terça-feira, 29 de dezembro de 2015

ACONTECE EM MACHICO: BELEZA E ARTE AO VIVO E AO ALTO!


Não há  rotativa que imprima nem “câmaras” tão vastas que fixem a profusão incontida de emoções que pululam do coração da ilha, desde as ricas urbes até aos mais ignotos lugarejos perdidos nos vales côncavos da nossa paisagem. Para a comunicação social oficializada contam apenas os feitos e enfeites mercantilizados, a opulência propagandística das entidades promotoras, enfim, a carcaça despersonalizada das cidades que, por mais deslumbrantes que se apresentem,  não deixam de ser carcaças iguais a todas as outras, de um outro hemisfério.  Na sombra, como se fossem campo morto, ficam as iniciativas nadas e criadas na alma das gentes, sobretudo, nas periferias das grandes capitais. E é precisamente aí que o Natal transborda, generoso e sem limites, numa maré cheia que nos  invade de um delírio extasiante, quase místico, até ao mais íntimo de quanto somos. A razão de ser  desta mágica transfiguração radica na sua fonte secreta: a inspiração criativa dos seus artífices e usufrutuários --- o povo, as crianças, os jovens, os artistas locais, os pais, os filhos, famílias e vizinhos, todos simultaneamente autores e participantes. Os media não se interessam em divulgar e, com isso, apenas sobreelevam a autenticidade plena das iniciativas.
É o que tenho presenciado e vivido nesta faixa leste da ilha da Madeira,  terra da nossa pertença, onde o sol nasce primeiro. Muitas e variegadas manifestações deste teor têm-se  repetido ao longo da quadra natalícia. Quem assim vive inebriado do bucolismo solto e puro --- “puro como os bosques e doce como as donzelas”, diria Ruy Belo --- esquece o barroco dos mais sofisticados ambientes.
Acabo de participar, agora à noite,  num oásis de frescura surpreendentemente matinal, no Forum Machico, oferecido pela Associação “Grupo Coral de Machico”, juntamente com a centenária “Banda Municipal de Machico”. Outros dirão que não há aqui a sumptuosidade dos teatros clássicos ou o requinte de uma Broadway. Mas tal como desabafava o cardeal português Gonzaga,  do nosso Júlio Dantas, aqui, como é diferente o amor deste Natal!… Logo na ribalta o friso de gerações, “ensemble” juvenil de guitarras e o coro infanto-juvenil, Tuna da Banda Municipal, logo seguida dos quarenta consagrados coralistas, um trabalho feito com distinção e afecto pelo maestro Nélio Martins, quer no seu conjunto vocal, quer nos solistas, de exímia interpretação.
Acoplando o aforismo latino Finis coronat  opus (“ o fim é a coroa da obra toda” ou, em linguagem popularizada, “a cereja em cima do bolo”) surge, imponente, a actuação da Filarmónica. Embora seja batida a adjectivação, mas apraz-me trazê-la a este contexto:  Fabuloso é o menos que se pode dizer! Oh, o rio visceral que percorreu corpo e alma da casa cheia desta noite”… Oh, a torrente avassaladora dos metais que nos fizeram transportar para a grande paisagem que a lua iluminava na terra e no mar!... A Cassiopeia, do compositor Carlos Marques, não deixou nenhum espectador agarrado à cadeira, com a Banda dirigida por Miguel Canada e, depois, com orquestra e coro  sob a condução de  Nuno Santos. Foi oportuna a iniciativa de tornar  gratuito o espectáculo,  pois nenhum preço pagaria tão preciosa “prenda” de Natal e Fim-de-Ano. Impossível esquecer o Ave Maria,  de William Gomez, com orquestração de Simone Nucciotti e superior interpretação de Cristina de Sousa.
O melhor aplauso não veio das prolongadas palmas, mas do “brilhozinho nos olhos” de quantos dali saíam, como quem sai de um banho de espuma marinha, mais leves, mais livres. Da minha parte, o reconhecimento ao director da BMM, prof. Manuel Spínola e, embora ainda ausente (que volte depressa!)  ao maestro  Nelson Sousa. De registar o apoio da  Câmara e Junta, cujos titulares ali estiveram, como é seu dever e seu hábito, no exemplo a transmitir à comunidade  de Machico..
         Fico sabendo que amanhã, dia 30, idêntico acontecimento será levado ao palco por uma outra organização local. Parabéns! Bem hajam todos os promotores. É com iniciativas autóctones, por mais  modestas ou desapercebidas da Grande Reportagem, que se semeiam, como chuva miudinha arroteando os campos,  a cultura e a civilização de um Povo.

