sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

SEMPRE O CESAROPAPISMO -- O VÍRUS DESTRUIDOR DA UNIDADE



Em chegando ao fim da Semana da Unidade, ficou assente para quem me acompanhou que o apelo à unidade pressupõe a existência de um vírus exterminador: Por muitos meandros que se  cruzem na história das religiões e na consciência das pessoas, ou por mais etéreas e sublimes as emoções, lá estará sempre o factor humano, o deus Leviatão, a dominar o curso dos acontecimentos até tomar as rédeas do poder e dirigir a carruagem dos tempos. E é, precisamente, no instinto religioso que ele vai buscar o fogo propulsor da sua locomotiva. Desde sempre: a entronização, seja ela discreta ou espaventosa, do faraó no altar dos deuses, até à divinização dos caudilhos, dos fuhrer’s, dos carismáticos soberanos! Prender numa só mão os dois poderes --- o temporal e o espiritual --- eis o apogeu da dominação dos povos.
 O que anteontem ficou dito acerca da divisão entre católicos e ortodoxos em 1054, já ocorrera entre 2000 e 1788 A.C., na tumultuosa transição entre o Antigo e o Médio Império: “O centro da gravidade política deslocou-se de Mênfis, ao Norte, para Tebas, ao sul; e é por esta razão que o deus da nova capital do Império, Amon de Tebas, que até então não era mais que uma insignificante divindade local, se transforma em Amon-Ré, por estar à altura do seu novo significado político”. É o mesmo autor, Eric Voegelin; que o afirma na sua obra “As Religiões Políticas” ( proibida desde a ascensão de Hitler) que o sublinha: ”O colectivismo político não é somente uma manifestação política e moral: é a sua componente religiosa que me parece muito mais importante”.
Seja por onde for que se lhe pegue, a tessitura das rivalidades religiosas nasce e robustece-se com a auto-cefalia do Poder. Assim, em Inglaterra, com Henrique VIII, assim com a doutrina galicana em França (lembram-se dos dois papas: um Roma e outro em Avinhão?), assim em Pequim, na China comunista, onde há duas igrejas católicas com sacerdotes: ali se prega, ali se reza e se canta em chinês, mas essa igreja oficial não tem nenhuma ligação com o papa de Roma. Sem uma escolha dos bispos no próprio país, dificilmente se há-de chegar a um entendimento em Roma. E sem a aceitação, por Roma, destes três pontos --- auto-sustentação, auto-administração e auto-difusão da igreja --- não será possível uma reconciliação entre a igreja oficial e a igreja subterrânea”. (Hans Kung, Religiões do Mundo).
 Propositadamente (decerto já reparastes) preferi a  diacronia  dos acontecimentos, justamente para demonstrar que é pelo pipe-line das religiões que as ditaduras ou as autonomias musculadas vão abrindo caminho, sem esquecer que, no mundo ocidental, o cesaropapismo seguiu rumos diversos, após o declínio do decrépito Império Romano: foram os Papas que impuseram o seu domínio absoluto na esfera dos dois poderes, o temporal e o espiritual, para escândalo de toda a Igreja.
É o movimento circular da História, numa comprometida osmose de interesses conflituantes que, se bem analisarmos, tem passado por cá até ao momento presente.  
Na Semana da Unidade, com términus a 25 de Janeiro, sirvam estas considerações para ajudarmos a neutralizar os vírus que minam esse tão desejado sonho unitário do nosso J:Cristo!
23.Jan.2015

Martins Júnior