quarta-feira, 15 de abril de 2015

A “REVOLTA DOS JOVENS”: VOAR DE CADEIRAS Um episódio herói-cómico


Já aqui declarei que não me comovem nem me divertem os trapos de notícias caseiras. Não merecem olhos nem ouvidos. Mas desta vez, a água que passou sob a ponte movediça dos dias trouxe velharias tais, embrulhadas em papel selado do antigamente, que conseguiram mexer com a bossa craniana do mais escancarado sarcasmo. Refiro-me ao “Canto I” da peregrina comédia do novo Parlamento. Quando se esperava um sopro galvanizador, talvez um “golpe de asa” por parte da vitoriada “Renovação”, eis que o primeiro rasgo daquelas cabecinhas pensadoras foi, nem mais nem menos, um voar de cadeiras ou de qualquer coisa eufemisticamente designados por assentos daqueles corpos, muitos deles inquilinos virgens na nova casa, um feito que nem lembrava aos velhos caquécticos de há quarenta anos. Começam bem, pelo essencial, pelos cacos almofadados. E não me movo para mais comentários, pelo ridículo dos “cristãos novos” amarelados. Apenas chamo a atenção dos homens e mulheres da Oposição para o sinal “laranja” que isso significa. Preparem-se para as “guerras de alecrim e manjerona” daquela arena.
Tocou-me este grotesco episódio pois que pessoalmente assisti ao primeiro voar de cadeiras. E porque “ridendo castigo mores” (o riso também ensina, em tradução livre), aqui vai o relato que melhor fora vê-lo que conta-lo:
Eram as duas da manhã. Discutia-se o magno documento do Plano e Orçamento; aquilo ia noite-dentro para dissimular, nos noticiários do dia seguinte, a inércia forçada a que a maioria sujeitava todos os deputados. Naquela hora de sono e, muitíssimas vezes de descontrolo (sabe-se lá porquê) estava no (ab)uso da palavra o “Orador”, presidente do Grupo Parlamentar do PSD. E, como habitualmente falava sempre ao estilo de caserna fina, desancava em cima de mim toda a raiva que ainda mais subia de tom porque da minha parte só mereciam esquivos bocejos. No meio daquele enfurecido vulcão de lava preta, ouve-se da galeria uma voz que espalhou por toda a sala: “Primo,,, ( e pronunciou o nome do “Orador”) não maltrates o padre Martins”. Aquilo foi uma bomba, mais redonda que o hemiciclo, ou seja, do ciclo, mais propriamente daquele circo. O presidente mobiliza os funcionários, clama pela polícia e põem o homem na rua. E, no início da sessão legislativa seguinte, o PSD (leia-se, o dito “Orador”, presidente do grupo parlamentar da maioria) requer a inversão de lugares: O PSD à esquerda da Mesa e os restantes à direita. E assim se manteve a praxis até ontem.
Perguntar-me-eis: “Onde está a graça”?... Por isso, eu disse acima que isto era bem mais divertido de ver que de contar. Explico. Quando se deu este episódio herói-cómico, o PSD ficava à esquerda da Mesa. Porquê? Precisamente porque ficava frente à galeria dos visitantes e aí tornavam-se mais visíveis e “brilhantes” as piruetas verbais e gestuais dos seus deputados. Embora com a desvantagem de ter as “cameramen” pelas costas. Após o protesto do “primo”, saído da galeria cara-a-cara com o “Orador”, o caldo entornou-se, os tiros do dito “Orador” saíram pela culatra, todo ele enxovalhado e furioso, por circunstância que me dispenso de esmiuçar.
Assim se operou a transposição dos assentos. Há uns vinte anos, ou mais. E agora vêm os cosmonautas da “RENOVAÇÃO” renovar o que já fora renovado, ou seja, restabelecer a velhice rançosa que eles mesmo puseram na rua. Boa estreia!
Quanto ao CDS, o meu alvitre é que não se incomode. Deixe lá  os velhos “caloiros”  do PSD ostentarem os assentos da sua verdadeira identidade: estão mais à direita do que o CDS.
Não terá graça nenhuma esta novelazinha, entre tantas, daquela  velha casa. Ou tê-la-á por não tê-la. Mas ajuda a ver as voltas que o mundo dá. Também o da política.

15.Abr.2015
Martins Júnior