quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

LÁ FORA E AQUI – RACISMO DE MUITAS CORES


Dos jornais:

1..

Na pequena cidade de  Chambland, sul de Paris, o presidente da Câmara fechou o cemitério ao funeral de uma bebé de dois meses e meio pela única razão de pertencer à etnia cigana. Maria Francesca, assim se chamava a menina, falecera na noite de 25 para 26 de Dezembro e esperou dez dias para ser sepultada em Wissons, uma cidade limítrofe. Choveram críticas ao maire de Chambland, por maquiavélica ironia chamado Cristian Leclerc, críticas do presidente Hollande, do primeiro-ministro Manuel Vals (“uma afronta à própria França”) e até, pasme-se, de Marine Le Pen, de cujos cabelos louros escorreu uma furtiva lágrima de crocodilo-fêmea, (“falta de humanidade”) condenando o autarca, paradoxalmente, um eleito da extrema-direita.

2.
Na grande cidade de Colónia, um grupo de activistas organizou aquilo que esperava-se uma marcha gigante contra o Islão. Caiu-lhe em cima a opinião pública, Ângela Merkel ordenou que se apagassem as luzes dos monumentos e edifícios públicos e até a própria religião associou-se ao protesto contra os manifestantes, apagando os projectores luminosos à passagem  do fanático movimento.

3.

Belíssimas as reacções anti-racistas dos governantes franceses --- todos dirão --- e de Marine Le Pen e de Ângela Merkel. Mas quem poderá suportar tamanha hipocrisia da extrema-direita xenófoba de Marine, exterminadora dos imigrantes? E da Senhora Merkel, como e quando podemos esquecer o racismo económico-financeiro contra os países do Sul, mais recentemente os anátemas contra a Grécia?

4.

Nem é preciso viajar tão longe. Aqui, em casa nossa, vivemos quase quatro décadas sob um regime tribal, mais extenso no tempo e mais requintado e dissimulado que o negreiro salazarismo, em que o racismo político, não só inter-partidário mas também (pasme-se, outra vez!) o racismo intra-partidário, imperaram em estrebuchos da mais primitiva raiva contra quem  não se lhe pintasse da mesma cor. Se os herdeiros do regime não inverterem, mesmo camaleonicamente, a fúria cega do seu progenitor, o que restará para a história da Madeira será a máxima, em duplicado, da lei de Talião:”olho por olho, dente por dente”, traduzida pelo nauseabundo estribilho: “quem  não está comigo está contra a Madeira”.

5.

E a própria Igreja Regional, nos antípodas da autêntica religião ecuménica, não teve o mínimo pejo --- ainda por cima no pós-25 de Abril --- em sacralizar o mais rasteiro racismo intra-religioso contra uma  parcela  indefesa da população madeirense, recorrendo aos mais ignóbeis estratagemas, cujo sádico clímax aconteceu quando 70 efectivos policiais, em 27 de Fevereiro de 1985,  ocuparam selvaticamente durante 18 dias e 18 noites um modesto templo rural, que resistiu e ainda hoje se mantém de pé firme e fé inquebrável. Será que o “Secretário Regional dos Assuntos Religiosos” (agora que o regime a quem serviu está  em câmara ardente) será que vai converter-se à Igreja do Papa Francisco e apagar as sequelas do escandaloso racismo com que manchou a túnica  inconsútil do Cristo-Irmão?!

                                                *

Racismos há muitos e de muitas cores!
Parecerá estranha esta minha opção por um tema tão perturbador. É por isso que já afirmei preferir não escrever, por enquanto, sobre as águas residuais cá do burgo. Mas seria insensibilidade indesculpável da minha parte deixar passar em claro as duas recentes notícias lá de fora e, em paralelo, as duas velhas notícias cá de dentro, sobretudo nesta época dos (reis) Magos, em que sobressai o traço universalista da religião, o abraço de todas as etnias e credos, enfim, a abolição das ideologias e dos regimes que matam.

7.Jan.2015
Martins Júnior

Post Scriptum:
Ao tomar conhecimento do hediondo crime perpetrado hoje  em Paris, parece inútil tudo o que escrevi. Para que planeta teremos de emigrar?...Quantas décadas, quantos séculos, quantos rios de sangue serão necessários para alcançar a tão suspirada foz da vida e da paz?!... Só quando aprendermos que cada sopro nosso --- na casa, na rua, na ilha, no país ---  desencadeará, mais cedo ou mais tarde, redobradas tempestades sem que as possamos amarrar.