29.Dez.15
Martins Júnior

domingo, 27 de dezembro de 2015

RIBEIRA SECA EM MACHICO: BELÉM DOS TRÊS PRESÉPIOS


Nenhuma tradição  ditou tantas e tão singulares fontes de inspiração artística como o Natal do ano I da nossa era. Embora se atribua a Francisco de Assis a sua primitiva criação  no século XIII, o facto é que miríades de estrelas natais se abriram por tudo quanto é espaço terráqueo, cada qual com o seu brilho e sua tonalidade. Quer no Oriente, quer no Ocidente, na paisagem africana ou nos confins da Ásia,  mãos de artífices nativos deram forma e cor ao cenário quase mítico de um parto único na história dos nascidos e dos nascituros: a gruta ou estábulo, o calor da vaca e do burrinho (que o ex-Papa Bento XVI considera inverosímeis), os pastores, o coro do “exército celeste” e até os (reis) Magos que inicialmente seriam doze, reduzidos mais tarde ao máximo de três pelo Papa Leão no século V --- todo este enquadramento pleno de ternura e romantismo avassalou a imaginação de criadores ancestrais que ainda hoje se repercutem nos mais longínquas paragens e civilizações.
         Não obstante a persistente representação folclórica do presépio, é lícito e desejável que se descubram na esteira da estrela de Belém cintilações múltiplas e originais traduzindo as mil mensagens que dimanam da aparição daquela criança no mundo. Pobre e redutor seria olhar o acontecimento pela instantânea objectiva doe um eventual fotógrafo primário. Há muita paisagem social e humana,  há muitos revérberos de espiritualidade para além da moldura bucólica que envolve o Menino “numas  palhinhas deitado”.
         Assim tem acontecido, todos os anos,  no  modesto vale da Ribeira Seca, a nordeste do grande vale de Machico. No ano de 2015, templo, palco e mapa-jardim da Madeira juntaram-se para cada qual relevar a tríplice dimensão do presépio. Fruto do trabalho braçal de homens, mulheres e jovens, Ribeira Seca apresenta-se como a “BELÉM DOS TRÊS PRESÉPIOS”.
         Dentro da igreja, o figurino tradicional resplandece nas cores da vida que enlaçam toda a dimensão do altar, o vermelho do coração, o verde do sonho e da esperança, o abraço quente do Menino de outrora envolvendo quantos o sentem, dentro ou fora do templo.
                                                                      


No palco aberto e livre, a sugerência do Globo em madeira rústica, onde se desenha a grande trajectória da espécie humana sobre a terra, desde os seus primórdios. Figuras semelhando antigas civilizações convergem todas para o berço, feito com vime dos nossos campos. Elas, caminhando na mesma direcção, sugerem também os refugiados foragidos da guerra. Num outro plano vem aquele ansiado desiderato da Paz, com os camuflados de guerra espalhados pelo chão e as armas quebradas junto ao presépio: é a mensagem inacabada de Belém que aos homens compete concluir --- perante  o berço do Menino e servindo-lhe de  alcova , o material bélico transformado em cravos e violetas.
No mapa da ilha, desenhado no jardim, então prestamos homenagem aos nossos antepassados, com a antiga “lapinha em escadinhas”, símbolo de uma história vivida há seiscentos anos desde a Descoberta. Estamos, na trilogia dos símbolos, irmanados  com o passado, o presente e o futuro.
                                                 

       
  Encimando todo este singelo anfiteatro, ergue-se lá no alto, dentro do globo terrestre Jesus-Menino, todo iluminado, prodigalizando  o seu carinho, não apenas à Ribeira Seca, mas “a todos os homens de boa vontade”.
         A criança de Belém é tão ampla e poderosa que não pode circunscrever-se ao “miminho” de uma gruta. Ela tem uma dimensão cósmica, tocante e actual, que cabe a cada época descobri-la e realizá-la.
BENVINDO SEJA QUEM VIER POR BEM
                   NATAL SEMPRE!

27.Dez.15

Martins Júnior

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O PARTO FINAL, SEM O QUAL NÃO HÁ FESTA



Chegámos ao topo alto desta pirâmide construída em nove dias, ao abrir da madrugada. E no seu vértice erguemos a bandeira do Perdão. Este é o nosso parto sem o qual não haverá festa. Ele é doloroso mas, no seu términus, brinda-nos com o gostoso fruto da saúde física e mental. Com o bolo-rei da Paz! 
Doloroso porque nos põe em tribunal, onde não há testemunhas nem advogados. Somos nós próprios réus, testemunhas e advogados nesta causa.
Hoje é o dia de transformar o deficit em superavit: o deficit sombrio da auto-acusação negativa (conflitos, maus humores, indiferenças e vinganças) em superavit de conciliação, respiração sadia, sublimação de complexos depressivos contra terceiros.
E tudo isto é trabalho nosso. É o nosso parto necessário para alcançar o firmamento sem nuvens do Dia de Natal. Daqui a pouco, na Festa-Eucaristia do Perdão,  confrontar-nos-emos com o drama da condição humana de que já Públio Ovídio Nasão, na antiga Roma,  inelutavelmente se penitenciava: Video meliora deteriora sequor --- “vejo o que é o melhor, mas sigo o pior”.
Tarefa exclusivamente nossa: nem de Deus, muito menos da Igreja, pior ainda da confissão dita sacramental. Só um louco é que teria a ousadia de conseguir ofender a Deus, quando nem tem força para atingir as nuvens com uma pedra. Prejudicamos o outro. E ao outro que se deve pedir perdão. A ofensa e o perdão são um contrato bilateral entre o agressor e o agredido. Mais ninguém. De muito longe vem esta reflexão comunitária no lugar onde vivemos: nenhum perdão sai da Igreja se, primeiro, não lá entrar. Dizia-me um amigo ancião, analfabeto para o mundo, mas sábio da filosofia existencial: “ É como o pão amassado em casa. Só vou achar perdão na Igreja, se já o levar amassado para a Igreja”.
Os maiores criminosos, autores do grande pecado social, desde legisladores a governantes,  juízes e testemunhas, cardeais e ateus, ladrões e especuladores, esses já perderam toda a sensibilidade e a gangrena que lhes rói os ossos impede que sintam os atentados ao outro, aos outros. Por isso que nunca terão Natal, por mais rica que seja a baixela da sua mesa.
Às seis da manhã de 24 de Dezembro,  o parto do Perdão será o Pacto da Aliança entre ofensor e ofendido, sem que um ganhe ou outro perca. Não haverá vencedores nem vencidos. Todos ficaremos a ganhar.
Sem esta Festa --- a do Perdão --- não haverá a outra Festa: o Natal.
Bom Perdão --- o mesmo que dizer Boas Festas!

