sexta-feira, 15 de maio de 2015

SE QUISERES, TU ÉS O MILAGRE VIVO!


Ampliando a casuística descrita no nosso último encontro, 13 de Maio, chegamos à conclusão de que nunca, como em tempos de crise, se propagam tanto os incêndios míticos na mente dos indivíduos e, com maior pendência, para os desdobramentos psíquicos centrados na aura das religiões. É ver a corrida às igrejas, aos santuários, ao sortilégio das velas. Há também quem prefira o recurso às magias, brancas ou negras, aos talismãs e polivalentes amuletos. E muitos, até, sem estrutura anímica para suportar tamanhas depressões, desaguam na baía dos suicidas, o seu nirvana consolador.
Tem toda a lógica   Karen Horney   , ao titular a sua obra mais impressiva, definindo-a como “A Personalidade neurótica do nosso tempo”. A mais cómoda fuga aos problemas que comprimem os indivíduos é aquela em que a grande multidão se refugia: a Fé.
E é uma descoberta de indizível sabor intelectual verificar as mais contraditórias derivas que um mesmo facto é capaz de produzir. Exemplifico: a menina-deusa que no Nepal viu o seu templo de pé no meio dos horrorosos escombros à sua volta, apostrofava: “Os deuses ofendidos pelos homens descarregaram sua ira no terramoto que matou quase 10.000 nepaleses”. Na Madeira, em 2010, a maior catástrofe do século XX deu-se precisamente quando a Imagem da Virgem Peregrina estava entre nós em generosa visita. Para uns, a Imagem teve todo o fragor de um maléfico avatar. Para uma velhinha dos recônditos rurais, foi outra a interpretação: “Ai, se não fosse Nossa Senhora a Madeira ia toda por esse mar abaixo”.
Assim se fala, assim se reza, assim se explora, assim se ilude… em nome da Fé.
         Não vou teorizar sobre a Fé. O livro do meu amigo Padre José Luís Rodrigues ( O que a Fé não deve ser, 2013) é um excelente manual de iniciação a esta problemática. Recomendo-o.  Aproveito também a oportunidade para exprimir o meu respeito por todas as formas que os crentes sinceros entendem demonstrar a sua Fé. Mesmo que não esteja de acordo com essas práxis. Mas confrange-me ver a fragilidade humana misturar fés e superstições, preces e negociações, fazendo do “seu” Deus um vulgar comerciante --- “dou-te se me deres” --- e de Maria uma feirante de arraial…
Na enredada patologia dos nossos tempos, parece mais fácil endossar a Deus ou aos deuses aquilo que ao próprio homem se deve exigir. Não chamem Deus nem  Sua Mãe para aquilo  que não se lhes deve atribuir. É  ofensa redobrada.
A Fé começa no esforço que cada um faz por alcançar os horizontes possíveis. Não tem o direito de confiar em Deus aquele que não confia em si mesmo. Ou fazer por isso. A nossa fraqueza e o nosso comodismo são a força de muitos bruxos e de muitas religiões. Desde o século V,  prescreve-nos o pioneiro e dinâmico  “Pai da Europa”, São Bento: ”Ora et Labora”. E ainda: “Faz tudo, como se tudo dependesse de ti.  E, só depois, espera tudo, como se tudo dependesse de Deus”.
         E de mais longe vem o repto do Mestre a Pedro quando o mandou caminhar sobre as ondas. Pedro iniciou a marcha, depois começou a duvidar e afundou-se. “Porque duvidaste, Pedro?”
Ao avistar as mais originais e multiformes expressões dos crentes nos santuários, apetece-me segredar a quem o queira aceitar:
Confiar em si mesmo, enfrentar os obstáculos, navegar captando a força motriz dos ventos adversos: eis, em minha opinião, a maior fé e a maior homenagem ao Todo Criador!

15.Maio.2015

Martins Júnior