terça-feira, 3 de março de 2015

“AQUI A DITADURA NÃO PÔS A PATA EM CIMA”


         A invasão tribal que a PSP fez hà trinta anos na igreja da Ribeira Seca, Machico, por ordem do bispo Teodoro Faria e do governo regional, merece uma análise mais aprofundada nos seus pressupostos e conclusões. É um daqueles acontecimentos que ficarão catalogados no clássico ficheiro de “ study case”.  Quem interpreta a ilegal e vergonhosa  loucura dos mandantes regionais apenas como uma vingança cirúrgica contra um homem ou contra um pequeno agregado rural engana-se redondamente. E corre o risco de não ver outra narrativa senão os carros policiais, os agentes invasores cacetando as pessoas, depois as reacções, os gritos, homens e mulheres jogados como rezes para dentro dos carros da polícia, prisões e tudo o mais.      Vistas,  porém, essas degradantes cenas locais com um olhar mais apurado, o do historiador, chegará à conclusão de que elas mais não são do que uma nova edição do eterno conflito social entre duas soberanias: a do poder e a do povo.
         É esta a questão de fundo e não os seus contornos mais visíveis.. Porque desde sempre os ditadores traçaram um maquiavélico plano binário: primeiro tempo, juntar-se ao povo; segundo tempo, neutralizar o povo. Cito, por todos, o sargento Hitler. Poderíamos adicionar os mini-aprendizes hitlerianos cá do sítio, brevemente em aparente extinção. Endossar gratuitamente a soberania popular a terceiros é o caminho aberto à manipulação e, por fim, à capitulação de toda a autoridade do povo. Passa-se na política, nos negócios, na banca. Faz parte da construção sistémica das ditaduras. O povo perde a voz, a personalidade crítica, enfim, a própria dignidade existencial.
         Não só no âmbito da política. Também e sobretudo na religião. Aqui, agrava-se o risco, porque no estádio de uma religião obscurantista, os crentes são atacados, desarmados, rearmados no que de mais íntimo possui: o pensamento e a sensibilidade. Os jihadistas matam por amor a Alá e ao seu Profeta. Os cristãos de outros tempos também foram vítimas de idêntica  escravatura. Volto a citar o cardeal Poluzzo Polluzzi, chefe da execranda “Santa Aliança”, no século XVII: “ Se o Papa ordena liquidar alguém na defesa da fé,  faz-se isso sem fazer perguntas. Ele é a voz de Deus e nós, a “Santa Aliança”,  somos a mão executora”.
         O que se está a comemorar  na Ribeira Seca é  isso mesmo: o fanatismo  do Estado Cristão Diocesano atirando  as tropas dos “jihadistas” políticos  contra um povo  cristão indefeso. Configura o regresso à barbárie pseudo-religiosa, reeditada no século XVII pela Inquisição.
Mas o povo resistiu. E ganhou a guerra com as “armas da luz” e da paz. É esta e só esta a grande lição do pequeno capítulo da história de um povo.  Aqui, foi derrotada a soberania delegada do poder político-religioso e venceu a soberania originária do Povo.  É este o Artº 1º da Constituição de todas as Repúblicas Democráticas.  E não é por acaso que o Papa Francisco tem lutado repetidamente contra o centralismo devocionista e defendido o respeito pelas periferias.
         A  periférica Ribeira Seca mais não fez do que exercer o seu direito constitucional. Porque o Povo não pode ser um farrapo agitado a bel-prazer  dos soberanos e não será nunca um catavento ao capricho de atrevidas mãos dominadoras. Parafraseando um inspirado poema de Ary dos Santos, direi: “Aqui, na Ribeira Seca,  a ditadura não pôs a pata em cima”! Nem mesmo a política despudoradamente travestida de religião. Nem a religião fardada de polícia.
         Por isso, toda a Ribeira Seca cantou e ainda canta no seu templo renovado “A Igreja é do Povo e o Povo é Deus”, acrescentando-lhe na hora: ”Que faz a polícia na Casa de Deus?”

Ninguém pode destruir
A força desta união
Nós ganhámos esta luta
Que o Povo tinha Razão”

          N.B. Ao citar o termo “polícias” no texto, não envolvemos os agentes policiais, mas tão-só aos comandantes e graduados subalternos.

3.Mar.2015
Martins Júnior