quarta-feira, 25 de março de 2015

QUAL ESTABILIDADE: DE CEMITÉRIO OU DE DITADURA?

Ao aproximar-se um grande dia, o 29  de Março, tem-me batido aos olhos e aos ouvidos um rap-rap tão insistente quanto indigesto à consciência de muitos com quem tenho trocado impressões sobre o mesmo tema: ”Maioria Absoluta, Maioria Absoluta. Queremo-la para assegurar paz e estabilidade”.
         Irritante esta lengalenga, viesse de onde viesse, mas sobretudo quando vem daqueles que comeram, beberam, banquetearam-se à mesa dessa “pseudo-estabilidade”, adulando o mordomo-mór e que, só no fim, quando o astuto mordomo se tornou velho e condenado a sair da távola redonda, é que se lembraram de “cuspir no prato em que comeram” (assim se lamentava o velho) e, depois, atirar-lhe os pratos e talheres à cara. Para quê?...Imaginem, para fazer exactamente o mesmo  que fez durante 40 anos e contra o qual, agora, se revoltam, nem querem que “ele” apareça. Mas, porque  “ele” é o mesmo, travestido embora com visual recauchutado, eis que lhe querem seguir as pegadas e clamam, aos brados como o outro, maioria absoluta para garantir estabilidade.
            Já me referi a este peditório em 17 e 19 de Março, mas agora volto a questionar-me sobre o conceito de estabilidade. E há, pelo menos, dois: a estabilidade mórbida como a paz dos cemitérios, onde tudo está bem, tudo se está dissolvendo em pó e ninguém levanta a voz. É caso para perguntar se os ditos pretendentes à maioria absoluta querem transformar a “Quinta Vigia” numa qualquer “Quinta dos Calados”? Seria recuar aos anos 50 do século passado, onde ali funcionava o Cemitério das Angústias”.
         Mas há outro conceito: a estabilidade férrea dos regimes totalitários, o de Salazar, de Hitler, o de Mussolini e outros que tais, o do velho mordomo, agora de saída forçada. Esta pseudo-estabilidade é bem pior que a primeira: é que nos cemitérios os encarcerados não reagem nem falam porque não têm força nem voz. Ao passo que, na segunda, os  seus constituintes, agora votantes, têm voz, mas o ditador amordaça-os; têm braços e pernas, mas o mordomo manda os capangas amarrá-los, de pés e mãos.
         Analisemos casos concretos: a estabilidade das setas espetadas para o céu foi a que depenou e espetou o povo madeirense com impostos mais pesados que no continente,  foi o mesmo que descapitalizou as Câmaras Municipais da Região, através de um contrato leonino, falaciosamente denominado Protocolo de Reequilíbrio Financeiro. Onde estavam os que agora bradam por estabilidade? Comendo e bebendo à mesa da “Quinta dos Calados”, felizes e caladinhos. E onde estavam estes mendigos da maioria absoluta quando o ditador, espumando raiva, porque derrotado nas urnas, devorava os ecrãs televisivos, vociferando como um louco: “Pra Machico nem um tostão”?! Até os próprios deputados eleitos por Machico, renegando a sua “pátria” e os seus conterrâneos, alambazavam-se de espasmo perante  o resfolgar paranóico do chefe. E onde estavam esses advogados da estabilidade quando o déspota fez sangue entre aqueles que, do mesmo partido, foram expulsos, saneados do seu posto de trabalho, só porque discordaram do poderoso absoluto? Cobardes, batendo palmas e beijando o pé do dominador, com medo que ele se voltasse para o mísero bajulador.
         Devo dizer que fiquei abismado quando o pretendente ao trono invectivou as Câmaras extra-regime absolutista vigente por não fazerem obras, sabendo a asfixia financeira a que estão sujeitas e, sobretudo, deixando ele mesmo uma dívida sua de 100 milhões de euros para os outros pagarem. 
Nesta altura, todo e qualquer partido que seja eleito tem de fazer uma cura anti-absolutista. Num país civilizado os cidadãos sabem conviver com a democracia, ou seja, com a alternativa ou, pelo menos, com a alternância do poder. Absolutismos hereditários (é o que estes querem) só em regimes afro-asiáticos com um régulo da mesma família ou um feiticeiro da mesma tribo. Sejamos civilizados. Ensinemos os nossos governantes a saberem ouvir-se uns aos outros, porque, lá diz o adágio, da discussão nasce a luz. E com toda a razão, como demonstra a descoberta da energia eléctrica produzida pela convergência do positivo e negativo. Quando nos habituamos ao debate divergente, a divisão transforma-se em multiplicação de iniciativas e sucessos.
         Por tudo isto, unamo-nos no combate às Maiorias Absolutas, para instaurarmos um regime onde todos possam viver e respirar, tal como os nossos antepassados lutaram pelo regime liberal contra o absolutismo miguelista. Qualquer semelhança é pura coincidência. Se bem que, no caso presente, a coincidência faz-se realidade. Seja como for, o emergir de novas representações parlamentares virá refrear o impulso açambarcador das maiorias. Será uma boa notícia.

25.Mar.2015
Martins Júnior