sexta-feira, 17 de abril de 2015

CINCO DIAS CINCO NOITES - PARA ALCANÇAR ABRIL!




Começo hoje a abrir a estreita vereda que  há-de levar-me à estrada ampla que culmina no alto daquela montanha cimeira chamada “25 de Abril” ou, mais precisamente, da sua incontornável celebração. Quem me dera a mim e a todos meus conterrâneos sentir um pingo, ao menos, da emoção, da acção e da incógnita expectativa, entre a coragem e o risco, daqueles valorosos militares nas vésperas da grande reconquista da dignidade de um povo amordaçado. Mas não, não é possível reconstituir dentro de nós a pulsação, a um tempo fogosa mas vigilante desses heróis.
Porque não sentimos o subir da seiva de   Abril debaixo dos nossos pés, não sofremos as dores parturientes do Dia Novo: vieram servir-nos, de bandeja, à cama e ao sofá as romãs vermelhas de um Portugal livre, saído das prisões, dos corpos curtidos, dos silêncios estranguladores. Deram-no-lo de graça, por isso nem lhe saboreámos o sumo nem sequer o recebemos em casa como uma jóia preciosa ; para muitos até não foi mais que uma oferta de desconfiar. Por isso que pode afiançar-se que a Madeira nem soube o que foi Abril. E tão certo é o que afirmo que até  deixámos a beleza pura de Abril nas mãos manchadas dos inimigos de Abril, os herdeiros do fascismo, os que comeram, beberam e cantaram as glórias de Salazar, refastelados à mesa do velho regime. Não estarei longe da verdade histórica se disser que nós, os madeirenses, fomos obrigados a viver sob um regime totalitário durante, não apenas 50 como os continentais, mas 90 anos, se somarmos estas quatro décadas de musculada e tenaz garra da governação. Na Madeira, o salazarismo, naquilo que tem de mais identitário, perdurou até hoje. Ninguém se iluda com o negrume dos longos tapetes betuminosos, com as galerias subterrâneas, com as marinas manhosas ou com a consentida, mas castigada, liberdade de falar e escrever. Tudo isso veio de lá.
O madeirense médio conheceu o refeitório de Abril, mas nunca se interessou pelos caminhos e veredas, os socalcos dolorosos para lá chegar. Por isso não amou e pouco se afadiga para conservá-lo e replantá-lo. Já aqui afirmei que as vitórias gratuitas e as benesses de borla são sempre falaciosas e, por isso mesmo, efémeras. Daí, a aceitação passiva dos abusos, dos escárnios, dos esbanjamentos perdulários, a que tem sido sujeito este povo.
É preciso, pois, que as comemorações não se apresentem encadernadas em velhos alfarrábios nem se pareçam com as coroas funerárias que os velhos combatentes oferecem ao soldado desconhecido. Não! Relembrar Abril é mais que cantar, É agir, é estar na centralidade dos acontecimentos e nos areópagos dos decisores.
 Enquanto o Povo não ocupar essa inultrapassável centralidade nunca verá a manhã de  Abril. É esta constatação que procurarei demonstrar nestes cinco “Dias Ímpares” que nos separam do “25 de Abril”, a que dou o já conhecido mas  sempre inspirador subtítulo. “Cinco Dias, Cinco Noites”.
A mensagem será,  sobretudo, das vivências de Abril em Machico, onde a população esteve, desde a primeira hora, no centro operacional da acção, merecendo por isso o gostoso título de “MACHICO-TERRA DE ABRIL”.


 17. Abr.  2015
Martins Júnior