23.Dez.15
Martins Júnior



segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

DEMORE-SE E FAÇA O SEU “CANTICO DOS CANTICOS”

Para se chegar à Festa/ Festa da nossa alegria/ Anda tudo baldeado/ Como o mar em levadia/ Ninguém pára nem descansa/ Quer de noite quer de dia
Cantigas do povo, como esta, traduzem a azáfama e o bulício que põem tudo a mexer: crianças e adultos, estradas e veredas, geleiras e igrejas. Não há tempo porque o tempo urge. Muito menos para ler. E não serei eu a meter areia no maquinário das tarefas radiantes mas efémeras desta semana melhor. Apraz-me assim designar estes dias. Se na Páscoa há a Semana Maior, no Natal sobressai a Semana Melhor. Por isso, limitar-me-ei a respigar notas soltas do sumário de ideias que  temos saboreado no novenário da Missas do Parto, como primeiro manjar das seis horas de cada manhã.
É a imanência do Parto, mais a sua transcendência  que nos trazem presa a atenção e a emoção, principalmente no tocante à terra, à ecologia, à vida. Hoje esquecemos decididamente os atentados ao ambiente, deixámos de fora a poluição dos campos e dos mares, para só nos extasiarmos diante de uma flor, de uma tangerineira, das majestosas  montanhas, do azul infinito que une os extremos do céu aos oceanos. Numa palavra, hoje é dia de ser poeta do verso de todas as cores do arco-íris. “O poeta em tudo se demora” --- assim ecoa dentro de nós  a  “linda, longa melodia imensa” de Sebastião da Gama. E o “Guardador de Rebanhos estira-se ao longo do manto da verde relva e vê saúde, respiração, felicidade.
Habitar o campo, conversar com o vetusto tronco da nogueira, ver crescer como um filho os “pés de semilha”, tão mimosos como as rosadas buganvílias, enfim, beber a água das nascentes e inebriar-se do cheiro da terra, do milagre da vida que se oferece gratuitamente aos nossos olhos e nós nem damos por ele. Que pena calcar aos pés da indiferença mortiça as violetas roxas de paixão que são pisadas e nunca se queixam…
“Olhai os lírios do campo”, repete Eric Veríssimo o lirismo bucólico do Cristo histórico. Ele, o “Maior dos filhos dos homens” também era poeta, também se demorava como a abelha obreira sobre o mel a haver das flores silvestres. O povo da ruralidade tem um privilégio que não têm os inquilinos das cidades.   
Acompanhámos  o LAUDATO SI  em cujas páginas o quase-octogenário Francisco jovem do século XXI evoca o Francisco romântico do século XIII que a todas as terras, a todos os sóis, a todos seres chamava “Meu Irmão e Minha Irmã”.
“Demore-se” um pouco…pela sua saúde --- física e mental. E ao olhar o presépio ame o Planeta e o que ele contém. Mais ganha em “demorar-se” do que em ir à farmácia… É o que de mais doce traz este Natal!
“Olhai os lírios do campo”… e deliciai-vos com o “Cântico dos Cânticos” --- o bíblico e o vosso  do dia-a-dia.  

21.Dez.15

Martins Júnior

sábado, 19 de dezembro de 2015

PATERNO-MATERNIDADE UNIVERSAL “Irmãos, amai a Terra”!



