domingo, 7 de dezembro de 2014

NATAL HAVERÁ SEMPRE! MAS DEUS… “DEUS AINDA TEM FUTURO ?


Nem de propósito!
Vivemos a euforia pré-natalícia como que embalados naquela onda mítica que, mesmo na estação gélida, aquece o poente de cada ano que passa e a todos bafeja desde o berço  ao ocaso das nossas vidas. O Natal não acabará jamais. É a ternura do Menino, é o calor das “lapinhas” madeirenses, é o sortilégio multicolor nas ruas, nas varandas, nas árvores e é, sem falhar, o comércio das grandes e pequenas superfícies que se encarregam de tocar as campainhas publicitárias avisando que está  na hora de trocar prendas. O Natal tem, pois, futuro garantido.
Indagar-vos-eis, estou a ver, sobre qual estranho toque foi este de fazer tão questionável sublinhado: “DEUS AINDA TEM FUTURO?”.
A resposta vem no título do livro, lançado, dia 4 pp,, no Centro Nacional de Cultura, Lisboa, no qual tive a grata oportunidade de tomar parte e intervir. É uma edição da “Gradiva” e compendia  o colóquio de três dias realizado em Valadares, sob a proficiente coordenação do conhecido e amigo nosso Prof. Dr. Pe. Anselmo Borges. Inclui as prestações de abalizados teólogos, nacionais e estrangeiros, cientistas, agnósticos, crentes e não crentes, mas todos preocupados com o Ser, “um tema inesgotável, sem fim e eternamente recomeçado”, no dizer do grande Mestre Aristóteles. Não vou decifrar os vários capítulos das 333 páginas impressas, dado que, após Coimbra, Porto e Lisboa, esperamos que o Funchal mereça brevemente as honras da sua apresentação.
Refiro-me tão-só aos oradores presentes na mesa: além do citado coordenador, também o presidente do CNC, Dr. Oliveira Martins; o presidente do Conselho Nacional de Bioética, Prof. Dr. Oliveira e Silva e o neurólogo, filósofo, teólogo, Prof. Dr. Javier Monserrat, da Universidade Autónoma de Madrid e da Universidade Comillas, também de Madrid,
Quero supor que para grande parte das pessoas este é um assunto arrumado: os que crêem crêem e os que não crêem não crêem. Ponto final. Mas não será bem assim. Basta pensar, por mais vasta que seja a nossa imaginação, nos milhares, milhões. biliões, triliões de livros que passaram pelas mãos de pensadores e pelos prelos das tipografias sobre o enigma de Deus, designadamente após as novas teorias do bosão, do big-bang, da evolução das espécies --- a inextrincável dicotomia “creacionismo-evolucionismo”. Por outro lado, não esqueçamos as decorrências que advêm da existência de Deus: as religiões e o seu séquito de superstições, angústias, medos e depressões; os fanatismos geradores de guerras, de sanguinárias enormidades; os tronos e ditaduras que se ergueram “em nome do Pai”; os mártires que pagaram com a vida a firmeza das suas convicções; os mitos estripadores da inocência original da psicologia humana e subsequentes explorações financeiras, enfim, cuidado, muito cuidado em desvendar e traduzir a transcendência e/ou a imanência da Divindade para os nossos códigos infinitamente distantes do Supremo Ordenador do Universo.
Claro que --- como tenho dito aos que frequentam o nosso modesto templo --- dá menos trabalho rezar que pensar. Mas pensar é preciso, é urgente, neste  exíguo quadrado que é a nossa vida.
E, por isso, o Prof. Dr. Oliveira e Silva abriu a toalha sobre a mesa com esta pergunta nevrálgica: “De que Deus estamos a falar?” e, na mesma linha, os restantes oradores e intervenientes do vasto auditório. E por aqui me vou ficar, deixando a cada um de nós a mesma interrogação essencial: “Em que altar e a que Deus presto o meu culto e a minha vassalagem?... E como será a face do Deus dos outros?”...  Desde já previno que a floresta da dúvida e do conhecimento nesta matéria não é caminho chão. Mas vale a pena procurar a Luz! Condição “sine qua non” para seguir viagem nesta rota das estrelas, cito o Prof. Dr. Javier Monserrat: “é absolutamente indispensável baixar as armas e abandonar toda espécie de ditadura do pensamento: “Que os teístas não sejam dogmáticos nem os ateístas sejam irredutíveis”.
Peço desculpa por este aperitivo, talvez demasiado denso, para o Natal. Repousemos o nosso olhar nessa criança-adulto da gruta de Belém que trouxe um programa didáctico ao mundo e pelo qual deu tudo quanto tinha: mostrar uma das faces de Deus, aquela que antes e depois dele, as instituições encarregaram-se de denegrir.

7.Dez.14

Martins Júnior