terça-feira, 21 de abril de 2015

CIDADÃ DO MUNDO, MULHER DE CAUSAS, MULHER DE ABRIL


Já aqui expressei a minha indiferença, repúdio até, em tecer homenagens post-mortem  seja a quem for:  pelo formalismo, pela hipocrisia e, quantas, quantas vezes pela pequenez e incompetência dos panegiristas de palanque, oportunistas de circunstância nos cerimoniais fúnebres.
Não posso, porém,  deixar de evocar aqui uma Mulher,  de 72 anos de idade, cujo corpo foi hoje a sepultar em Lisboa, mas que continua viva para quem a conheceu de perto:  uma “Cidadã do Mundo”, uma activista serena e firmemente mobilizadora (os dois predicados ideais, tão difíceis de conciliar numa liderança) convicta católica feminista, naquilo que diz respeito à conquista do poder da Mulher, em paridade com o homem.
De fina educação anglo-saxónica pela linha materna ( os seus avós conheceram e corresponderam-se com Churchill, Graham Green, Henry James) e de sangue latino pela parte do pai, aliou-se-lhe pelo casamento o apelo revolucionário ao consorciar-se com o filho do corajoso anti-salazarista Arlindo Vicente, candidato à República, abdicando depois em favor da candidatura do general Humberto Delgado. A vida de Ana Vicente foi a de um andarilho mensageiro pela Europa, África, particularmente em Angola, São Tomé e Príncipe, em campanhas de promoção das periferias, como consultora da Nações Unidas para a População e  da Organização Mundial de Saúde. Em Portugal esteve na linha da frente da reivindicação dos Direitos, Liberdades e Garantias, relevando a importância da Nova Constituição da República Portuguesa e do Código Civil, ao lado de Maria de Lourdes Pintassilgo, mais tarde na Comissão Nacional para a Condição Feminina, a que presidiu, tendo sofrido, por sua esclarecida militância, a prisão pela Pide antes do 25 de Abril e o saneamento “à esquerda”,  pós-25 de Abril,  no VI Governo Provisório. Exerceu o jornalismo, como  free-lancer e em publicações da especialidade em Espanha e Portugal,  no jornal anti-fascista “República”,  por ex.,  e deu â estampa notáveis títulos de análise político-social, entra os quais,”As Mulheres em Portugal na transição do milénio”  e “Portugal visto de Espanha”.

Para ilustrar o seu pensamento crítico, sintetizo-o em três tópicos, qual deles o mais impressivo:
Sobre os portugueses: ”Os portugueses são de um individualismo doentio”.
Sobre a Mulher e seus adversários: Temos de identificar os nossos inimigos, mesmo que sejam mulheres…Quanto maior o desequilíbrio do poder entre homens e mulheres maior é o subdesenvolvimento”.
Sobre a Igreja, o sacerdócio e o funcionalismo eclesiástico: Quando me dizem que a falta de padres é uma desgraça para a Igreja Católica, eu acho que quanto menos padres houver melhor”. E dá o exemplo da obra grandiosa de várias freiras em São João do Estoril que se lançaram na educação e promoção  num bairro de imigrantes marginalizados, querendo com isto traduzir a verdadeira vocação do cristão liberto do institucionalismo hermético das regras canónicas. Por onde se compreende tenha sido Ana Vicente a pioneira em Portugal do movimento internacional de leigos denominado “Somos Igreja”, tão do desagrado das hierarquias.
Acompanhei-a em encontros de intelectuais e activistas cristãos e agnósticos, ao lado de Frei Bento Domingues, Prof. Pe. Anselmo Borges, Catalina Pestana, Dr. Oliveira e Silva, para citar apenas alguns.
E por que razão interrompi eu o tema que  vinha apresentando nestes dias e por que, com maior razão, trago Ana Vicente hoje ao nosso convívio?
Sobretudo por isto: nesses encontros, repetia-lhe sempre o pedido para vir à Madeira trazer a força da sua mensagem. Mas não lho permitia o estado de saúde. Até que um dia, telefona-me e garante-me: “Agora, decidi-me e vou”.
E veio. Na igreja da Ribeira Seca, foi ela quem fez a homilia, em pleno altar, com toda a assembleia, os celebrantes inclusive,  presa das suas palavras. Estou convencido que ela sentiu-se realizada naquele desígnio por que sempre lutou: a Mulher, também participante do Sacerdócio de Cristo. Na tarde do mesmo dia, 8 de Março, Dia da Mulher, voltou a falar no “Forum Machico” a uma conceituada plateia de professores e cidadãos vivamente interessados. 
 Confesso: não sei que mais admirar em Ana Vicente: se a sua brilhante trajectória de intelectual e militante, se o seu tocante humanismo de, mesmo atormentada pelo vírus fatal, ter-se dignado subir a encosta para estar fraternalmente com a humilde comunidade da Ribeira Seca.
Já lho agradecemos em vida.
Queremos continuar a ouvir o eco das suas palavras!

21.Abril.2015
Martins Junior