segunda-feira, 27 de abril de 2015

EM ABRIL – CRAVOS CEM, PIRUETAS MIL

           Ainda estamos a tempo de considerar jovem o 25 de Abril/74.
        É o que demonstram as múltiplas expressões públicas da sua vitalidade, umas mais espontâneas, outras mais elaboradas. As multidões em Portugal Continental, sobretudo no coração de Lisboa. Os imponentes murais. A evocação de Zeca Afonso e de tantos cantautores de Abril, muitos deles com presença rememorada na Madeira, especialmente em Machico. Na Assembleia Legislativa Regional, a mensagem multicolor dos diversos representantes do povo. O toque de alvorada na sessão da Assembleia Municipal do Funchal pela voz de um capitão de Abril. A “Távola Redonda” em Santa Cruz sobre o ontem, o hoje e o amanhã da Revolução dos Cravos. As Tunas, exposições (41 obras nos 41 anos), a Corrida da Liberdade entre Machico e Santa Cruz e, em terras de Tristão Vaz, a confraternização dos muitos cultores de Abril coroada com o emocionante concerto musical de crianças, jovens, Grupo Coral e Universidade Sénior, enfim, um feixe de cravos vermelhos apertado ao peito de distintas sensibilidades e gerações.
         Mas não faltaram também as piruetas. A começar pela serôdia despedida de Cavaco Silva no Parlamento Nacional, cujo reiterado atrevimento nem pestanejou ao afirmar que “ um dos mais importantes activos de  Portugal, comparado com outros países da UE, é a sua coesão social”. Com a alta taxa de desemprego, com ”mais de 640 mil jovens e crianças na pobreza”, referem as estatísticas,  e onde “há mais jovens a ir para a cama com fome”  (Margarida Gaspar de Barros),  è preciso muito impudor para branquear o negrume social vigente.
Outra facécia de cordel foi o “casamento de conveniência” entre Coelho e Portas, um “cravado” ao peito, outro encravado até à medula, numa pirueta própria de circo ambulante, mas nunca de um “25 de Abril!
Na Madeira, em minha apreciação, o que se passou na RTP/M, sob o signo “A Liberdade antes e depois do 25 de Abril”, agregando velhos e novos numa sala de composição híbrida, eclética e, por tal, inconclusiva, mais não foi que um propósito deliberado de branquear 41 anos de “Estado Novo” na auto-proclamada “Madeira Nova”, incutindo nos jovens e nos telespectadores a ideia de que  todo o mal foi antes de 74 e, daí até hoje, nada aconteceu de atentatório à Liberdade e à Cidadania dos madeirenses.
O melhor de tudo, no entanto,  foi ouvir as versões unânimes dos jovens presentes sobre o conceito de Liberdade,  numa digressão enciclopédica que bem poderia ser feita em qualquer cidade ou aldeia do mundo.  Também  “mui terno e eloquente” foi o testemunho de certos semi-veteranos, alguns encartados no sistema, ao exaltar aquela sala como produto da autonomia regional,  ou ao  promover as mulheres, “porque antes de 74 não podiam seguir a carreira de diplomatas e agora podem; ou, ainda,  que antes não eram permitidas turmas mistas  nas escolas , mas  agora sim”… E ainda toda a vela dada pelo inquiridor-mór às baforadas da velha tecla, tresandando à pólvora da “Flama” bombista: “nós estamos aqui a sustentar aqueles tipos lá de Lisboa para viverem à grande”. Tudo isto passou aprovado sob o olhar complacente do censor e entrevistador, sempre o mesmo e único que temos na casa-mãe dos ecrãs ilhéus.
Proteger o sistema regional --- foi o desígnio oculto, mas não ocultado,  do moderador ---  branquear o regime, sem nada informar o público sobre a real situação repressiva, imposta no pós-Abril da Madeira, pelo mesmo partido e pelo mesmo salazarismo disfarçado de autonomismo.
Isto é mais que pirueta. É embuste. É fraude É  traição à gloriosa data que nos devolveu a liberdade de expressão. E tanto mais censurável quanto se esperava agora uma nova aragem na transição do cenário político decorrente das eleições do recente 29 de Março. Enfim, mais do mesmo! Inclusive, cortar a palavra a quem fora convidado a exercer o seu direito de opinião sobre a Liberdade, não apenas antes de 74, mas também depois de 74.
         Por este caminho, os madeirenses vão ter de esperar  mais  40 anos para  que  seja permitido aos jovens de hoje (já serão, então, pré-veteranos)  debater a liberdade vivida (ou não) na Madeira entre 1974 e 2015.  Mas isto só dependerá da vontade e do espírito crítico da população face aos seus órgãos de comunicação social.

27.Abr.2015

Martins Júnior