sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

VIA CRUCIS – VIA DOLOROSA CERTIDÃO DE NARRATIVA SIMPLES


VIA CRUCIS – VIA DOLOROSA
CERTIDÃO DE NARRATIVA SIMPLES

Chamo-lhe assim, porque hoje é sexta-feira da primeira semana da Quaresma e, por tal, Dia da Memória, exercício de reminiscência dos últimos passos da vida de J:Cristo, a qual toma o clássico nome de Via-Sacra.
E assim titulo este dia ímpar – 27 de Fevereiro --- também por tratar-se de uma data singular para mim e para a Ribeira Seca. E para a história da Igreja Católica Madeirense. Foi o início de um caminho doloroso para esta parcela do nosso território.
A narrativa é de teor simples, sem comentários. Esses ficam à vossa consideração.
Era uma quarta-feira cinzenta e pingada de orvalhos matinais. Desci as escadas da residência paroquial para celebrar a habitual eucaristia das 7 horas da manhã, tal como continuo a fazer ainda hoje. Chegando ao último degrau, um grupo de pessoas aproxima-se com uma expressão estranha e a senhora Maria (já faleceu há alguns anos) chega-se mais perto e despeja, ansiosa : ” Sr. Vigário, o meu filho começa a trabalhar às 3 da manhã lá na vila e telefonou-me: ”Mãe, tão aqui em baixo 10 carrinhas carregadas de polícia e vão para a Ribeira Seca agarrar o senhor padre na hora da missa. É o que tão a dizer”. Logo respondi à senhora: “Ah, sim? Então cá os espero”. E entrei na igreja afim de paramentar-me para a missa. Mas não me deixaram ficar. “Vá-se embora, fuja, que a gente toma conta disto”. Insisto: ”Não se preocupem.  Eu quero esperar por eles aqui mesmo. Fugir, não fujo. Mais a mais, sou deputado e não tenho crime para me prenderem”.  Mas foi tão forte a pressão – “a gente toma conta disto” --- que obedeci e fui para a casa dos meus pais, no sítio da Banda d’Além. Ao que depois aconteceu não posso dizer mais nada, porque não presenciei. Lembro-me também que, no meio desta pequena conversa, muitas pessoas foram-se aglomerando em frente da porta principal do templo.
Mais tarde vim a saber que invadiram a igreja, rebentaram as portas da residência. Levaram o que quiseram. Para recordação, ainda lá estão abertos  os buracos das fechaduras que levaram consigo. À igreja cerraram a barrotes pregados nas portas.
Já na minha casa paterna é que me lembrei de uma frase ameaçadora pronunciada, tempos antes na Assembleia Regional, pelo presidente do governo regional: “Se a diocese solicitar o apoio do meu governo para ocupar aquele campanário, o governo não hesitará”.
Permaneci na Banda d’Além até à altura em que vi na estrada  uma multidão que me levou  à igreja da Ribeira Seca. Até hoje.

Tudo o mais só poderá ser contado por quem viu os factos. No facebook da Ribeira Seca, por estes dias.


27.Fev.2015

Martins Júnior