segunda-feira, 9 de março de 2015

O CHICOTE EM CIMA DOS BANQUEIROS


         Pegou num azorrague improvisado e, furiosamente, correu com os negociantes, escorraçou o gado que vendiam, tombou as mesas dos banqueiros que ali trocavam moeda e bradou em alta voz:”Fora daqui! Fizestes da Casa do meu Pai uma casa de comércio!
         O sujeito activo deste sobressalto não foi um polícia nem um centurião romano nem um fanático jihadista. Foi, nem mais nem menos, o protótipo da tolerância, do diálogo, do perdão, o nosso J:Cristo, conforme vem narrado no texto de Marcos, ontem difundido nas cerimónias dominicais para todo o mundo. O cenário foi o Templo de Jerusalém. Mas poderia sê-lo hoje, aqui e agora.
         Hoje! Traz  o  “Le Monde”, em 1ª página, a notícia de cidadão francês  emigrado na Alemanha Thomas Bores  a quem o fisco cativou um montante de 550 € , ao abrigo do acordo entre  o governo e as  Igrejas, por força do qual o cidadão tem de descontar para o culto.  Não obstante ter-se declarado actualmente  sem religião, o bispo de Berlim mandou pedir ao episcopado francês que lhe mandasse a certidão de Baptismo do homem. O caso envolveu o deputado francês Pierre-Yves le Borgn que contestou a pretensão do berlinense com base na directiva europeia 95/46 CE que proíbe a divulgação de tal informação para fins de ordem tributária. Enquanto o litígio continua, refere o matutino que “o episcopado alemão, em confronto com  Roma, nega os sacramentos aos católicos incumpridores do dito imposto. Diz ainda que para “desvincular-se  da sua religião  será penalizado  numa coima de 30€”. Ninguém, por certo, deixará de censurar este estranho conúbio entre os dois poderes, degradante e contra-natura, de constituir-se o Estado em cobrador dos impostos que depois entregará às Igrejas.
Estamos perante o grave escândalo de uma religião, seja ela qual for,  que, em nome de um Cristo proletário, se apresenta majestosa e opulenta, quer na magnificência dos templos, quer no fausto dos seus “príncipes”,  dos seus palacetes residenciais e, pasme-se, na simoníaca invenção das suas instituições bancárias, o sacrílego Banco do Vaticano, onde os sacrifícios de muitos milhões de cristãos pobres se misturam com o dinheiro  sujo  das máfias. Que luta titânica tem enfrentado Francisco Papa para exterminar os corvos peçonhentos da Cúria financeira!
Neste  entretenimento fraterno com os meus amigos, fico-me bordejando em volta  da mensagem --- actualíssima ! --- do domingo, alargando para o  magno problema que a Igreja Romana ( e todas as outras, salvo raríssimas excepções particulares) tem de resolver e que a torna tão vulnerável e subserviente aos magnatas das finança, aos governos e seus apaniguados. Determinados templos madeirenses, afrontosamente alteados no meio de gente pobre, mais não foram que o passaporte para manter no poder os mesmos de sempre. Que será feito desses  garbosos monumentos daqui a  tempos? A quem leu hoje o DN de Lisboa não terá sido indiferente a manchete: “Livraria, cinema, Museu do Dinheiro: a segunda vida das igrejas”.  Citam-se, entre outras, a igreja de Santiago, em Óbidos, e a de S.Julião, em Lisboa.
Em conclusão: “Uma Igreja pobre para os pobres”, lema de Francisco, não pode habitar sob o mesmo tecto onde se chocalham sacos de esmolas em horas sagradas, onde se vendem (alugam-se) velas, caveiras e braços e pernas de cera pela mãos de funcionários que têm o desplante de autocognominar-se “funcionários de Deus”.

Não podia deixar de situar estes considerandos na comemoração dos 30 anos da ocupação da igreja da Ribeira Seca. É que este foi também mais um forte pretexto que levou o poder religioso a  ostracizar aquela  comunidade: a recusa em levar dinheiro ao Paço Episcopal. Para apoiar causas nobres, como foi o caso de Timor, de Moçambique, da Luta contra o cancro e similares, ela esteve  e está sempre presente. Para o mafioso Banco do Vaticano e suas sucursais nas dioceses, nem um cêntimo.  Pensamos estar na Verdade.

Martins Júnior
03/Mar/2015