quinta-feira, 21 de maio de 2015

LUA DE MEL NO PARLAMENTO


“Como é diferente e como é  belo o amor em Portugal”… exclamava o octogenário  De Gonzaga,  na deliciosa “Ceia dos Cardeais” de Júlio Dantas.
Foi a definição que mais perfeita encontrei, ao seguir o “rendez-vous” (perdoem-me  o galicismo) que dá pelo nome estatutário de “Programa do Governo” no  Parlamento Regional. A mesa, de facto, era tão redonda e ininterrupta como a arquitectura circular concebida pelo conceituado Chorão Ramalho. Aquilo era tudo fresco e “acaloirado” como o fatinho novo com que se encadernavam os deputados: “Muito bem, sr. deputado, não posso estar mais de acordo consigo”, cantava o novel Secretário, a que repenicava o oposicionista: ”Muito bem, sr. Secretário, até que enfim está a confirmar o que o nosso partido dizia e o seu antecessor recusava”.
Depois, as juras de amor quadrienal, conjugadas com o verbo ir: “Nós vamos isto…e vamos aquilo…e vamos”, aqui entra o substantivo conjunto: “ Estamos a preparar um conjunto de regras…um conjunto de peças … um conjunto de ideias”… Tudo muito aparelhado e completo como o cardápio de presentes para  futuros noivos.  Uma excepção, apenas,  dissonante expediu da boca de uma “velha” senhora, antes autarca e agora estreante secretária, a um distinto deputado com provas dadas ao longo de
várias legislaturas: “Não venha com essa demagogia”. De uma graciosa boca feminina, soou a caserna.
Para lá do desfile dos perfumados colarinhos brancos,         indaguei-me do porquê de tanta “cantiga de amor” palaciano. Até que descobri: Aquela “ceia” de três dias não é bem de casamento, mas de divórcio.  Afinal, os vários nubentes ocupantes da mesa de honra  estavam ali porque tinham-se divorciado do primeiro amor que durara mais de 36 anos, record de longevidade superior ao velho solteirão Oliveira Salazar. Consumado, embora  com duvidoso sucesso, o divórcio litigioso, agora os bem sucedidos litigantes abraçam-se e juntam-se aos inimigos do “velho”, que de angustiado vigia passou a defunto hibernado.
Bem, para lua de mel de segundas núpcias, nada de mais doce e consolador!
Veremos mais tarde, no chão pedregoso das opções --- velhos interesses em odres novos --- quais ementas e benefícios chegarão às mãos do pagante destas facturas, o Povo ilhéu!
21.Maio,2015

Martins Júnior