quarta-feira, 29 de abril de 2015

TERRORISMO BOMBISTA NUM “CANTINHO DO CÉU”

Tantas e traumatizantes são as notícias que nos entram em casa --- tragédias no mar, tragédias em terra, tragédias no ar, umas naturais, outras provocadas --- que, parece, só delas deveria ocupar-se o olhar atento dos  observadores, em vez de tecer esparsas análises sobre o passado. No entanto, dois factos recentes, de sentido contrário --- o reconhecimento dos erros passados, assumidos pela maioria na Assembleia Regional e, por outro lado,  a recente preocupação da RTP/M em esconder a história do pós-Abril na Madeira  --- vieram reforçar-me os argumentos para que  não se apaguem os trilhos de uma história que é nossa e corre o risco de passar em branco na futura memória colectiva.
Por isso, retomo hoje as vivências de Abril em Machico de 74/75 para reafirmar que o gérmen de todas os movimentos e metamorfoses de uma sociedade reside nesta condição “sine qua non”: o povo na centralidade dos acontecimentos.
Foi o caso ocorrido nas terras de Tristão Vaz. Já vos dei conta do papel estratégico da população no domínio da economia e da política. Ficámos a saber que, das muitas vicissitudes por que passou o processo revolucionário em Machico, prevaleceu a vontade popular contra as imposições dos poderes de então.
    Mas, de permeio, reorganizaram-se as hostes do fascismo agonizante, com redobrado furor contra o povo que ia construindo um novo país e uma Madeira para todos. Tinha o falacioso cartaz de FLAMA (Frente de Libertação do Arquipélago da Madeira) --- libertação igual a opressão, exploração e destruição do povo madeirense e privilégios para uma minoria dos dominadores, senhorios da ilha. As suas armas eram as bombas, a sua estratégia era a noite. Instrumentalizaram  jovens, recrutados ao pormenor, que armadilhavam casas e carros, chegando ao crime de entregar a um menor inexperiente o explosivo assassino que rebentou nas mãos do próprio e o matou quando se preparava para o colocar num carro visado pelos flamistas na sombra. Um outro activista,, já maior de idade, ameaçado de morte  pelos chefes do bando terrorista, se falasse ou os denunciasse, apareceu  mais tarde enforcado na cadeia. Um dos atentados mais imundos aconteceu quando destruíram os aposentos de quatro padres, professores no liceu e nas escolas do Funchal, os quais viviam em comunidade sacerdotal na Rua do Pomba. Nem escapou o avião militar estacionado na pista do aeroporto, depois removido para um terreno particular em Água de Pena, (foto acima).  Madeira e Porto Santo viviam num irrespirável sobressalto, um autêntico inferno,  sendo que os alvos preferenciais eram os cidadãos que abraçaram os ideais do 25 de Abril.  Muito tempo depois, vim a saber, da própria boca de um operacional (decepcionado por não ter sido agraciado com um posto importante na orgânica do recém-formado governo regional) que a igreja da Ribeira Seca estava no ponto de mira dos bombistas. Nada conseguiram porque o templo estava sinalizado e vigiado vinte e quatro sobre vinte e quatro horas, as mulheres vinham bordar em volta durante o dia e os homens formavam pelotões rotativos durante a noite.
A “flama” assumia-se como o braço armado do neo-fascismo entre nós. Até tinha bandeira e hino. Curiosamente a bandeira, azul e amarela com a cruz ao meio, foi aquela que depois veio a ser adoptada para ícone da Região Autónoma da Madeira. É sintomático e permite as mais díspares interpretações (e era conversa comum entre a gente mais atenta e esclarecida) o facto-coincidência de ter-se calado o arsenal bombista a partir do dia em que tomou posse o presidente do governo regional, ora cessante.
A ideologia da “flama” espelhava-se nas palavras de ordem pintadas, pela calada da noite, em paredes públicas e particulares: “Portugal, rua! Independência já” … “cubanos fora, Madeira é nossa” e afins. E constituíam um aviso infalível: onde quer que  aparecessem as inscrições murais independentistas, inevitavelmente seguiam-se-lhes as bombas, um ou dois dias depois. Eram o prenúncio certo.
Permanece fechado, a sete gonzos,  nos antros da (in)consciência dos seus caudilhos  a história tenebrosa do poderosíssimo paiol que foi esse movimento, tão minoritário que só se afirmava pelas mãos criminosas tintas de sangue inocente. Aconteceu que, como acima, este bando estava tão talhada à medida da máfia siciliana que os co-autores, em esgares de desespero,  acabam vítimas às armas que fabricaram. Por mais horripilante que custe escrever e ler o que vos transmito, não posso calar o pavor que assolou os madeirenses quando apareceu num dos fundos do litoral da ilha o corpo de um dos principais flamistas, que eu bem conheci, correndo a versão de um misterioso suicídio.
Tudo isto e muito mais aconteceu. E as autoridades civis e militares, com todos os meios ao seu alcance, nunca conseguiram identificar os terroristas domésticos, de dentro e de ao pé de casa...
E aqui é que entra a acção do Povo de Machico, na centralidade dos acontecimentos para defesa do seu território. Ficará para um próximo “dia ímpar”. E para memória futura.

29.Abril.2015

Martins Júnior