domingo, 29 de março de 2015

AS ELEIÇÕES VISTAS DO SOFÁ


Hoje, em fim de tarde, só vejo o filme. Sem paixões, nem sequer emoções de circunstância.  Ajeito apenas os binóculos da serenidade e da lógica, enquanto os ganhadores abrem garrafas de champanhe e os perdedores compram lenços de enxugar mágoas.
Primeiro grande plano: ao PSD foi-lhe oferecida a tal, para os madeirenses,  deficitária fasquia chamada Maioria Absoluta. Não de votos, mas de mandatos: 24. Não tanto pela apregoada “Renovação” , pois lá estão à sua ilharga pesos pesados (mas escondidinhos e tristonhos na foto da vitória)  os que estiveram no berçário do partido desde há 40 anos. Interpreto o triunfo alcançado como o prolongamento daquele tufão que saturou a Região e que até à véspera das eleições mais acentuou esse enjoo na vala comum das inaugurações, mal disfarçando os antigos resquícios de vingança contra o agora eleito presidente do GR. A ordenança ao Primeiro Ministro para não vir à Madeira em campanha completou o menu das ajudas. Tudo isto somado ao mérito dalguns quadros que compõem a equipa vencedora.
Aos jovens de Gaula só desejo que a euforia deste primeiro amor, preparado pelo trabalho sério nas autarquias do seu concelho, não esmoreça nem crie aqueles amuos palacianos que se agarram aos movimentos quando transformados em partidos. Cuidado com os “verdes anos”!
Ao Bloco de Esquerda, parabéns: a travessia de quatro anos fora do parlamento imprimiu-lhes vigor para recuparar o horizonte então perdido. O seu trabalho porfiado entre as populações e a  favorável divulgação pela comunicação social chegava a convencer-nos de que sempre gozavam do estatuto de representação parlamentar.
À CDU, “idem”, na pessoa do seu líder, cuja intemerata seriedade de acção não tem paralelo na história do Parlamento Regional.
Ao CDS, louva-se a capacidade de passar mais ou menos enxuto por entre as portas manhosas e as cristas de ondas salgadas onde se meteu na campanha eleitoral.
Ao PND, o bem merecido tributo pela frontalidade e persistência diante de muros e armadilhas que lhes passaram aos pés. Entendo que o seu humor, além de saudável e pedagógico, tornou-se mais corrosivo que muitos discursos tão inflamados quanto inúteis.
Relativamente ao PS, coro de vergonha por este ter deixado “entronizar” na sua sede aquilo que considero o paradoxo mais inconcebível da organização política: a junção obtusa  da infantilidade com a senilidade prematura. Há tanto tempo que vejo esta fita e, oportunamente, a denunciei. E não só eu. Não quiseram ouvir os pré-avisos da derrocada e aí a têm de presente amargo. A sociedade, os madeirenses têm de pedir contas à corte que o rodeia. Também ao anterior líder, actualmente na Assembleia da República que jogou fora das listas os três deputados de Santa Cruz. É ele também co-responsável pelo nascimento e pelo sucesso da JPP. Os erros de hoje pagam-se caro amanhã.
Finalmente, conforta-me o largo espectro do novo Parlamento: colorido, fresco, tocado por aquele timbre de que falava Goethe,  com “ânsias de subir, cobiças de transpor “ os obstáculos ao serviço dos seus constituintes, os eleitores. Faltou apenas a cereja em cima do bolo: uma maioria relativa, em vez da maioria absoluta, que refreasse os tiques hereditários de um passado, aparentemente enterrado neste dia 29 de Março.
A mudança da hora de inverno para a hora de verão seria um amistoso presságio, mas não foi. Os relógios adiantaram uma hora, mas a Maioria ficou parada no inverno do absolutismo. Assim ditou o Voto.
Termino da mesma forma como me dirigi aos autarcas vitoriosos de 29 de Setembro de 2013: Quatro anos passam-se depressa. E, parafraseando Sérgio Godinho, repito aos governantes e deputados eleitos: Lembrai-vos que hoje é o primeiro dia do resto do vosso mandato.  

29.Mar.2015

Martins Júnior