sábado, 3 de janeiro de 2015

BALADA DE SAUDADE A QUEM NUNCA PARTIU

Tal como o ar que respiramos e não se lhe pode ver nem tocar, assim também tu ficaste connosco inundando de luz e som a paisagem deste anfiteatro da vida que, por enquanto, é nosso. Um dia a outros pertencerá.. A saudade que deixaste traz-nos a varinha mágica com que dirigias a tua amada Tuna. E não só: também a nossa Tuna de Câmara, Machico, Ribeira Seca, que tanto nos apoiaste presencialmente, com o teu coração magnânimo quando nos emprestavas alguns bandolins, em tempos difíceis, para que nos mantivéssemos ainda de pé.
Não temos maior prova da nossa gratidão senão dedicar-te aquele poema do 4º aniversário da TCM, em que a tua presença estimulante e motivadora --- tinhas então 33 anos --- foi a cereja em cima do nosso bolo de aniversário. Jamais esqueceremos!
Para ti que partiste entre quatro tábuas sonoras, dedicamos estas

“Tábuas que sentem e cantam”

Arranca da Montanha o Lenhador
A tábua verde e rude sem feição
Que tanto dá pra seio de tambor
Como dará pra nau do meu caixão.

Mas o milagre da mãe-terra
Fez o milagre- virgem deste abraço:
Da lenha ardendo em seiva
Fundida em cordas de aço
Fez este coração …e este braço.

Já não sabe a suor
Já não se ouve o machado
Agora é valsa em tom maior
É sinfonia, “allegro”, é amor, é fado.

Veias de lume, o lenhador,
Sonoras mãos, o carpinteiro,
Génio de som, compositor,
Tão longe e belo foi vosso roteiro
Até encontrar a foz sem fim
Na concha frágil dos meus dedos
E na ternura breve deste bandolim…

Tábuas que sentem…
Tábuas que choram…
Tábuas que cantam…
Sentem o palpitar de corações
Choram saudades e noturnas paixões
Cantam “núpcias” e glórias de Nações.

                                 *

Bem-vindos, hoje, à nossa mesa
Brindando no mais fino cristal desta alegria
Jamais há-de morrer o fulgor da beleza
E a tábua-pauta da festa deste dia!


3.Jan.2015
Martins Júnior