terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

O VELHO E O NOVO – O ANTIGO E O ACTUAL NA INFORMAÇÃO, NA POLÍTICA, NA RELIGIÃO

 Como  distingui-los ?

Desde anteontem, tem-se perseguido um aviso colhido na leitura oficial da práxis dominical e que interpela constantemente sobre o que é o novo e o velho, o antigo e o actual. Desde logo, acode-me à memória o paradoxal aforismo de Ch.Péguy: “O jornal de ontem torna-se mais velho que a Odisseia de Homero”.  Ora o, ontem actualíssimo, jornal distancia-se de nós apenas 24 horas e Homero  fica a 900-1000 anos a.C, ou seja, já lá vão mais de 3.000 anos.  Quer dizer que a Odisseia ainda hoje é actual e o jornal de hoje será velho amanhã. O mesmo dir-se-á destas redes sociais, deste meu blog --- escrita de água corrente que não passará duas vezes sob a mesma ponte do nosso quotidiano.
A este propósito, li no domingo passado  (e em rádios, televisões, templos e ermidas outros o fizeram) um pensamento  transmitido por Moisés ao abalado povo de Israel: “Vou dar-vos um profeta, escolhido de entre vós. Porei na boca dele as minhas palavras, disse Iaveh. Se não fizerdes o que ele, em meu nome,  vos ordenar,  serei Eu mesmo a pedir-vos contas. Mas também vos digo:  se o profeta ensinar, em meu nome,  ao povoas palavras Eu não lhe ordenei, esse profeta será condenado à morte” . (Livro do Deuteronómio).
Moisés viveu no século XIII AC..
No mergulho da minha  pesquisa  ao mais fundo  desses oceanos milenares escutei a mensagem directa como um arpão pontiagudo: substitui o estatuto de “profeta”  pelo de  “líder”, seja ele escritor, jornalista, político ou religioso.
Começo por este último, o que me toca mais de perto. E tremi, sentado no banco dos réus, a interrogar-me se as torrentes de palavras que tenho debitado na tribuna sacra corresponderão ao discurso original que me foi ordenado transmitir. Pasmei perante a psicótica imaginação de quem, na cátedra de Pedro ou nos púlpitos de aldeia, foi dizendo que as crianças não baptizadas seriam condenadas a andar eternamente de baloiço ou de  estonteante “escorrega” entre o céu e o inferno. Pensei nos pregadores de promessas e indulgências que vendem aos talhões o outro mundo, como o Sumo Pontífice de Roma que, no século XVI, para levantar  a magnificente basílica romana, cambiava ao balcão da “fé”  umas tantas   moedas ou “xis” dracmas por menos “xis” chibatadas de lume no outro mundo. E os mesmos que, na Quaresma,  com as senhas  das bulas, extorquiam os vinténs aos pobres  como  licença de poderem  comer carne,  aquela carne de que nem os ossos viam na  mesa da cozinha. E pensei nessa sarcástica quão doentia prisão, chamada confissão, de ter de pedir perdão ao “santo e rico” João pelo roubo que fez ao pobre vizinho José.
Como foi possível inventar, em nome do Altíssimo, aquilo que Ele nunca dissera”!  Para eles, Moisés decretara: Sentença de morte!  E para o povo: Certidão de cegueira total.
Mas, passando às lideranças políticas, designadamente à veneranda figura do “legislador”:  como é possível apertar ao pescoço do povo o cutelo que os deputados fabricaram nas assembleias legislativas e que eles, só eles, mereciam pagar? Os eleitores haviam de tirar algum tempo para verem, não pelas artimanhas televisivas mas “in loco”,  como os parlamentos  (e aqui, falo do que vi pessoalmente)  transformam o seu voto de confiança  em arma de massacre nas mãos dos seus estimadíssimos deputados eleitos. Na esfera do executivo, o conhecido adágio “Vox populi, vox Dei” (Voz do povo, voz de Deus), que insensibilidade é esta de deixarmos impunes os que antes prometeram fartura e depois ofereceram miséria ?  Ou permitir em silêncio que os governos não façam aquilo que o povo quer e, com a maior displicência, fazem o que o povo não pede nem precisa.
Quanto ao jornalismo, não há necrotérios para tantas autópsias.
Cotejem os meus amigos e amigas  o assédio dos informadores que forçam as nossas portas e fustigam olhos e ouvidos: os títulos (tão disformes uns dos outros sobre o mesmo caso),  os conteúdos, as caricas estampadas, os directores, os proprietários imperadores!
É por isso que os jornais de ontem já são velhos hoje, que os governos de hoje serão farrapos amanhã, É por isso, finalmente, que o maior líder religioso de hoje, em Roma e fora dela,   tanto luta para restituir ao mundo a matriz original de verdadeiro profeta.

3.Fev.2015

Martins Júnior