Terminei o meu último bilhete postal de SENSO&CONSENSO com a descoberta da evidência que nos envolve e da qual nem sempre guardamos registo: A Terra inteira está grávida de sonhos e tesouros que esperam por nós para ver a luz do dia, confirmando assim a natural vocação de cada ser humano --- todos somos parturientes, progenitores nesta “Casa Comum” da paterno-maternidade a que todos somos chamados desde a nascença.
Só que, para desdita nossa, umas vezes somos progenitores, outras somos assassinos que devoram a Vida no próprio ventre da terra-mãe.
Serve esta alcatifa textual de introdução para informar que, em 2015, a estrela que vai polarizar, aliás já iniciámos,  as nossas Missas do Parto na Ribeira Seca consiste na resolução da grande incógnita,  suspensa como espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças: criadores ou assassinos?
Surge, logo à entrada, o trato que as nossas mãos têm dado ao planeta, ou seja, a magna questão ecológica, uma questão de vida ou de morte. Já sabemos que são os países mais ricos os que, avidamente, mais destroem a Terra que é de todos. Os sucessivos fracassos das cimeiras, como a do Brasil e a de Quioto, procuram agora emendar a mão e sanar crimes ambientais, na Cimeira de Paris.
Não vou repetir os considerandos expendidos  em páginas anteriores, mas tão-só dar a conhecer a decisão de ocupar o novenário pré-natalício com a leitura de textos, não apenas bíblicos, mas também científicos sobre os benefícios e malefícios do ambiente, incluindo a encíclica LAUDATO SI do Papa Francisco, um documento que se posiciona como um cântico triunfal à criação e, ao mesmo tempo, um vigoroso libelo acusatório contra os que, atraiçoando a sua identidade vocacional, passam os dias a congeminar os mais sofisticados estratagemas para envenenar os vivos e matar a Terra. Desde a destruição da Amazónia até ao anúncio da projectada pesquisa de petróleo no Algarve (que está a merecer uma justa indignação dos algarvios) tudo estamos a ponderar nestes dias evocativos do Grande  Parto da Vida, em Belém.
Amanhã prosseguiremos a leitura do Irmão Francisco, o argentino, esse texto que galvaniza os espíritos mais empedernidos e ofusca as trevas dos maquiavélicos manipuladores dos direitos da Terra e do Homem. A título exemplar, reproduzo aqui a citação que Francisco Papa transcreve do Patriarca Bartolomeu: “Atentar contra a natureza é pecar contra Deus e contra a Humanidade”.
E porque a Criança de Belém não veio cá para passar férias ou suportar estafadas devoções folclóricas, também a nossa comunidade procurará despertar a sensibilidade para tocar e estremecer de júbilo ao tocar com as mãos a Beleza inimitável dos “lírios do campo que não tecem nem fiam, mas que se  vestem daquela magnificência que nem o rei Salomão conseguiu igualar, muito menos suplantar”-
“Irmãos,amai a Terra” --- proclamava  Nietzsche, o fogoso filósofo alemão.
Força, caminhantes da descoberta!

19.Dez.15
Martins Júnior


quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

“VIRGEM DO PARTO, OH MARIA”! Este planeta --- uma imensa maternidade


Em toda esta nação de Santa Maria não há povo tão  madrugador como o do arquipélago da Madeira!
É o que certamente dirá qualquer visitante, venha ele do continente português ou fora dele. E tem razão. Quem percorre, de agora  até ao Natal, as cidades e aldeias das nossas ilhas há-de avistar-se com  romarias e cantares, aqui, acolá, mais além, ininterruptamente, tal como sucede a quem faz uma viagem intercontinental e vê lá do alto o sol nascente, surgindo à compita na crista de cada fuso horário percorrido.
A nossa gente ama o mágico, o secreto sortilégio da aurora que vai nascer. Faz mesmo lembrar as luminárias de outrora, os ritos inebriantes das eras pagãs, sobretudo o dies natalis solis invicti --- “O dia do nascimento do sol invicto”, alusivo ao solstício de inverno e que terá sido absorvido pelo Natal do Menino. É bonito de se ver o povo na sua estatura sacro-profana, dando largas à alegria que o liberta de traumas e medos do quotidiano onde tantas vezes resignadamente vegeta. Já não direi o mesmo quando  à  “Missa do Parto”, que virou moda, se atrelam instituições  estranhas à comunidade,  perdendo-se aí a típica    espontaneidade popular. É saudável e reconfortante ver  a comunidade intacta e unida no seu respiro matinal.
Mas seria uma grande pena se os animadores-figurantes do folclore mariano ficassem  por aí, no arraial ligeiro de chocalhos e machetes. Porque a devoção à Senhora do Parto condensa, desde tempos imemoriais, a intuição e a sensibilidade telúrica de um povo que ama a vida incarnada num novo “pequeno-grande ser” que nasce sobre a terra. Interpreto como um poema, quase-epopeia, a saga de quem rasga o ventre materno para pegar no facho da vida e iluminar a noite escura do planeta. Sem parto não há mundo nem há vida.

No humilde templo onde também se festeja a Senhora, chamada do Amparo, é esta a palavra-passe que vai abrir o computador das nossas mentes durante estas madrugadas. O Parto ! --- início e meio ecológico onde cada um de nós faz ressurgir e crescer “a ânsia de subir e a cobiça de transpor”, como triunfalmente cantou  Goethe,  no seu “Fausto”.
Vamos reflectir e descobrir que este Planeta é uma imensa e colossal Maternidade onde todos nós somos parturientes do futuro, criadores do amanhã: somos todos e simultaneamente dadores e beneficiários, progenitores e herdeiros. A terra inteira está grávida de sonhos e tesouros que esperam por nós para ver a luz do dia!
         É a nossa essencial  homenagem à Senhora e o que Ela de nós mais espera.  E depois, cá fora, o povo espontaneamente confirmará, com euforia e substância, a alegria natural de co-participar no renascimento da Vida!

