domingo, 15 de fevereiro de 2015

PORQUE É CARNAVAL…

(aspecto parcial da trupe do CCCS-RS)
Desde sábado até terça-feira ficam de fora os argumentos, as elucubrações  sofo-teológica e vamos é reinar, dar tolerância de ponto ao pensamento planificado. Vamos à rua, ver, saltar, batucar sem rodeios nem receios. É carnaval e nada se leva a mal.
Muito de rapina vou passar por entre as  trupes que animaram a baixa da cidade de Machico. De todas as freguesias do concelho vieram representações numerosas, umas mais originais que outras . Vou referir-me à do CCCS-RS (Centro Cívico-Social  e Cultural da Ribeira Seca), que brindou a imensa multidão com uma homenagem a Cristiano Ronaldo, misturando Sua Alteza Real com uma pimentinha típica da cozinha “machiqueira”.
Desde que o locutor de rádio anunciou  o “grande derby” dos cinco Ronaldos, em que foram protagonistas cinco miúdos trajados a preceito, Andorinha, Nacional, Sporting de Portugal, Manchester United, Real Madrid, um frenesi levantou toda a trupe, em uníssono:
Ronaldo, Ronaldinho, Ronaldão
Campeão, capitão da nação
Ronaldo, Ronaldinho, Ronaldão,
Não quero a tua bola, dá-me a tua camisola
E também o teu calção.

Você é nosso, oh-oh
Você é nosso, oh-oh
Porque você é de Machico
É do Caniçal
É da Madeira ,
                    De Portugal

Cristiano Ronaldo
Fenomenal
De todo o mundo você
Você é o maioral

Após esta saudação monumental, lá vem a sátira, com todas as mulheres doidamente fãs  pelo craque, a Irina que pedia o shampoo, a Gina que pedia a lingerie da marca CR7, a Regina que arrancava a camisola, a Pirina que só queria o dinheiro (os Ronaldinhos faziam voar notas de 100 euros da defunta marca Banco Espírito Santo)  um verdadeiro teatro de rua, que fez a mãe do campeão perder a cabeça e enxotar à paulada e em linguagem vernácula de calão, “larguem o mê filhe da mão” e outros   mimos que costumamos substituir pelos habituais pi…pi…pi…
Castiça era a estátua de Ronaldo, de 3 metros de altura, cuja cabeça tinha a configuração de uma bola de futebol. Os espectadores mais familiarizados com o género satírico, comentavam: ”Está mais bem feita que a do Funchal”.
Enfim, um comentário leve e ligeiro: reparei que a trupe constituía uma efusiva assembleia de família, pois víamos pais e filhos embalados na mesma onda contagiante. Depois, a música e a letra originais, como sempre acontece com a trupe do CCCS-RS, em contraste com a quase totalidade das outras trupes que ensurdeciam os ouvidos com a mesma movimentada, mas já enfadonha,  música brasileira.
As entidades organizadoras deviam incentivar a criatividade musical, promovendo, com ou sem troféus, as produções oriundas de compositores da terra e da ilha, para que o Carnaval contribuísse também para o florescimento de valores culturais autóctones e não apenas as emplumadas transposições dos grandes sambódromos cariocas. E não só em Machico, no Funchal também. Pena que a nossa TV/M não desse o esperado relevo a um tema de inspiração estritamente regional…

Mas o que importa é folgar e fazer uns diazinhos de tréguas  na guerra civil do calendário quotidiano.  Porque tudo é bem e nada é mal… no Carnaval. 

Martins Júnior
15.02.15