sábado, 11 de abril de 2015

ROSAS BRANCAS – HOMENAGENS FRIAS

 
No turbilhão caótico dos dias, instantes há que nos levam por atalhos e veredas onde a emoção e a razão se fundem numa claridade, a um tempo, repousante mas terrível. E daí, do alto da colina, a paisagem ganha aquela amplitude que só a verdade consegue transmitir. Esta semana arrastou-me para dois cenários que se diluem numa única e mesma conclusão: a vacuidade e, no limite, o cheiro nauseabundo de certas e muitas flores que se oferecem aos mortos.
Cito o caso particular do amigo e conterrâneo Tolentino de Nóbrega. Imaginar que ele emigrou e não volta mais atinge os neurónios de quem com ele privava todos os dias.
Mas não menos dói o branqueamento que as rosas mortuárias tentam (mas não conseguem) fazer das nossas cobardias, dos nossos silêncios conspirativos, quando a  pena do amigo comunicador brandia, certeira e pesada, no dorso dos arrogantes poderes instalados. Agora, mais do  que nunca, surgem de todos os arsenais da comunicação loas, épicos morteiros, girândolas multicolores ao “jornalista heróico”, ao “combatente sem medo”, enfim, ao “maior do jornalismo português”. Tudo bem. Mas onde estavam esses pássaros canoros quando o Tolentino comia o pão que o diabo do poder amassou… quando a Quinta Vigia o caluniava até ao tutano… quando lhe moviam processos judiciais?... Calados, na sombra, na indiferença que mata aos poucos. Quem se levantou, de cara erguida, a defendê-lo nas horas mais dramáticas ou a alcandorá-lo no aceso da luta?
Devo confessar que não me conforta nada, muito ao contrário, participar em funerais envernizados de oficialidade. Até porque, na tela dos cinemas como no filme da vida, não raro é ver-se  o assassino, aperaltado e grandes óculos escuros, depositar coroas de flores na tumba da vítima…
Mais que homenagens, mesmo em vida, os lutadores precisam é de operacionais solidários  na hora.
Pior fiquei hoje, “Dia do Combatente”, com as cerimónias religiosas, civis e militares em Machico e para as quais já tinha recebido convite que, mandou-me a consciência terminantemente rejeitar. E recusei porque tenho gravada ainda a tragédia de tantos jovens que lá caíram em combate, das suas famílias, dos estropiados, dos inválidos prematuros, dos deprimidos para sempre.  Quem e quais instituições se pavonearam nestas homenagens? Precisamente os titulares acobertados no camuflado do Estado, do Exército, da Igreja. Todos co-autores de assassinatos sangrentos contra vítimas indefesas, de um lado e de outro. Heróis, sim, mas à força, todos os que, a meu lado, pagaram com o corpo ou com a vida, os monopólios petrolíferos, o ouro e os diamantes daqueles cujas sôfregas ambições não sentiam nenhum pejo em mandar saquear aquilo que não era seu. Clandestino mas furioso era o “pó” (sinónimo de ódio surdo) de furriéis, sargentos e oficiais milicianos contra os altos estrelatos que, assim se comentava, “ganhavam mais uma comenda ao peito por cada militar  morto em combate; e por cada comissão de dois anos arranjavam dinheiro para comprar mais um prédio de luxo na Avenida de Roma”.
E são essas instituições que hipocritamente vêm emproar-se, a toque de clarim, quando o que deviam fazer era desaparecer dali envergonhados ou, no mínimo, ajoelhar-se e pedir perdão às vítimas inocentes de outrora. Pranto e dor para elas. E, na mesma medida, o nosso apreço por todos os que se manifestaram contra o regime então vigente, jovens, muitos deles, universitários, que abandonaram o país, outros que foram presos em Caxias e Peniche, padres e mestres que ousaram denunciar em Portugal e no estrangeiro o genocídio colonialista.
Perdoem-me este desabafo, mas hoje a emoção e a razão encontraram-se e mandaram que falasse assim. Porque só  pode falar em HOMENAGEM quem  contribuiu ou ainda  contribui, em tempo oportuno, para a vitória das causas em que se empenharam os homenageados.
Para terminar, vou pôr a rodar a toada plangente do grande Luís de Góis naquele fado coimbrão que vem de longe:

Quando eu morrer, rosas brancas
Para mim ninguém as corte
Quem as não teve na vida
De que lhe servem na morte?...

11.Abr.2015

Martins Júnior