sábado, 7 de fevereiro de 2015

“PORQUE HOJE É SÁBADO”…

Que doce sonoridade aquela voz  de Vinícius de Morais na doação do poema com que titulo este apontamento breve!
…”Amanhã domingo”. E por sê-lo,  folheio perante os meus amigos e amigas a síntese dos textos bíblicos de amanhã. Paradoxalmente, não é de acalmia ou lazer que nos dizem, bem pelo contrário, é de luta, de militância sem tréguas que nos fala Job, ao constatar que a sua vida é como a de um “soldado em  guerra… de um escravo que anseia um pouco de sombra… de um jornaleiro que espera o fim de um dia de trabalho … é como a lançadeira do tear que nunca pára” (Job,7,1 sgs), a que se juntam as incansáveis fadigas de um homem, Paulo de Tarso, que “se fazia forte com os fortes e fraco com os fracos… que aguentava tudo por uma causa maior”. E ainda, o movimento rotativo de J:Cristo, de dia e de noite, sem hora nem pedra onde reclinar a cabeça.
Não vou entrar em estados de alma, pois a ponte que me leva até vós é mais vasta e larga que os labirintos da minha sensibilidade. No entanto, “porque hoje é sábado e amanhã domingo” interiorizo o verve inesgotável de tantos homens e mulheres que se sentem a mais quando enrodilhados no divã de um  bem-estar aferrolhado e surdo ao clamor que grita às suas portas.  O meu pulsar em uníssono com aqueles que à monotonia da planície preferem o escalar da montanha, aqueles que às areias dormentes preferem surfar por entre os  túneis de lava salgada das ondas gigantes. Oh, escreve, de novo, José dos Reis,  e manda para cá  o sopro do teu régio “Canto Negro”!
O apelo que esta noite gera para amanhã, domingo, seja ele de quem dá sem nada esperar de volta. Impressionou-me recentemente a apreciação que Manuel Vicent fez na sua habitual última coluna dominical do EL PAIS, a propósito dos que se expuseram (e dele foram vítimas) ao contágio do ébola para salvar outras vidas, equacionando-os em duas vertentes: de um lado, os missionários e religiosas que  assim procediam, por amor de  Deus e respectiva recompensa; do outro, os que sem quaisquer pressupostos laterais, agiram pelo imperativo maior da dignidade humana. Manuel Vicent privilegiava os ideais destes últimos, pela entrega incondicional aos valores perenes.
Nesta luta quotidiana, “de soldado em campanha”. Apraz-me tirar todos os dias do baú da memória aquele provérbio antigo, atribuído à literatura árabe: “A primeira e maior recompensa do dever cumprido é ter cumprido esse dever”.
No mundo de hoje, onde o  que conta é  só a moeda --- os juros, o esbulho dos países mais pobres, desculpem-me este desabafo, em jeito de estado de alma. Porque “hoje é sábado” e fui entregar dois amigos da minha comunidade ao seu “apartamento” final, que um dia também será meu, será nosso.
E “porque amanhã é domingo” renasce o sol, este sol de inverno que mesmo que não aqueça, ao menos alumia e avoluma o fogo serviçal que ainda não deixámos apagar dentro de nós.

7.Fev.2015

Martins Júnior