quarta-feira, 13 de maio de 2015

PEREGRINOS CONFESSAM-SE E INTERROGAM-SE…


É um fenómeno apaixonante e, pelo tanto, avassalador aquele que se costuma designar por psicologia das multidões. Porque a multidão, já o sabemos, não é apenas a soma das partes envolventes.  É outra entidade emanescente,  outra alma e outro tom que sobrepujam a simples adição das  parcelas. Por isso que no vulcão multitudinal, o particular dilui-se no universal, amplia-se, transfigura-se e, não raras vezes, contracena com a própria identidade pessoal. Ao ponto de serem outras as nossas reacções, fruto imprevisto  da espiral emotiva que nos comanda. Digam os estádios de futebol, os megaconcertos, as manifestações colectivas e, dentro destas, as de carácter religioso.
No entanto,  a psicologia do “ego”, no seu sentido mais nobre, não deverá nunca  deixar-se alienar pelo instinto gregário de circunstância. É verdade que, como nos ensina Auguste Comte, difíceis são as análises quando “o observador coincide com o observado”. Mas é imperativo distinguir a génese e o percurso das motivações fasciculadas de cada árvore da floresta-multidão, sob pena de perdermos o pé no vasto oceano da peregrina  paisagem.
De certeza que já intuístes, desta introdução, que o que me move neste dia 13 de Maio,  é precisamente uma tentativa de  geometria analítica dessa gigantesca estrutura, chamada Peregrinação, que neste ano somou 200.000 almas no chão da Cova da Iria.
Vou cingir-me aos factos relatados na comunicação social, na expectativa de que quem me lê os confronte com o seu próprio pensamento:
1.     A maior parte dos peregrinos  esclarece que, em transporte-auto ou a pé, o seu móbil assenta em dois pólos: a fé e a esperança. Quase sempre por um bem adquirido ou um bem  iminente ou, em termos contabilísticos, em lucros vencidos e vincendos.
2.     F. diz que vem a Fátima porque assim prometeu a Nossa Senhora “se ela o trouxesse vivo e são para a metrópole,” sua terra natal. E eu fico a pensar naqueles onze amigos meus que uma mina anti-carro ceifou diante dos meus olhos,  esses e os milhares que lá ficaram sem ter uma mãe que lhes valesse…
3.     F., professor de Educação Física, mais desinibido  nos seus 29 anos,  confessa abertamente que fez a viagem a Fátima sozinho  em passo de corrida, com um carro de apoio: ”Foi um desafio, não uma promessa”
4.     F., “dono de grupo empresarial, ,com diamantes em Basileia, indiciado de branqueamento de capitais e associação criminosa, lesou o Estado em dezenas de milhões.  Foi detido pela PJ na passada quarta-feira enquanto fazia peregrinação a pé até Fátima”
5.     Cinco peregrinos, entre eles dois jovens, foram mortos por carro desgovernado quando seguiam a pé em peregrinação conjunta. Poderia valer-lhes a Senhora de Fátima?
6.     Nos confins do mundo, “El polideportivo que salvó una aldea” (El Mundo, 13/05/2015) . Foi em  Bhimphedi, Nepal, no passado  25 de Abril, quando os 5.000 habitantes do lugar foram à inauguração de um campo de futebol e de basquetebol e, a 200 metros, viram o tenebroso sismo desabar as suas casas. “Se a inauguração tivesse sido noutro dia, muitos teriam morrido”.  No segundo sismo, foram poupados de novo, porque assentaram as tendas no referido polidesportivo.
7.     Todos estamos lembrados da tragédia de duas freiras que se dirigiam a Fátima de automóvel, quando dois enormes pedregulhos que se soltaram de um camião que ia na frente, abalroaram o automóvel causando morte instantânea às duas ocupantes.

Poderia continuar este cortejo de acontecimentos fortuitos, trazendo à colação  casos paralelos de outros continentes, como o da Senhora da Aparecida  (a sua imagem de rosto negro  ficou exposta este ano na Cova da Iria) e em cujo santuário vi,  em 1972, no salão  das promessas, uma cruz enorme e tão arrepiante que não resisti à tentação de ler o que tinha lá escrito: “Reginaldo…carregou esta cruz às costas, de promessa até  à Aparecida do Norte se o Brasil ganhasse a copa do mundo”.
         Hoje, detenho-me por aqui. Sem comentários, que poderão ficar para outra oportunidade. Apenas, fico  amarrado  comigo mesmo a interpelar-me sobre a fé, tal como é servida aos crentes. Os episódios verídicos supra-enunciados  trazem-me à memória aquela famosa  apóstrofe  de Luís Vaz de Camões, “Lusíadas”, Canto V, estância 22:

“Vejam agora os sábios na escritura
Que segredos são estes da Natura”-

Que longo caminho a percorrer na descoberta da Verdade,  mais longo e doloroso que todas as caminhadas a todos os santuários de Fátima!

13.Maio.2015
Martins Júnior