quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

VENHAM COMIGO VER MOCUBA

Hoje bateu-me à porta um aceno de saudade e trouxe-me o sabor agridoce do que antes fora serena  fruição e hoje é um  rasto desolador de  amargura e destruição. Estou a falar de Mocuba, coração da Zambézia, Moçambique, onde as cheias caudalosas inundaram cidades e “machambas” e  penetraram telejornais e folhas impressas de todo o mundo. E tanto mais se me atravessou o peito quanto me lembro da tragédia do ano 2000, que devastou o celeiro da nação, o Xai-Xai, o Save, o Limpopo transbordando e afundando povoações, um  cenário dantesco que ainda cheguei a ver de perto, quando lá fui entregar, pessoalmente,  nos campos de acomodação de Magoanine, município de Maputo, os mil contos que a comunidade da Ribeira Seca doou às vítimas, comprando víveres e mantimentos no mercado de Xipamanine, esse formigueiro humano que Zeca Afonso havia transformado em memorável balada.

         Imagino, agora em Mocuba, o desespero, a fome, as famílias que os rios bravios separaram, algumas definitivamente devoradas pelas águas. Imagino os homens e as mulheres atravessando os pântanos, carregadas com as mantas do pouco que conseguiram salvar das suas palhotas e ainda aconchegando ao peito da capulana  as crianças de olhitos vivos, inconscientemente abertos à esperança.
         Queria tanto, tanto, que lá chegasse, ao menos, este abraço de asa dolente e servisse de alavanca nessa luta contra a morte.
         Mas, porquê esse amor às terras e às gentes de Mocuba ? --- perguntareis. E eu respondo convidando-vos a “ver” comigo  aquela ditosa pátria, coração da Zambézia, que conheci e calcorreei, já lá vão 48 anos, Era a segunda fase da comissão do nosso Batalhão de Caçadores 1899, zona e tempo de manutenção, após o trágico primeiro ano em terras de Cabo Delgado.
         Mocuba era um oásis, que se estendia desde o Gurúè (antes, Vila Junqueiro) até à longínqua Morrumbala, de onde se passava para o país vizinho  Malawi. De lá  percorria-se a módica distância de 200 Km, de picada, quase toda em linha recta,  para alcançar a cidade capital da província, Quelimane.
         Era um oásis de sonho, sobretudo para quem viera da dureza de Cabo Delgado: o chá,  o famoso chá “Licungo” era a plantação-rainha, explorada por companhias inglesas, aonde chegavam, 4,30-5h da manhã, grupos de africanos, dobrados sobre os arbustos, de onde sobressaíam, por entre o imenso verde oceano, os chapéus de palha dos tarefeiros.
         Terra fértil, as mangueiras vinham trazer-nos os frutos ao “unimog” em andamento, a cana de açúcar produzia duas vezes ao ano, daí o crescimento exponencial da companhia inglesa “Sena Sugar”, os restaurantes, o comércio circulante, onde predominavam os indianos, chinos e portugueses, alguns também da Madeira. Era nessa altura um oásis cultural, servido por um excelente edifício, o “cine-teatro de Mocuba”, onde consegui juntar setenta civis e militares para levarmos à cena a provocadora peça de Francis Durremat, “A Visita da Velha Senhora”, já conhecida na metrópole, assim se designava Portugal,, através do filme do mesmo nome, com Anthony Quinn e Ingrid Bergman  como protagonistas. Um êxito (perdoe-se-me a imodéstia) cívico, social e cultural que mereceu ampla referência no maior jornal diário, o “Notícias” do, então, Lourenço Marques, capital de Moçambique.          Eram todos amadores, mas com talento nato para o palco. Já morreram muitos deles, talvez a maior parte. Jamais esquecerei o velho Pestana de 81 anos, funcionário superior da “Sena Sugar”, cuja presença em cena foi fenomenal,  o açoriano Amarino, a prodigiosa Ana Maria  no papel da “Velha Senhora”, em cuja residência se faziam os ensaios com o empenho do marido António Manuel Fonseca, gente jovem, que, embora longe da pátria de origem, enriqueciam o património cultural  do país de acolhimento.
         Mesmo vigiada pela Pide, havia ali gente culta, embora de forma clandestina. Lembro-me, em Mutarara, junto à enorme ponte sobre o rio Zambeze,  de um comerciante que me convidou à sala do segundo piso e em cuja estante vi, com grande espanto meu, todos os volumes de “O Capital” de Karl Marx. Cheguei a desconfiar, não fosse ele memo um agente disfarçado da polícia política. No fim, convenci-me de que se tratava de mais um daqueles europeus que ansiavam pelo derrube do colonialismo salazarista.
         Não posso terminar esta viagem de saudade sem referenciar o bom entendimento com a missão de Mocuba, entregue aos padres franciscanos, na altura o italiano, Pe. Frei Luciano em cuja igreja várias vezes celebrei para uma vasta  população de brancos  e nativos, bem como a participação na obra social dirigida às crianças da área, tendo participado nas aulas e, ao acordeão, nas festas de confraternização, com apoio de civis e militares, conforme  documenta a foto.
         Peço desculpa de tanto alongar-me neste percurso (e quase nada foi dito) mas de Mocuba, poderia dizer-se aquele apelo que só se aplica a quem ama: “Love me or leave me”  (ama-me ou deixa-me).  Para tanto, bastava ler a mensagem esculpida em mármore, à entrada: “Mocuba --- onde todos os caminhos se cruzam e todos os corações se abraço”. É, de facto, o centro geográfico  da Zambézia.
         Termino o meu postal, aludindo à primeira foto: trata-se da ponte sobre o rio Licungo. Quantas vezes ali passei, de preferência a pé, acompanhando o meu amigo hidrometrista António Manuel, demorando-me no ritmo das águas e na confluência de ideias sobre a injustiça da guerra colonial!
         Hoje, é de coração partido  que vejo quebrada a mesma bela ponte de há 48 anos…  Mas ficou de pé “o arco de uma nova ponte”: a estima e a saudade pelo povo de Mocuba e por todos os   moçambicanos.
   
5.Fe.2015
Martins Júnior