quarta-feira, 11 de março de 2015

DESPEDIDAS SEM ENCANTO


Devem ter notado já os meus interlocutores que não me apraz debruçar sobre a casuística caseira e rasteira, protagonizada pelos olheiros e (mal) feitores cá da horta política ilhoa. Para esse peditório já dei. E muito. Prefiro agora abarcar as sínteses, o planisfério global em que se movimentam e armadilham as ideias, os artistas prestidigitadores e as marionetes deste palco breve que é a vida.
         Mas abro excepção neste fim de tarde, porque não é todos os dias nem todos os anos --- aliás, nunca se viu  nos últimos supra-salazarentos 37 anos --- assistir “ao vivo” a um espectáculo tão comovente: o inamovível inquilino da Quinta das Angústias andar, de corrico em corrico, batendo à porta dos seus comparsas, afilhados e padrinhos, no beija-mão da despedida. Ternurento e trágico: agora todas as portas se abrem, não para entrar mas para sair.
         Hoje foi a vez do Prelado Madeirense. Esta cena merecia bem a pena mefistofélica de um Eça ou a paleta pontiaguda de um “Charlie Hebdo”.  Aqueles suspiros de amados e amantes, aqueles olhos multifacetados confundindo o soalho com o tecto, gestos embrulhados em toucinho desde o pescoço até à cinta… Que terão dito aqueles corpos, que de juras de saudade eterna, que de prantos incontidos naquele palácio, que até os passos fugitivos não deixaram fazer declarações extra-muros?! “Graças vos dou, Senhor Bispo,  pelas sacro-profanas cerimónias em que fostes o mestre e patrono”, foi sem dúvida o lamento que ficou lá dentro, acordes lentos de um funeral anunciado.
         Mas o caso é muito mais sério. O gesto de gratidão não se dirigiu apenas ao actual inquilino do Paço, mas ao todo que aquela casa representou de cumplicidade, ambiguidade, roçando mesmo a criminalidade, na troca de inconciliáveis enriquecimentos. Desde a oferta dos altares aos pés do trono  político-partidário, em que as igrejas da Madeira tiveram de ajoelhar-se perante um herdeiro do fascismo português. Desde o abandono da cerimónia dos Crismas para juntar-se ao governo na inauguração de um hotel. Desde o envio da polícia armada para ocupar uma modesta igreja rural e, na mesma altura, ter comparado um pederasta brasileiro a Jesus Cristo pregado na cruz. Desde o pedido ao presidente regional para instaurar processo judicial (que veio a perder) contra um padre anti-regime. Desde a  traição de Judas na entrega do Jornal da Diocese ao partido e ao governo regional.  E o muito mais que um dia será descoberto e contado.
         As mãos que mutuamente se apertaram à despedida não estão limpas. Há nelas muito da  peçonha que aliou  Herodes e Anás. Pilatos e Caifás.  Nunca seria tão audível e maléfico o grito de um se não fosse o silêncio cobarde do outro!
          O pontífice da cruz dourada e cinta vermelha já não será mais o primeiro a chegar à mesa de honra e esperar pelo presidente para indicar-lhe o lugar central, como se revelou eloquente e reverentemente no primeiro acto oficial conjunto, a sessão do Dia do Concelho em Porto Santo, 24 de Junho de 2007.
         Nenhum deles se lembrou do esforço gigante que, no futuro, terão de fazer os titulares do Paço Episcopal e da Quinta Vigia para apagar o rasto viscoso e cúmplice que deixaram. Tal como o Papa Francisco para libertar-se dos “lobos” sem escrúpulo da Cúria vaticana.

11.Mar.2015
Martins Júnior