segunda-feira, 13 de abril de 2015

MAIS ALTO QUE O PICO RUIVO – ULTRA TRAIL/2015


Corre-se por amor. Corre-se por dinheiro. Corre-se por espectáculo. Corre-se por stress. E corre-se, ainda, sem saber qual seja a meta.

Mas hoje quero levantar mais alto que o Pico Ruivo quem durante dois e três dias correu por convicção pura, por homenagem à terra, por imperativo genesíaco: o coração a pulsar,  lado a lado,  do coração da mãe natura.  Este, sim, é que  merece ostentar a coroa do desporto-rei, o esplendor nascente da força, do talento, da sensibilidade inteira, tal como dos atletas olímpicos de outrora  brilhavam os louros da coroa vitoriosa.

Que beleza sonora a saudação das árvores campestres à sua passagem, a vetusta e sempre jovem Laurissilva de onde os pássaros solistas ofereciam o concerto dos seus gorjeios! Que porfiado serviço à floresta, desbravando carreiros, remarcando  trilhos, valorizando o chão das levadas que lhes pagavam com espelhos de água refrescando o corpo e o espírito! Quanto vale esta atmosfera, comparando-a com os roncos lunáticos das “bombas” que poluem ou com os esgares de manicómio a-céu-aberto de muitos estádios de futebol?!

Depois, a alma que se põe na decisão desses  redescobridores da ilha: são eles que pagam o equipamento, são eles que contribuem com a “jóia” do próprio bolso, --- “uma modalidade que se auto-sustenta, porque é paga em 60% pelos participantes” --- informou hoje o organizador da prova. Tão diferente dos calculistas sugadores dos dinheiros, públicos ou privados ---“quem dá mais?” ---prontos a ser  vendidos como rezes no mercado (que degradante retrocesso, embora camuflado, ao tráfego de humanos)! A este propósito, acho oportuno citar o abalizado analista Dubech: “O desporto deixa de ser desporto, torna-se batalha, espectáculo, comércio. O jogador deixa de ser jogador, torna-se acrobata, mercenário, qualquer coisa parecida com um gladiador hipócrita” (Où va le sport?)

No MIUT ninguém se compra e ninguém se vende. E ninguém rasteja para rapar um cêntimo ao erário público. Pelo contrário: são os administradores das nossas finanças que se apresentam (como bem fizeram as Câmaras Municipais de Porto Moniz e Machico) a prestigiar e a apoiar, no possível, os encargos de tão prestimosa iniciativa.

Foram 1.300 os heróis desta aventura, que estenderam mais longe a toalha verde da ilha e humanizaram a nossa paisagem. Não posso deixar de transmitir a minha sensação de voltar à gloriosa epopeia dos Jogos Olímpicos daquela Grécia de há mais de 3.000 anos, quando vos vi sair, uns do Porto Moniz, outros dos Estanquinhos, outros do Pico Areeiro e outros, ainda  da Portela, sim, imaginei nesse percurso o histórico facho olímpico que vós  passáveis de mão em mão.

E como o meu elogio é sempre escasso, cito para vós a mensagem que  Aristóteles, o grande filósofo de então, dedicava aos vencedores. A todos quantos, sublinho eu, se alistaram, porque, mesmo os que chegaram por último, esses também venceram a prova:
“Considero-os os mais belos dos humanos porque os seus corpos foram igualmente capazes de força e velocidade”
Esperamo-vos, de novo!

13.ABR.2015

Martins Júnior