domingo, 25 de janeiro de 2015

OUTRO 25 UNITÁRIO NA MADEIRA UM CASO A REPENSAR


Neste fim de dia, 25 de Janeiro, eu sei que os olhos e os ouvidos de todos os media e, por  consequência, de todos os bloguers estão voltados para um outro 25, aquele que os gregos aguardam ansiosamente como nós ansiámos em 1974: o seu “25 de Abril”.
Entretanto, da minha parte, vou concluir a sequência histórico-narrativa que me ocupou durante a semana que hoje termina: O “Oitavário para a Unidade das Igrejas Cristãs”. É de outro “25 de Abril” que se trata, quiçá, mais determinativo, se fosse vivido a sério, o qual se sintetiza naquela máxima de Hans Kung: “Nunca haverá paz entre as nações enquanto não houver paz entre as religiões”. E quem seguiu as reflexões dos dias ímpares desta semana com um mínimo senso hermenêutico, terá verificado que foi sob a máscara das religiões  que se ensanguentaram e assassinaram impérios e nações.
Na Madeira, participei, como de resto faço todos os anos, numa celebração comunitária, intra-cristã, na igreja de São Pedro, Funchal. Na ara do mesmo templo, arvoravam-se os mastaréus de  quatro igrejas cultuais cá da ilha: o bispo católico, a presidir sempre, o pastor da igreja presbiteriana, o da igreja anglicana e, para colorir o prosaico quarteto, a elegância loira de uma mulher, a pastora representante da igreja luterana.  Eu disse “prosaico quarteto” porquanto o que se viu foi um repetido, artificialmente formatado mosaico de há dez, quinze, vinte anos, no mesmo templo. Para ser breve e explícito, devo confessar que aquilo só me lembrava as coligações partidárias, em vésperas de eleições,  que se reúnem em assembleia regimental para falar muito e ficar-se cada uma na sua. Foi interessante ver cada “deputado” religioso vender o seu “peixe” (digo, vender, porque até nem faltaram os saquinhos de dinheiro no ofertório, por iniciativa do anfitrião católico!) perante uma escassa plateia, o que vem provar que tudo não passa de uma “feirinha de vaidades” para delícia dos actores em cena.
Exceptuando uma ou outra frase desgarrada, devo dizer que fiquei com a sensação de estar a cumprir-se mais uma jornada do calendário, dito religioso.
Como me comentava, dias antes, um dos intervenientes, este sim, consciente da importância do acto, o “diálogo inter-religioso deveria fazer-se com a comunidade e pela comunidade” e deixar-se deste mini-espectáculo de revista caseira que não revigora  nem convoca ninguém para um verdadeiro senso e consenso do fenómeno religioso, apenas servindo de camarim e vestiário dos respectivos titulares de cargos eclesiásticos.
Melhor andaram, em Lisboa, as comunidades islâmica, judaica e cristã que se uniram sucessivamente em cada santuário da sua crença --- na mesquita, na sinagoga e na igreja --- dando assim um perfeito exemplo de respeito mútuo pelo tríplice culto, sem qualquer laivo de vã supremacia unilateral.
Mas além da feira de vaidades, mais uma vez confirmei a hipocrisia reinante, sobretudo na Igreja Católica, ao ver “com olhos vistos” um bispo que se apressa e solenemente se atavia para ficar na fotografia de quatro religiões diferentes num altar do centro da cidade e  se recusa a visitar e dialogar com os cristãos católicos de uma humilde igreja sub-urbana em Machico! Mais: uma Igreja Oficial, dita Católica,  que manda 70 agentes policiais armados atacar de madrugada os fiéis  cujo crime era e ainda é invocar J:Cristo no templo que eles próprios construíram, com o seu braço de trabalho. Isto passou-se entre 27 de Fevereiro e 18 de Março de 1985, perfazem agora 30 anos!
Teremos tempo de reavivar a memória.
Teremos tempo de meditar a Unidade das Igrejas, dentro da nossa casa primeiro,  para só depois haver credibilidade de celebrar a Vida e a Comunhão Fraterna com as comunidades vizinhas.   
É por isso, creiam, que todos os anos acompanho, emocionado e condoído, a comemoração litúrgica da igreja de São Pedro.


25.Jan.2015

Martins Júnior