preferirem deixar-se morrer antes que obedecer ao tirano pagão que os queria obrigar a comer carne de porco, o que significaria renegar a religião de Moisés. E todos  (a própria mãe, por fim) entregaram a vida, torturados e queimados. Para defender a dignidade da sua crença. (II Livro dos Macabeus, cap.7).

+ + +  Para definir a morte de J:Cristo, Jacques Paternot escreveu a obra O assassinato de Jesus. Sobre o mesmo facto Pierre-Emmanuel Dauzat  deixou-nos um outro título: O Suicídio de Cristo.  Em que ficamos? Num ou noutro caso,  fica de pé a honra da Palavra e da Mensagem.

+ + + + Na Primavera de Praga, como classificar a atitude de quem assumidamente lançou o corpo, a própria vida, às chamas?

+ + + + +  No romance de Gilbert  Cesbron  Les Saints vont en enfer  (« Os Santos vão para o inferno », alusão aos padres operários que, contra as ordens de Roma,  decidiram viver com os trabalhadores nos subterrâneos das minas) o autor conta que um destes trabalhadores, a quem o padre incutiu a fé em Cristo-Irmão dos mineiros, esgotado pela miséria da família e pelos pulmões já carcomidos, foram encontrá-lo morto numa das cavernas da mina, com um bilhete apertado na mão: “Irmão Cristo, não aguento mais, quero ir já contigo”.  Ao lado, os resquícios da dose fatal.

+ + + + + +  Em 2005, após longo litígio judicial entre os pais de Terri Shiavo (41 anos) e o marido, que pedia o fim daquele  martírio, foi retirado o tubo a que esteve ligada durante 15 anos.

******** Sábado passado, 1 de Novembro, dia da Grande Família Humana, Todos os Santos, foi a data escolhida por  Brittany Maynard, uma jovem esposa, bela, com um sorriso cativante, realizou o seu desejo, despediu-se da família reunida à sua volta: “My life, My death, My dignity”,  foi o seu testamento.

Quid juris?  A vossa opinião.  Cada qual pondere, discuta, interrogue. Para ajuda, podem recorrer ao precioso Livro do Prof.Dr.Pe. Anselmo Borges, Corpo e Transcendência,  (pag. 317 e sgs.)

Tudo para encontrar alguma luz ao fundo destes três túneis:
-  A medida e o objectivo do Sacrifício
-  O Homem ao serviço da vida ou a vida ao serviço do Homem
-  Quem decide que o que é crime num Estado e num outro já não é.

   E mais um  destes desconcertos que a vida tece: No mesmo calendário  em que os 29 anos  do CR7 sobem, triunfantes,  ao podium da 3º bota de ouro,  há (houve) uma jovem bela, olhar transparente, amante  da vida e do futuro, cujos 29 anos a transportam  à imensa  noite do sepulcro.
Para terminar, trago aos meus amigos e amigas o anúncio que o maior teólogo vivo Hans Kung, companheiro de Bento XVI no seminário, na universidade de Tubinga e no Concílio Vaticano II,  exarou no seu III Livro de Memórias, consignando o desejo de que, no momento certo,  pediria ao médico que lhe passasse para a mão e estivesse consigo no seu suicídio assistido.
        
A fragilidade e o heroísmo do ser humano!  Isto não fica por aqui.

5.Nov.14
Martins Júnior