quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

I HAVE A DREAM” 15 de Janeiro – Dia de Sonhar MARTIN LUTHER KING

Cada dia é sempre um dia ímpar. Não apenas no cômputo intercalar  do calendário, mas em todos, mesmo que se apresentem como dias pares. Hoje é um dia duplamente Ímpar.
Explico-me: para quem se senta comigo, à noite, nesta  sobremesa de pensamento partilhado, há-de ter fixado que, na última ementa aqui reproduzida, referi-me às tremendas lavas do vulcão onde --- a escolha é nossa --- morreremos ou renasceremos juntos. Mais:  perpassa no meu subconsciente o  luminoso sobressalto de que, do seio convulsivo em que todos estamos a gerar-nos e a regenerar-nos  dia-a-dia, hora-a-hora,  há-de surgir o parto de um outro e desejado  mundo onde se mereça viver.  Pressinto que (já não será no meu tempo privado) que os relâmpagos e as trovoadas que nos abalam  prenunciam um tempo global em que, na literatura bíblica, “O lobo dormirá junto ao cordeiro, a criança meterá a mão no covil da serpente e os homens não mais aprenderão a arte da guerra, transformando as espadas em relhas de arado e em foices de ceifar os campos de trigais”.
I have a dream”!
Recito e volto a recitar esse sonho-poema  neste dia verdadeiramente ímpar. Porque faz hoje anos que nasceu o grande, imorredoiro guerrilheiro da paz e do amor, Martin Luther  King, em 15 de Janeiro de 1929.
   Em vez de massacrar-me com a tragédia de Paris ou de denunciar a muita hipocrisia de magnatas do poder que traziam  nas mãos o protocolar cartaz “Je suis Charlie”  e no coração a Kalasnikov dos Houache, em vez disso prefiro o sonho de Luther King que lutou com “as armas da Luz” pela igualdade de direitos dos negros americanos, com sucessos, traições e prisões, até alcançar aquela meta histórica de juntar 200.000 pessoas de todos os credos e etnias  numa marcha pacífica em Washington, 28 de Agosto de 1963, em redor do monumento de Lincoln, abrindo-se aí o embrião da nova Lei  dos Direitos Civis, promulgada por Lyndon Johnson em 1964, garantindo, no ano seguinte, o direito de voto a todos os cidadãos negros. Ganhou merecidamente, em 1965, o Prémio Nobel da Paz, mas só o saboreou durante três anos. Faltava-lhe “pagar” a última factura de uma luta porfiada, mas vitoriosa: o assassinato em 1968.
Chamo-lhe guerrilheiro, porque, assim falava, “Quem aceita o mal sem protestar coopera com ele… O que me preocupa não é o grito dos corruptos, dos violentos, dos desonestos, dos sem carácter, dos  sem ética, o que me preocupa é o silêncio dos bons”. E chamo-lhe o herói da paz e do amor, porque, assim proclamou,  “o ódio não pode expulsar o ódio, só o amor o pode fazer”.
E aquela missão impossível  --- “sonho o dia, em que os filhos dos negros hão-de sentar-se ao lado do senadores brancos americanos” --- veio a cumprir-se plenamente em 2008 e 2012 com a eleição de Barack Obama, 44º  Presidente dos EUA,  ele também, Obama,  Nobel da Paz, galardão pré-concebido e depois corporizado na abolição do bloqueio cinquentenário entre Cuba e o Estado Americano. Quem diria, mesmo em vida do próprio  Fidel de Castro?!
A História não é mais que uma conquista de pequenos passos até alcançar a Terra Prometida… removida e reconstruída por cada um de nós, inquilinos anónimos para os vindouros  beneficiários dos nossos esforços, aqui e agora.
Por isso, há-de chegar a hora, o Dia Ímpar em que serão os próprios muçulmanos a descobrir e tornar vivo o sonho de Maomé:  “Levar a alegria nem que seja a um só coração vale mais que construir mil altares”, mil mesquitas, mil sinagogas, mil catedrais, mil basílicas, acrescento eu.

15.Jan.2015

Martins Júnior