quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

DO CÍRCULO VICIOSO AO CÍRCULO VIRTUOSO

       




          Passo por entre os tornados que hoje varrem as rotativas da imprensa, noticiários televisivos, ecrãs domésticos, com as cimeiras de Bruxelas-Grécia, Ucrânia-Rússia em Minsky e, mais cá dentro, o corte de relações entre os dois clubes vizinhos da 2ª circular (o mundo vai desabar por causa da guerra civil entre Benfica-Sporting, ah,ah!?) e vou deslocar-me até à  China longínqua para “filosofar” sobre uma notícia que fez parte também dos informes diários. Trata-se de uma questão de ciência, do poder exaltante da inteligência humana. E se é ciência é poesia. Nós é que pensamos que não. Já nos advertia Fernando Pessoa quando disse que  ªo binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo. O que há é pouca gente que dê  por isso”.
Neste meu apontamento, refiro-me à capacidade transformadora que anima cada ser, mais concretamente na área da produção energética. Quem diria que as torrentes jogadas das altas fráguas, quando educadas nas cilíndricas paredes de uma conduta, accionam as turbinas  da central hidroeléctrica para iluminar um país inteiro?  Quem diria que os tenebrosos ventos que despem as florestas, aceites e digeridos pelas asas de uma torre, abrem-se em luz na bonança do nosso quarto? E quem imaginaria que o mesmo “milagre” acontecesse com o vaivém das marés? E os lixos, farrapos que nos atrapalham na cozinha, quem os julgaria portadores de energia limpa que reentra, prazenteira, pelo tecto das nossas casas fechadas? Na Madeira de 2014, dizem os responsáveis da Meia-Serra, a produção aumentou em 25%. Nestes e outros casos, razão tinha Lavoisier quando compôs aquele belo poema de um só verso: “Na Natureza nada se perde e nada se cria, tudo se transforma”
         Agora fechem os olhos e tapem o nariz, perante esta notícia fresquinha de jornal: “E das fezes humanas, o país mais populoso do mundo está a produzir energia… Cada vez mais resíduos de esgotos na China estão a ser transformados em biogás e adubos… Heinz Peter Mang, engenheiro alemão, de 57 anos, catedrático da área do saneamento ecológico na Universidade de Ciência e Tecnologia de Pequim, afirma que “este país está sentado em cima de uma mina de ouro” (Público, 10. Fev.2015).
         É o círculo vicioso transformado em círculo virtuoso.
Os prodígios, que antes se atribuíam a uma entidade suprema que fazia o que chamávamos de “milagres”, estão hoje na mão do homem. Foi Auguste Comte, le prêtre positiviste, que, desde há duzentos anos, abriu ao mundo o livro dos três estádios: o teológico, o metafísico e o positivo, cabendo a este último o poder e a obrigatoriedade de definir, ampliar, sublimar a frágil condição humana e terrestre.
E porque “a ciência cresce em espiral”, o que é preciso é ter coragem de alçar-se mais alto e derrubar as torres de Babel que nos puseram diante dos olhos como sentinelas do reino da ignorância e do obscurantismo. É nesta linha recta que se inscreve o pensamento científico de Heinz Peter Mang: ”Graças à ausência de tabus sobre a reutilização da matéria fecal na China, cabe à ciência garantir essa reutilização segura e há aqui uma oportunidade sem precedentes”.
A ciência cheira bem, venha ela de onde vier. Identifica-se com as mãos mitológicas do rei Midas que transformavam em ouro tudo aquilo que tocassem.
Mas, diante dos acontecimentos que evoquei ao princípio, chegamos à paradoxal constatação da sua antítese. Lembra-me  uma canção  que por aí anda em voga, verrinosa  na sua letra, quando acusa alguém que  o (a) traiu “Tu tens as mãos e o dom de Midas, mas ao contrário”.
É o que, com pessimismo e repulsa, apetece dizer aos desumanos dominadores do capital e do poder. E nem me atrevo sequer a  pronunciar, porque, isso sim, cheira à mais abjecta podridão!
Enfim, o círculo virtuoso virou círculo vicioso.

11.Fev.2015
Martins Júnior