17.Dez.15
Martins Júnior     

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

CASAMENTO CIVIL-CASAMENTO RELIGIOSO: Linha do meridiano entre dois hemisférios



Dezembro, mês de ternuras, de casamentos, de natais. Na geada fria que perpassa à nossa beira, passam também os segredos da vida --- biológica, afectiva, social --- e, com eles, o sortilégio e o encanto que sobredoiram a monotonia do comum dos dias.
Coube-me essa prenda de Natal quando, no mesmo dia 12,  fui  chamado a associar-me a duas cerimónias de casamento: tão diversas no ritual e tão iguais na sua essência.
Dois casamentos --- um civil e outro religioso. O primeiro nos jardins da velha fortaleza que se ergue há mais de trezentos anos, como sentinela vigilante, no coração da baía de Machico. O segundo, no templo da Ribeira Seca, situado num território de história também  tricentenária.
E começa, precisamente por aqui, a similitude de identidades convergentes: o templo da Ribeira Seca tem origem na primitiva capela que, em 1692, o capitão-secretário da Câmara de Machico, Francisco Dias Franco,  mandou construir sob a égide de Nossa Senhora do Amparo. A fortaleza, construida em 1706, dedicou-a o seu autor, o mesmo Francisco Dias Franco, à mesma Senhora, sob a designação de Nossa Senhora do Amparo.
         O objectivo deste meu SENSO&CONSENSO não é mais que o de partilhar a emoção e a descoberta de horizontes que a mentalidade tradicional nos apresentou tão contraditórios e que, no seu íntimo, são tão unidos e congénitos como as linhas do círculo quando se encontram--- casamento no civil e casamento na igreja. Semelhanças e contrastes. Quem se lança à decifração do enigma?... Levar-nos-ia longe esta incursão e decisivas seriam as conclusões. Limito-me a partilhar aqui  a síntese do discurso, em tudo semelhante, que dirigi nos dois eventos festivos, sujeitando-me à contradita de quem julga por critérios diversos dos meus.
                                                     


1 – O casamento é um contrato bilateral da inteira e única responsabilidade dos nubentes. Por isso, o Código de Direito Canónico classifica-os, aos nubentes,  de ministros do matrimónio. Assim sendo, o padre não casa ninguém, o bispo não casa ninguém, o papa não casa ninguém. Estes são apenas testemunhas qualificadas que aceitam o juramento daqueles. Mesmo casando em Roma, com o Papa a presidir, 100 cardeais, 1000 bispos, 10 000 freiras, 1 000 000 de fiéis  apinhados em S. Pedro --- se, na altura da declaração de vontade, um dos nubentes dissesse que não --- podia o Papa desfazer-se em bençãos rituais, mandar chover água benta, haveria um tsunami de orações e cânticos  --- haveria tudo…menos casamento. Ai, se os casais descobrissem e interiorizassem a nobreza e magnitude do seu compromisso, livre e responsável, então aguentariam firmes os embates da vida. E a  quem viesse dizer-lhes que o casamento era uma prisão responderiam gloriosamente, como Gilbert Cesbron num dos seus romances: “A minha prisão é um reino”!
2 – O elixir “ mágico” e o segredo da longevidade do amor conjugal residem dentro dos nubentes e podem resumir-se neste breve axioma: Quem muito ama- muito dura. Quem ama pouco–pouco avança. Quem ama totalmente-ama eternamente.
3 -  Não foi por mero acaso que o primeiro milagre que Jesus realizou aconteceu precisamente numa festa de casamento. Gente trabalhadora, gente humilde, pois até faltou o vinho na festa. Milagre, o primeiro, porquê?… Porque não há maior milagre do que unir duas vontades livres e responsáveis num mesmo tronco existencial. Para mais, neste caso, no mesmo afã de amar e construir o mundo novo que brotará daquela jura assumida, consciente.
4 -  Por isso, em cada casal que se entrelaça, aí se encontram um Novo Adão e uma Nova Eva. Com eles, recomeça a trajectória do planeta habitado pelos humanos, a partir do "jardim terreal" do espaço onde irão viver.   
Casamento civil –casamento religioso: em qual dos dois estará Deus mais perto?... Só os noivos poderão responder. Porque todo o cenário envolvente --- local, oficiante, coro e orquestra, padrinhos, convidados --- não são mais que a moldura do quadro dentro do qual o segredo do sucesso está na força  do seu voto, ali subscrito mais com a cor do seu sangue do que com a tinta do  aparo dourado.

Para os dois casais amigos, o abraço da primeira hora!
A felicidade segue os vossos passos.


15.Dez.15
Martins Júnior

domingo, 13 de dezembro de 2015

NOVO LIVRO DO GÉNESIS

 Ao jovem casal que ontem se enlaçou nas ameias da velha fortaleza



Nos jardins do castelo antigo
Onde outras eras se somem
Ergueu-se o Primeiro Homem
Nasceu a Primeira Mulher

Chame-te Ulisses quem quiser
E a ti Penélope a fiel dama
E até Shakespeare vos chama
Julieta e Romeu
Mas eu
Ancião vidente mesmo no meio da treva
Não tenho outro pregão
Senão chamar-te o Novo Adão
E em ti saudar-te a Nova Eva

Convosco
A História toda recomeça
Dentro de vós a promessa
Rubra esperança  verde grito
De um novo mundo a abrir
Em cânticos de festa
E acordes de Infinito

Aqui entrastes
Namorado cavaleiro
E mítica princesa


Aqui fez-se o milagre
Que eu tanto  procurei
E o castelo todo sente e adivinha:
Doravante sereis vós
Sua Alteza
Nelson - Rei
Sua Beleza
Sandra – Rainha

