sábado, 15 de novembro de 2014

RETRATO DE MULHER


Desconheço a identidade ou a apetência ideo-teológica das pessoas que comigo conversam, dia sim, dia não. E por isso esclareço que entre sábado e domingo, dedico sempre o “dia ímpar” aos textos bíblicos propostos no calendário litúrgico respectivo. Para hoje e amanhã vou confraternizar convosco erguendo um estranho brinde de simpatia ao escritor que redigiu uma das mais vigorosas páginas do Antigo Testamento em homenagem à Mulher. Sublinho “estranho brinde” porque, como todos sabemos, a Mulher foi depreciada, vilipendiada, diabolizada mesmo, ao longo dos mil anos em que foi escrita a Bíblia. Toca as raias do ridículo o câmbio social de uma mulher: valia apenas uma costela do homem. Assim está decretado no Primeiro Livro, o Génesis, de Moisés. (Gen.2,21) E Paulo Apóstolo, (embora digam alguns exegetas que tal escrito não saiu da mão de Paulo) lá se preceitua que “às mulheres nas assembleias não lhes é permitido falar e se querem aprender alguma coisa perguntem aos seus maridos, porque não é decente que a mulher fale na igreja” (I Cor.14, 35-36).
Mas o texto de hoje é outro, visceralmente oposto. Leiam, se tiverem oportunidade, o Livro dos Provérbios, cap.31,10,sgs.. E vejam a radiografia e o pedestal que o seu autor, desconhecido, reconhece na Mulher: dinâmica, autónoma na organização da casa, da economia, é a primeira a madrugar, distribui tarefas, luta pela qualidade de vida  dos filhos e dos assalariados, o seu conteúdo funcional ultrapassa as quatro paredes domésticas e avança sem complexos a fazer contratos de compra e venda   com os agentes comerciais itinerantes, ao mesmo tempo que se revela  assumidamente ciosa  da conquista de um estatuto social para o seu homem, sentado entre os senadores da  nação.. Dela poder-se-ia dizer que atrás de um Grande Homem há sempre uma Grande Mulher. Atrás, não. Ao lado, ex aequo .  Ler esta página significa alcançar o “Prazer do Texto” , parafraseando Roland Barthes..
Transcorridos séculos, a evolução do pensamento e a luta no “feminino” vêm confirmar as expectativas do autor dos “Provérbios”. Saúda-se a avalanche crescente do auspicioso  tsunami chamado Mulher no tablado sócio-cultural e económico do mundo contemporâneo ocidental, luta essa que, mesmo à custa de massacradas vítimas, pensemos em Malala, vai rasgando brechas na maniqueísta civilização oriental. Segundo Myriam Mercy, “em África e na Índia as mulheres trabalham como condenadas”. A última edição do recém-criado semanário Le Un-1 traz uma bem escrutinada síntese, a nível global, sobre a poderosa vantagem  que a Mulher conquistou em sectores outrora monopolizados  pelo estatuto do Homem  Vale a pena lê-lo.
Não é, porém, a velha questão denominada “guerra de géneros” que motivou esta nota de fim de semana, mas tão só captar que nem sempre foi pacificamente aceite a tradição judaica da subalternização da Mulher. E este é um dado novo, claro e galvanizador. Por mais estranho que pareça,  as mulheres mais formatadas pela educação cristã e católica são, elas mesmas, as mais passivas e até hostis ao apelo genético de criadoras, lado lado com o Homem, de um mundo novo. Gostam da submissão., uma atitude quantas vezes mais cómoda, porque menos comprometedora. Parece-lhes um abuso, um pecado, tomar a dianteira na iniciativa e na acção. Aqui, temos de ressalvar a Mulher-protótipo do Livro dos Provérbios, temos de alcandorar Jeanne d’Arc, Teresa de Ávila e tantas outras anónimas dos tempos modernos, investigadoras, sindicalistas, pouco se importando que as alcunhem de revolucionárias.
Focalizando a nossa análise sobre os dois textos selecionados pelo coordenador litúrgico deste domingo, conclui-se que o poder transformador da sociedade é conferido, em  proporções iguais, à dupla  Homem/Mulher, cada qual fazendo reproduzir os talentos, as oportunidades, as capacidades dentro da sua  idiossincracia original. Mais se descortina, à evidência, que o Autor e Julgador dos mortais não se deixa comover com reverentes genuflexões ou votos pios. Ele quer  resultados, produção, avanços, que signifiquem vitórias efectivas na construção da História. E é por aí que seremos julgados.
   
15.Nov.14

Martins Júnior