terça-feira, 9 de dezembro de 2014

“ACABOU-SE O QUE ERA DOCE” ADEUS, ADEUS, 500 ANOS!


Adoptei o amistoso ditado popular para dedicar estas linhas aos três “doces” anos --- longos, badalados, clangorosos 1096 dias --- --- que duraram e se arrastaram as comemorações dos cinco séculos da diocese do Funchal.
Não vou comentar hoje as ditas comemorações. Fá-lo-ei em breve, como é meu dever, porque os 500 anos também são meus, são de todos os madeirenses e, em minha opinião, cada madeirense  deveria apor a sua impressão digital neste Livro de Ouro quinhentista da sua ilha, enquanto cristão diocesano.
Contemplo apenas o fecho das festas. E tanto basta para aquilatar da sua essência. Finis coronat opus --- diziam os antigos que o fim é a coroa da obra, em termos mais nossos, é a cereja em cima do bolo. E que cereja!... que tem tanto de cerejão como de cerejinha pêca. Na realidade, onde estão os “atlantes” de além-mar, os filhotes da arquidiocese, espalhados por essas dioceses longínquas?...  Onde o rasto dos patriarcas,  núncios “apostólicos”,  enviados pontifícios? Esfumou-se o cerejão da espaventosa estreia para dar lugar à cerejinha da horta caseira, a prata doméstica, representativa dos medalhados locais --- os mesmos de sempre --- perfilados e emproados, à espera que o pontífice presidente lhes dirigisse a primeira palavra: “sr. representante de… sr.  presidente do… sr.  presidente da… sr. comandante daqui ou dali”… Só lhes faltavam as fofas almofadas vermelhas que, no meu tempo, punham aos pés do governador civil e do governador militar. Para lotar o templo, a coincidência aniversariante dos escuteiros que, pelo todo, farda, bandeiras e lacinhos, me trouxeram à lembrança a antiga Mocidade Portuguesa, especialmente no 1º de Dezembro, com todas as forças em parada. Da “legião” de presbíteros, os padres, poucas sombras brancas e até os dois bispos madeirenses, desconsolados e órfãos, aposto que incomodados, murmurando para a cruz peitoral:” Por que não eu, que sou madeirense, a presidir, em vez de um estranho algarvio que nunca teve a ver nada com estes cinco séculos da nossa bem-aventurada Madeira?!...
E para que nada fugisse ao protocolo do festim das comemorações autonómicas, faltava a estátua. E lá vai a caravana habitual das inaugurações, vira as costas a João Paulo II, passa à ilharga da grossa madona da Praça do Povo e arredonda-se na marca de “canto” do velho “Almirante Reis”, onde a água benta substitui a incenso para aclamar a gesta dos portugueses (mais uma aposta: alguns figurantes estariam  a dizer “cubanos”) que vieram trazer a esta ilha a Fé de Cristo nas caravelas.
Qual Fé?  Perguntem, se puderem, ao Zargo, ao Tristão, ao Afonso V, o “Africano” e ao próprio Infante D. Henrique, o que os moveu na ânsia das Descobertas. Império, Poder, Comércio, Riquezas exóticas. A Fé não passou de uma bengala do Império, tal como os capelães militares na guerra colonial,  tal como o Eminentíssimo Cerejeira servia de hissope a Salazar e os últimos três bispos para a Madeira mais não foram que manequins nas mãos do poder político regional.
Melhor comentário não acho para esta encenação babada e inútil, do que repetir a estrofe 95 do Canto IV dos Lusíadas:
Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama,
Ó fraudulento gosto, que se atiça
C’uma aura popular, que honra se chama!
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Porque tenciono voltar a este tema, faço minhas as duras, mas criteriosas observações do meu amigo Padre José Luís Rodrigues na sua página do “Banquete da Palavra”. E quando é que nós madeirenses abrimos os olhos, quando é que vamos acordar desta letargia com que se enchem igrejas, promessas  e procissões, em tudo talhadas à medida e embrulhadas nos pacotes  dos poderes mundanos, esses mesmos que nos carregam aos ombros com um peso maior que aquela cruz intrusa  a que chamam monumento aos 500 anos?
É ainda a estrofe 96 que, adaptada a este episódio, nos brada de longe e avisa:
Chamam-te Fama  e Glória Soberana
Nomes com que se o povo néscio engana
Obrigado, Luís Vaz  de Camões! Não queremos ser néscios ou parvos ou insensíveis.
9.Dez.14

Martins Júnior