sexta-feira, 7 de novembro de 2014

EM QUE TERÁ PENSADO BRITTANY MAYNARD ? E TU TAMBÉM?



                            Quanto vale o sofrimento?
                            Quanto pesa uma vida?
                            Quanto mede uma Pessoa?


Este corredor electrónico que nos oferece a tecnologia, considero-o um momento privilegiado para deambularmos de forma intimista, de mão dada,  pelas mais diversas paisagens do mundo e da vida. E para nos demorarmos onde acharmos útil e oportuno, seguindo a inspiração de Sebastião da Gama: “O poeta em tudo se demora”.
Pois bem, debruçámo-nos anteontem sobre aquele instante, a um tempo fatídico e heróico, protagonizado por essa jovem sedenta de vida, Brittany Maynard, em Portland, Estado do Oregon. Como ela, queremos a vida e não nos  deixamos paralisar pela eventual contemplação dos nossos fins. No entanto, o suicídio assistido que escolheu põe-nos problemas que todos os dias batem à nossa porta e que se apresentam como oponentes à decisão que ela tomou:   
1.:
Então o sofrimento não tem valor? E por que razão se apresenta como exemplar o caso de Jesus que sofreu tanto?

É este um dos estereótipos que têm modelado a mentalidade cristã e ocidental. Mas não será bem assim. O sofrimento, a dor, não são valores autónomos. Nem sempre Alfred de Musset terá razão quando escreveu: L’homme est un apprenti et la douleur est son maître  ( “o homem é um aprendiz e a dor é o seu mestre”).  Todo o sofrimento terá de possuir dentro de si o gérmen da esperança, a conquista de um bem maior, a felicidade. De contrário, não passa de dolorismo inútil, masoquismo estéril que conduzem à mais deplorável depressão. Frei Bento Domingues, com a lucidez dos seus oitenta anos, não se cansa de dizer: “Quem se deleita com  o sofrimento gratuito está precisando de um psiquiatra”.
O sofrimento, terá, pois, teleologicamente uma marca predominantemente  instrumental. Para os cristãos, incutiu-se-lhes durante séculos o estigma da Eucaristia como um Sacrifício. Nada de mais errado: A Eucaristia é um banquete, a Última Ceia, numa edição constantemente renovada, reveladora da magnânima personalidade de J:Cristo que, sabendo que iria ser traído e assassinado no dia seguinte, convidou os amigos para comer à sua mesa o pão da terra e o vinho novo da videira. Já no Velho Testamento, profetas houve que incarnaram esta convicção quando atribuíam a Deus esta máxima: “Eu prefiro a misericórdia ao sacrifício. Mais quero o Amor que os holocaustos”. E o próprio Maomé inscreveu no Corão este desiderato que poucos conhecem: ”Levar alegria nem que seja a um só coração vale mais que construir mil altares e mil sacrifícios”.   

2.
Não é a vida um dom sagrado que ninguém pode tocar, muito menos atentar contra ela?
Sem dúvida. Mas dela se hão-de deduzir as mesmas conclusões que acabei de explanar sobre o sofrimento. Ela há-de estar sempre ao serviço da Pessoa. Por mais paradoxal que possa parecer, tenho para mim que, ontologicamente, mil vidas não valem uma Pessoa. Mas uma Pessoa vale mil vidas. A interpretação de Vida como conceito autónomo pode desembocar numa exaltação do mais requintado egoísmo, nem que para isso tenha de sacrificar muitas outras vidas. Só vale a pena a existência enquanto força propulsora, central de energias renovadas projectando luz e sonho à nossa volta, ainda que, para tal, mirradas e vazias fiquem as nossas mãos. A esta luz e a este sonho, uma outra Pessoa, de nome Fernando, chamou “utopia e loucura”, há mais de cem anos, quando abriu a torrente do génio e definiu que sem elas,
                            Que é o homem
                            Mais que a besta sadia
                            Cadáver adiado que procria.

Em tudo isto terá pensado Brittany. Até na Última Ceia da letal poção, esquecendo-se de si mesma, deixou um rasto de luz e um redobro de esperança nos que, à sua volta, dela se despediam.
Gostei de ler ontem num dos diários do continente os optimistas depoimentos de António Arnaud, Moita Flores, Mário Zambujal. Vale a pena conferir.  

7.Nov.14

Martins Júnior