quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

EM GUERRA: O ORIENTE E O OCIDENTE

Na “boa Noite” de hoje, retomo e esclareço o objectivo que formulei no final do encontro anterior: “separar o trigo do joio”. Refiro-me com esta designação a toda a religião-instituição ou, melhor, a todas as religiões-instituições. Agrada-me navegar no tempo, sobretudo nesta altura, a única no ano inteiro, entre 18 e 25 de Janeiro, em que nos é proposto um exame e nos toca um convite, sob o titulo genérico “Oitavário para a unidade da Igrejas Cristãs”. Nesta viagem há uma constatação cíclica no oceano da história: São os homens que fazem e desfazem as religiões, são os mais hábeis e poderosos que capturam, torcem, distorcem e contorcem as crenças inatas no coração humano para transformá-las em muralhas, tronos e até masmorras de tortura.
De entre as múltiplas variantes da crença cristã, descrevo hoje uma daquelas que melhor atestam  o enunciado: a Igreja Ortodoxa, praticada por cerca de 250 milhões de fiéis, estendida pela Grécia, Arménia, Síria, Jordânia, Jerusalém, Grécia, Rússia e restante Europa de Leste. Tem-se na conta de única e legítima herdeira da tradição cristã, autoproclamando-se, por isso, igreja ortodoxa, orthos,  a justa, certa e  verdadeira. Como foi possível que a “Igreja indivisa” --- desde Roma a Bizâncio e a Jerusalém --- estourasse tão drasticamente e se guerreasse até à exaustão?
E aqui entra a mão do homem, do mais poderoso e mais hábil. O Imperador Constantino Magno, que concedeu a paz aos cristãos no ano de 313, enquanto manteve em Roma a sede imperial,  realizou o ideal da “Igreja indivisa”. Mais tarde, porém, mercê do enfraquecimento político de Roma, mudou a sede imperial para Bizâncio, que passou a designar-se por Constantinopla, a cidade de Constantino.  E aqui começaram as dissensões: umas de ordem cultural e geográfica (Roma latina, Constantinopla helenista), outras de índole teológica e, tinha de ser, as de supremacia política. Nesta tríplice conjuntura, deram-se as mãos os corifeus religiosos e o poder imperial, este o mais interessado na hegemonia do Oriente contra o Ocidente. Instaurou-se o “princípio da acomodação”,  que preceituava a adaptação eclesiástica à organização política do Império. Constantinopla, capital do Império, ditava a lei e a religião, em detrimento de Roma, segundo F.Dvornik:
“O helenismo cristão via no Imperador o representante de Deus na terra, um vice-gerente de Cristo, que, por isso, tinha não só o direito como também o dever de vigiar a Igreja, defender a Fé Ortodoxa e conduzir os seus súbditos a Deus, assistindo-lhe ainda a jurisdição para convocar e presidir ao Concílio”.       
Comentários,  para quê?... A Igreja, cúmplice e empregada subserviente do Poder Político! E a isto chamamos Religião?!
Mas como as vicissitudes do poder passam de mão em mão, de cidade em cidade, conforme a proporção das forças nos (ridiculamente) chamados “teatros de guerra”, sobrevieram as invasões --- dos povos bárbaros sobre Roma (séc.V), a dos muçulmanos sobre grande parte do Oriente (séc.VII) e o saque de Constantinopla pelos cristãos venezianos, por ocasião da 4ª Cruzada, patrocinada pelo Papa Inocêncio III --- até que o Imperador Constantino IX  Monomakos, após a excomunhão do patriarca Miguel Cerulário , entrega as insígnias  do Império ao Príncipe Vladimir de Kiev. Inaudita trama neste nó de víboras (parafraseando François Mauriac): a Igreja, dita de Cristo, passou da “Primeira Roma”, em Itália, para a “Segunda Roma” em Bizâncio ou Constantinopla e, finalmente, para a “Terceira Roma” em Moscou, na Rússia!!!
Cena verdadeiramente fantasmagórica foi aquela, ocorrida nesse ano definitivo de 1054, em que o cardeal Humberto, legado de Roma, foi depositar no altar da basílica de Haghios Sophia (Santa Sofia ou Santa Sabedoria) o decreto papal de excomunhão do citado Patriarca Miguel Cerulário, tendo este, em resposta, queimado publicamente o documento condenatório e atirando a mesma excomunhão sobre o Papa de Roma!!!
Eis os jogos políticos a que os homens da Igreja se sujeitaram, responsáveis pela separação de 250 milhões de crentes em J:Cristo!
Sirva a presente síntese para separarmos, mais uma vez, “o trigo do joio”. De ontem e de hoje. De fora e de dentro da nossa casa!
Por outras palavras palavras, separar a Religião das religiões.

21.Jan.2015
Martins Júnior