13.Dez.15

Martins Júnior

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

CLIMA DE CORRUPÇÃO E CORRUPÇÃO DO CLIMA --- onde são arguidas as religiões

           
              Imagino que o mesmo se deve passar convosco: é que há instantâneos na vida que nos chocam como um relâmpago. E, como um relâmpago, projectam um raio de luz tão fugaz quanto impressivo no nosso subconsciente adormecido. Do susto inicial passamos  descoberta de  pistas que umas vezes confortam, outras vezes perturbam. E interpelam-nos até à medula dos nossos conceitos ou preconceitos.
         Foi um dia destes. Atravessava eu a corredora,  quando um rádio-ouvinte da Antena Aberta sobre o cancro da corrupção que corrói a sociedade, chama à liça o problema religioso e, sem titubear, emite esta estranha opinião: “Quem muito tem contribuído  para o vício da corrupção é a Igreja Católica, porque na religião luterana as coisas não se passam assim. A educação católica ensina a devoção mas não dá a formação às pessoas”. Parei, atónito, com o relampejar  seco desta afirmação, sentei-me e pus-me a matutar num facto que atravessa o  quotidiano dos nossos noticiários e respectivos comentadores: enquanto entre nós, no sul, os corruptos e corruptores continuam nos cargos e até chegam a ser promovidos,  sucede que nos países nórdicos, por muito menos, demitem-se ou são demitidos imediatamente. A história mostra que os anglo-saxónicos optaram pelo luteranismo e, em contrapartida,  os do sul-europeu pelo catolicismo,  supostamente evangelizador.
Como num caleidoscópio efervescente passaram-me pela retina as cenas dos  cristãos-novos, a Inquisição, os escritores e cientistas que tiveram de sair de Portugal e exilaram-se na Holanda, na Alemanha, onde foram bem recebidos, caso do nosso Damião de Góis. Logo de rompante, acudiram-se à memória as “Conferências do Casino”,  em 1871, com a famosa (e fatal para o projecto) dissertação crítica --- Causas da decadência dos Povos Peninsulares ---  em que Antero de Quental acusa a pusilanimidade e a dependência de Portugal e Espanha aos dogmas de Roma, em vez da plena libertação da criatividade do espírito humano. A tudo isto chega e  cai-me nas mãos, esse duplo “atentado” ao sagrado mito do Vaticano. Refiro-me aos dois livros “malditos” --- Avareza, de Emiliano Fitipaldi e Via Crucis, de Gianluigi Nuzzi, ambos jornalistas --- cujos testemunhos, cópias de documentos oficiais sigilosos, denunciam a ganância e a corrupção nas entranhas da sede do vicariato de Cristo,  abusiva designação esta  que nos tem sido martelada ao longo de séculos.
         Não poderei pedir às escassas dimensões desta página intermitente a exigência de um estudo comparado das religiões. Tão-só, responder ao assalto que o relâmpago daquela frase causou dentro de mim. Será que nos subterrâneos da corrupção correm, porventura, os lençóis freáticos da religião, que lhes dá forma e fundo?... Contra factos fenecem os argumentos. E eles aí estão escancarados na via pública, em proporções diversas, sendo certo que os pesos pesados impendem sobre a Igreja, como instituição.
         Seja qual for a opinião de quem me lê, deixo aqui alguns tópicos para ulteriores reflexões. Em primeira mão, é consabido que as teses com que Lutero cimentou o seu código religioso incidiam contra o luxo e a megalomania do Papado que, a troco de dinheiro, vendia, aos talhões (ou alugava, a prazo) as mansões do Além, tal qual os que fazem contratos  promessa de  compra e venda dos terrenos da romântica lua. Excomungado, sistematizou o seu “corpus” doutrinal, integrando conceitos e valores de filósofos, seus contemporâneos, aperfeiçoada por correligionários subsequentes. Sem perder-me em longas citações, recortarei  o nobre conceito de consciência profissional, expresso  no normativo: “ O exercício da profissão é uma verdadeira ‘vocação’ (Beruf), em ordem ao bem comum”,  como soberanamente expressa Cromwel  na famosa carta, escrita em 1650  ao Longo Parlamento: ”Queiram acabar com os abusos de todas as profissões. E se houver uma que faça muitos pobres para dar origem a poucos ricos, isso não serve a comunidade”.
         Nisto converge também  a doutrina social da Igreja. E os factos?...        
Cabe aqui citar Vianna Mog, consideradas as devidas distâncias, no livro Pioneiros e Bandeirantes  (1958):  “A doutrina calvinista que dignifica a riqueza e aquele que sabe honestamente conquistá-la, está na base da superior prosperidade dos Estados Unidos… Nós parecíamos crer na  hipérbole  evangélica: ‘É mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha  do que a um rico entrar no Reino dos Céus’. E, compadecidos dos pobres, por todo o mundo português se espalhavam as misericórdias, reveladoras da nossa caridosa humanidade --- mas também dos defeitos que a tornavam particularmente necessária, na Metrópole como no Ultramar”.
         Façamos uma pausa final. E frontalmente interpelemo-nos: “Não será que, a coberto de misericórdias e sofisticados assistencialismos, estaremos a consentir  e a multiplicar defeitos (corrupções), em vez de proporcionar a cada um o direito de recolher dignamente o fruto do seu trabalho?...  
Imperceptivelmente, o clima de corrupção torna-se tão  ou mais  danoso  que a corrupção do clima.

