sábado, 21 de fevereiro de 2015

O ABRAÇO DO ARCO-ÍRIS ENTRE O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO


Podia começar este “bate-papo” intermitente, entre dois dias pares, com o título já anteriormente utilizado (“Porque hoje é sábado, amanhã domingo…”), dado que, no meu serviço hebdomadário, terei de transmitir os textos bíblicos programados no respectivo ano litúrgico. E precisamente amanhã  abrimos o Livro do Génesis e lá encontramos uma página paradigmática da literatura bíblica, o mesmo que dizer, da literatura oriental, navegando daí para o vasto mar da hermenêutica, tarefa nada fácil esta de interpretar o que a letra do texto nos quer dizer.
Em concreto: a página a que me refiro é aquela em que  Moisés nos conta o cenário de espanto e júbilo que se seguiu ao “dilúvio universal” que  poupou apenas os escassos exemplares vivos que Noé (“com seiscentos e um anos de idade”) conseguiu guardar na arca. Numa linguagem envolta em metáforas carregadas de carinho, o Senhor Deus Iaveh diz que se reconcilia com o género humano, agora renovado, assinalando o ícon dessa reconciliação:
Quando eu cobrir a terra de nuvens e aí aparecer o arco-íris, recordar-me-ei da aliança que firmei convosco e com todos os seres vivos da terra: e as águas do dilúvio não voltarão mais a destruir as criaturas”(Gen.9, 14).
De cenas como esta anda a Bíblia cheia. E porquê? É o estilo literário comum às literaturas orientais e mediterrânicas, marcadas pelo mito, por um poético sentido onírico, em que o sonho, a metáfora, a alegoria, enfim, a parábola se apresentam como o refrão instrumental da sua pedagogia, quer dizer, numa linguagem empírica, visível a olho nú, mas com o intuito de transmitir o invisível, o misterioso, Basta compulsarmos a civilização grega e a sua multiforme criação mitológica.
Não é de somenos importância esta reflexão. Não é divertida, bem sei, mas torna-se  sugestiva e útil para a percepção da realidade. Partamos de um princípio pacificamente aceite: quanto mais atrasado, analfabeto, (permitam-me) infantil é uma pessoa ou um povo mais raciocinam pelos olhos, pelo sensorial e tangível. O próprio J:Cristo afirmou que só  falava ao povo em parábolas, para que depois os ouvintes tirassem as devidas ilações.
         Daí que seja necessário um cuidado enorme para não cairmos numa interpretação puramente literal dos textos bíblicos: a sarça ardente, o maná do deserto, a maçã de Adão, toda a narrativa da criação (“ao sétimo dia Deus descansou”…tão depressa se cansou o Criador, numa semana de trabalho?!) o Livro de Job, considerado pelos exegetas como uma bem concebida alegoria, também algumas expressões que ainda hoje se dizem “Jesus está sentado à mão direita de Deus Pai” (tanto tempo sentado… mas como à mão direita, se Deus é Espírito, não tem  direita nem esquerda, nem corpo?!).
Levar-nos-ia longe o filão deste rio (cá está mais uma metáfora) de questões e interpretações, o que obriga o crente e o não crente a pesquisar, a repensar, a reconstruir desconstruindo. Além do prazer de descobrir, este esforço configura um valoroso exercício  Quaresmal, mais que jejuns e orações vocais.. Não tenho receio de repetir o que ensino à gente que me escuta regularmente: Rezar dá menos trabalho que pensar. Pensar custa muito mais. É o valor da denominada “oração mental”.

Esta caminhada para a desmitização, assente em critérios seguros, é consonante com a “autoridade eclesiástica que reconhece a necessária dependência da investigação científica”(Gonsalez-Ruiz, Igreja, Fé e Missão).  E sublinha Paul Tillich, em Dynamics of the Faith: “A desmitização é uma atitude constante do crente para impedir que a sua fé se torne idolátrica.”
Com efeito, cada lugar e cada civilização têm a sua idiossincrasia terminológica, a tal ponto de   (diz ainda Gonsalez-Ruiz) “uma verdade poder ser traduzida por certas representações falsas em si mesmas, mas que em determinado estado de civilização sugerem bem a verdade pensada”.
Fiquemos com a romântica beleza do arco-íris. O que é mais curioso é que ele serve, não para nós, para Deus recordar-se da aliança feita com o seu povo, como diz a leitura de amanhã. Trata-se manifestamente de uma hipérbole: Deus recupera a memória avistando o arco-íris… O mais importante, porém, é a moral da história: tudo o que é humano está articulado com o divino, como talentosamente sintetiza o grande poeta e dramaturgo Paul Claudel, em Présence et Prophétie: “Não há um universo religioso e um universo profano; há uma única revelação transmitida numa linguagem inumerável, contínua e reciprocamente transmissível”.

De hoje a um mês o arco-íris há-de trazer-nos a Primavera multicolor e benfazeja. Viva!

21.Fev.2015

Martins Júnior