terça-feira, 27 de janeiro de 2015

AUSCHWITZ DE ONTEM E DE HOJE

No turbilhão frenético de notícias tão diversas e controversas que nos puxam nestes dias, desde a vitória do Syrisa até a morte (mau presságio!) de Demis Roussos e do F-16 grego  que se despenhou em Albacete, Espanha, causando 10 mortos, torna-se difícil uma síntese que pacifique e harmonize o nosso sistema neuro-vegetativo. Por mim, ficar-me-ei pela comemoração do 70º aniversário da destruição positiva do inferno de Auschwitz e suas “sucursais” europeias, as de ontem e as de hoje.      
         Quanto aos de ontem, já todos sabemos da barbárie de que foi capaz um medíocre sargento do exército alemão. Todavia, o que nos sobeja em conhecimento talvez nos escasseie em aprofundamento e séria interiorização dos factos. Como foi possível que a chamada civilização cristã e ocidental deixasse crescer um monstro tentacular, de sete esporas e sete cabeças, sem um pingo de sensibilidade de gente e capaz de cevar nos humanos aquilo que nem os animais selvagens seriam capazes de o fazer?!

         Devo dizer que bastou-me ver a olho-nú uma dessas “sucursais” de Auschwitz, para ficar com vergonha de pertencer à condição humana. Aconteceu em 1995, na visita  ao campo de extermínio de Natzweiler-Struthof,  a 50 Km de Estrasburgo. A planura verde que circundava o perímetro das instalações fatais em nada ajudava a suavizar o estremeção interior que percorria o rosto de quantos ali estávamos. Muito sumariamente, nestas fotos de há 20 anos, ver os beliches de troncos atravessados que serviam de cama aos condenados antes de entrarem para aquele forno crematório, deixando fora, como tétricos testemunhos, os sapatos e as roupas; contemplar em arrepio os enormes triângulos da forca fatídica onde dependuravam os inocentes, enfim, mais abaixo o armazém das câmaras de gaz onde  agonizaram homens e mulheres --- toda esta prisão em que voluntariamente entrámos como turistas fazia-nos estalar este grito, feito de silêncio e raiva: “Tirem-me daqui”!  
Sob a ampla designação de “Aliados”,  europeus e, sobretudo, americanos e russos libertaram a Europa e o mundo do inferno nazi. No entanto, os mesmos americanos libertadores da Europa foram os mesmos que em 6 de Agosto do mesmo ano, 1945,  descarregaram um "Boeing-29 Superfortress" sobre alvos humanos em Hiroshima e NagasaKi, mais tarde o Vietnam, o Iraque, o fedor de Guantánamo… Foi o mesmo Exército Vermelho, vencedor do nazismo, que substituiu os fornos crematórios de Auschwitz pelo “inferno” gélido da Sibéria, onde secavam mirrados os corpos dos opositores ao regime estalinista. Insuperável maldição: Parece que os humanos, fabricantes de  humanos, condenam-se, eles mesmos, ao genocídio suicida! E se foi para isto que foi criado o mundo, mais valera nunca ter sido povoado pela “raça” humana.
E não há forma de estancar esta sangria congénita que se transmite com o sémen dos procriadores,  seja por armamento bélico, seja por terrorismo financeiro dos países ricos sobre os mais pobres, dos offshores predadores do sangue, suor e lágrimas dos explorados, seja do Norte contra o Sul, a desvergonha de uma Alemanha que, não satisfeita com os 550.000 mortos infligidos em território grego, continuam a querer matá-los com redobradas ameaças político-económicas.
Enfim, exausto deste masoquismo em que mergulho face à auto e anti-humanidade, concluo que a barbárie não tem idade nem rosto nem cor. De quem dependerá um novo mundo? Dos poderosos é que não, nem dos parlamentos formais. Sim, da força do povo organizado, não apenas do povo votante mas do povo vigilante. Quando um país ou uma região começam a vacilar quando censuram, dia por dia, mês por mês, os erros dos que governam e estes vociferam: ”Estão ofendendo o país, estão contra a região” , quando tal acontece, aí começa a repressão, a ditadura e, no limite, a destruição total. É preciso não esquecer que o Todo-poderoso Fuhrer começou como um vulgar sargento da tropa, abençoado pelo Papa Pio XII que mais tarde lhe enviou a seguinte mensagem: “Ao Ilustre Herr Adolf Hitler, Furher e Chanceler do Reich alemão, queremos garantir-lhe que continuamos devotados ao bem-estar espiritual do povo alemão que foi confiado à sua liderança”(…). Já nos alertava o grande filósofo Tomás de Aquino que um pequeno desvio no início transforma-se num monstruoso erro no fim.

Por isso , deixei ficar escrito pelo meu próprio punho no Livro de Visitas de Natzweiler-Struthof este anseio que agora transcrevo:
“Que je souhaite que des cendres de la haine humaine puisse refleurir défintivement la joie de vivre”! (Quanto desejo eu que das cinzas do ódio humano possa florescer definitivamente a alegria de viver). 

27.Jan.2015
Martins Júnior