          11.Dez.15

         Martins Júnior

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

AO JOÃO - IRMÃO CÓSMICO - QUE SEMPRE FEZ E SEMPRE FARÁ ANOS EM 9 DE DEZEMBRO




Partiste na Semana Maior
Foi a tua paixão e morte …
Ressuscitar-te
É agora a nossa parte

Deixar de ver-te
E ouvir-te
A voz estóica e meiga
É o preço de sentir-te
Em cada pedra
Em cada quarto
Em cada manga  do teu quintal

Cavaleiro andante
Por mar e ar e terra
Em ti se cruzaram continentes,
Oceanos, corações,
Pulsações abissais, frementes:
Deu-te o Lobito as capas negras a haver
Chamaram-te os Meninos de Huambo
E tu subiste ao Planalto

Aprender  cantar e ensinar
Quanto custa a Liberdade
Depois,
Falou mais alto
O chão de Malangatana
Onde ambos sentimos
O apocalipse das cores
Naquela catedral feita cabana

Chamou-te Caveirinha,
E tu vieste, asinha,
No rasto do velho tambor
Da floresta
Por enquanto só tambor…

Irmão João
Irmão cósmico
Irmão de todos os nus
Como nos disse o Zeca
A tua e a minha mão
Dentro da sua mão


No dia do aleluia
E do hossana
À mulher moçambicana
Levam-te aos braços
As mulheres que te amaram
A suprema e nossa Maria Calaça
A sempre tua Aldovanda
Toda a mulher eterna:
Mãe negra
Mãe branca
Mãe sol
Mãe  Lua – Mãe Terra
Mãe África
Que tudo te deu
E a quem tudo deste
Com mais gosto que custo

E mais que o Código de Direito
Interpretaste o Cânon maior
A Bíblia de ser justo

“Lembras-te, irmão Zeca,
Assim me perguntavas,
Do que dizia a nossa mãe:
Deixa o ter e ganha o ser
E o mal que te fizerem
Paga-o sempre com o bem

Mas não  respondes
Nem te escuto
Irmão obreiro de infinitas pontes
Raiz atlântica das ilhas
Flor e fruto
Em terras de Maputo

Quando encontrares o cais
E se houver cais
Espera
Conta comigo
Já faltou mais…

Daqui a pouco
A tua cinza
Poalha de estrelas
Levará nas ondas do Índico
O universo do teu corpo…

Ressuscitar-te
Agora e sempre
Será a nossa parte!

Dito por mim na Sala Nobre de Maputo perante o esquife do meu querido irmão João, no ofício fúnebre que precedeu a cremação e o lançamento das cinzas no cais de Maputo. Era o Domingo de Páscoa de 2012.

09.Dez.15
Martins Júnior.



segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

1000 DIAS = 1000 ANOS = 2000 ANOS


Tal como as águas dos  rios que serão tão puras  e genuínas quanto mais se aproximarem  da nascente original, assim também há pessoas que se transcendem a si próprias e em todo o seu ser  reflectem a limpidez transbordante do grande rio da história. Por elas circulam as fontes de outras eras e nessa mesma dimensão ganham altitudes e latitudes como se de gigantes vivos se tratassem. Por mais paradoxal que nos pareça a sua estatura, afinal elas não são mais que o fio de água fresca saída da rocha milenar que lhe serviu de seio materno.
É nesta imagem longa que hoje vejo  Giorgio Bergoglio, a personalidade mais desconcertante e, ao mesmo tempo, mais imponente e admiranda deste século.  Porquê?...  É que na transição desta noite para o dia de amanhã  perfazem-se 1000 dias do pontificado de Francisco Papa --- “bispo de Roma”, como ele próprio quis chamar-se.
Rios de tinta e quilómetros de película estender-se-ão sobre a sua presença no mundo que habitamos. Panegíricos, marchas triunfais, poemas e hossanas já foram tecidos e muitos mais tecer-se-ão em homenagem àquele que parece ter vindo “de um outro mundo”. Não será hiperbólico dizer-se que para o grande universo de crentes e não crentes, ele surge com o brilho e espanto de um inquilino “extraterrestre” no palácio do Vaticano. Diria mesmo, de um intruso na colunata barroca de Bernini, corpo estranho  entre o génio aristocrático de Miguel Ângelo e Leonardo da Vinci. E volto à mesma pergunta: Porquê?
E a resposta deixa-nos vencidos, desarmados: é porque ele não é mais que o fio de água genuína saído da nascente originária. Nos 1000 dias das sua passagem estão escritos 1000 anos, 2000 anos, enfim todos os  séculos e milénios do que de mais belo e simples possui a condição humana. No que concerne à narrativa histórica da Igreja Vaticana, o que de mais claro se pode dizer --- e nisso está o “fenómeno Bergoglio” --- é que ele veio abrir  portas e janelas de um armazém bimilenar, dourado  por fora mas estruturalmente  poluído por dentro. O espanto está onde não deveria estar. Como já tive oportunidade de constatar, Francisco Pontífice --- etimologicamente,  “ponte” entre-rios --- não fez mais que o óbvio: raspar as paredes do Vaticano, caiadas de ouro e prata, ao longo de 21 séculos, e restituí-la à cantaria nua e pura da sua construção original.
Alguns outros foram os que --- rari nantes in gurgite vasto, “raros nadando  no imenso abismo”, como dizia  o poeta Virgílio --- tentaram e conseguiram fazer com que a sede romana fosse a casa universal, tornando habitável o lugar que deveria ser a  Belém  do Ocidente, onde o Mestre renascesse todos os dias.  Pagaram, porém, com o exílio e até com o próprio sangue tão nobre e tão evidente tarefa, porque outros, o grosso da manada, voltaram a desumanizar aquilo que era sagrado.
Aqui poderia cotejar o pensamento de Bergoglio com o de escritores e profetas, sábios e teólogos, mestres e mártires de outros tempos. Cito,  por todos, o paradigma imorredoiro que hoje, 7 de Dezembro,  se comemora:  Ambrósio, bispo de Milão, jurista brilhante, que, mesmo não baptizado,  o povo escolheu como pastor da sua diocese, tendo recebido no mesmo dia o baptismo, o sacerdócio e a sagração episcopal. Na história ficou para sempre a atitude intrépida de Santo Ambrósio que, no século IV, tendo tomado conhecimento que as tropas do Imperador Teodósio invadiram a população indefesa de Tessalónica, proibiu o Imperador de entrar na catedral sem que, primeiro, se penitenciasse durante meses, descalço, nas neves dos Alpes.
Se acreditasse nas teses budistas, não hesitaria em proclamar, sem peias de espécie alguma, que Francisco Papa é hoje a reincarnação viva  desses heróis de antanho, direi, do próprio Cristo --- os quais, se cá viessem, poriam os seus pés nas pegadas do Mensageiro da Paz --- a Paz, esse    almejado troféu, arduamente conquistado  na luta pela Verdade e pela Transparência sem medos.   
  Saúdo, pois, militantemente os  1000 dias  que são 1000, 2000 anos passados. E outros 1000, 2000 anos vindouros! Se houver quem lhe siga o corajoso percurso…

07.Dez.15

Martins Júnior

sábado, 5 de dezembro de 2015

CANTEM-ME UMA CANÇÃO DE NATAL, MESMO DISTANTE!


“Porque  hoje é sábado, amanhã domingo” --- diria com Vinícius de Morais --- a leitura é breve e, com ela, breve será a escrita. E também porque há um quase-tédio deslizante nestes dias em que oficialmente só se fala de contas, cifras, deficits, tratados orçamentais. Sinto-me, pois, metalizado, cifrado, taxado. Em parlamentos e gabinetes executivos, só se ouve falar em Programas, Orçamentos e “almofadas” financeiras, mesmo fugazes ou inexistentes. Não sei se o mesmo se passa com o comum dos cidadãos, mas o facto é que chega a provocar carradas de tédio e descrédito o ruído sem tréguas que nos massacra  os ouvidos e a mente nestes que são os últimos dos trezentos e sessenta e cinco dias de 2015.
E se sairmos dos corredores  governamentais para a praça pública, o rumor dos  metais sonantes barra-nos o caminho para onde quer que vamos. São as IPSS, são as Misericórdias, são os Bancos, são as Empresas.  As tarifas,  os transportes,  as alcavalas à-última-hora sobre contratos já escriturados. Sempre o garrote dourado do lucro a passar-nos a laçada pelo pescoço!
É verdade que tudo isso é pão nosso de cada dia, sem o qual a vida não marcha.  No entanto, por favor, parem um pouco. Dêem-nos uma luz ao fundo do túnel. Soltem-nos desta prisão que tem tanto de prata como de imundície e corrupção. Cantem-nos, ao menos,  uma melodia dos natais longínquos…  Mas, que digo eu?!  Outra vez tropeço. No Natal, Porque o Natal, também ele, está inquinado de  polvilhos mercantis, trocas e baldrocas, fitas desencarnadas, meros formalismos comerciais. Aliás, o Papa Francisco foi quem, um dia destes, falou dos desperdícios supérfluos, fogos fátuos, em que se transformou o Natal.
E lá aparece  a religião ou as religiões a acompanhar a banda. Vem de longe este instinto da economia financeira apoiada em princípios religiosos. Recordo o “espírito do capitalismo” ou a “ética protestante” de que nos fala Max Weber, citando Benjamin Franklin: “O dinheiro pode produzir dinheiro que, por sua vez, produzirá mais dinheiro, e assim sucessivamente…. Um homem não pode negligenciar que as mais pequenas acções têm influência sobre o seu crédito financeiro”, a cujas máximas Kumberger acrescentou: “Do bezerro faz-se sebo, das pessoas faz-se dinheiro”.
Não pretendo ir tão longe nesta incursão sobre o “capacete” metalizado que governantes e especuladores nos envolvem e, se possível, nos querem sufocar. Apetece repetir a  velha máxima: “Nem só de pão vive o homem”. Vive de ideais, de sensibilidade, de amor, de  poesia. Enfim, alimenta-se de sonho e utopia. Mesmo que a turba ignara lhe chame “loucura”.  Faz falta ouvir um  outro canto novo, que nos traga nesgas de esperança não na barriga opulenta  ou no maço de notas avaras, mas no espírito que toca mais além, que “vê o invisível” e faz descobrir dentro de nós e no abraço universal um sentido maior de aqui estar. Sob pena de nos destruirmos, sem nunca alcançar o trono para que fomos feitos.
Já que falei em “utopia”,  ninguém como Fernando Pessoa poderá informar-nos:
          Minha loucura, outros que me a tomem
         Com o que nela ia.
         Sem a loucura, que é o homem
         Mais que a besta sadia,
         Cadáver adiado que procria?
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05.Dez.15

Martins Júnior