segunda-feira, 22 de junho de 2015

46 ANOS - I PARTE

     


      Ainda não havia o “Dia Ímpar” e este, sendo par, já lá estava de pé, à minha  espera. Cada um de nós tem sempre um  Dia Ímpar na curva da sua estrada.
         Era um domingo estival nascente,  9 da manhã, 22 de Junho, já lá vão 46 anos. O rapaz, trintão caloiro, nos olhos o viço da primavera em trânsito, na testa o sol do verão moçambicano que pouco antes deixara nas plainas africanas da guerra colonial. Desceu a estreita vereda que o levou, a ele e aos aldeões que o esperavam, ao templo-garagem incrustado no fundo do barranco alto. Ao iniciar a primeira celebração, depressa  conheceu a tez do sofrimento escrito no rosto daquela gente. Mais tarde seguiu as pisadas de “Eurico, O Presbítero”, subiu  ao miradouro serrano e de lá olhou o vale em redor:  estábulos de colmo onde habitavam os seus novos “fregueses”. Nem um caminho nem uma estrada. Água, só a das levadas. À noite, nem vivalma de uma lâmpada que exorcizasse a escuridão. De regresso a casa, caíu em si e caíram-se-lhe os braços sobre a mesa de pinho: “Afinal, vim de uma África para outra África”…
         Podia começar assim uma espécie de romance popular em prosa. E, tal como todos os romances, seria um nunca mais acabar.
Passemos aos factos.
         A Ribeira Seca era, ao tempo, um feudo de senhorios. Desde o fundo dos ribeiros até ao “poínho” da serra. Os camponeses, isolados no alcantilado dos montes, lavravam terras que não eram suas. Dividiam a meias com o olheiro-feitor do longínquo senhorio os frutos de uma canseira, de sol-a-sol. Deles, dos camponeses, só os filhos, a prole, a riqueza dos proletários. Sob uma aparente reverência, era o medo que lhes apertava o peito e os fazia curvar, de barrete na mão, à passagem dos senhores da vila.  
         Mas a revolta estava lá,  transfundida no sangue de pais e avós, tal como as grandes tempestades sub-oceânicas que depois rebentam à superfície. E foi o que se passou. Antes e, sobretudo, após o “25 de Abril” de 1974. Numa palavra, o Povo libertou-se.
         E aí começou a saga das suas vitórias, do tamanho e à medida das pancadas com que as pagou e continua a pagar: os atentados armados das forças governamentais contra a sua igreja, as retaliações contra o seu Povo, o ostracismo da Igreja Diocesana e o tratamento discriminatório de uma comunicação social, subreptícia ou claramente alinhada com os poderes reinantes. Mas continua de pé! “De pé firme e confiante, o caminho é p'ra diante”, assim continua a cantar-se na Ribeira Seca.

 *** Os velhos senhorios do regime fascista, massacradores implacáveis  de gerações e gerações  de “servos   da gleba”, caíram com a Revolução dos Cravos   

*** O ditador-mór da Madeira, que conspurcou  tantas e repetidas vezes o nome da Ribeira Seca e as suas gentes, também foi derrubado do trono ultra-autonómico.

***  O bispo F. Santana, que proibiu o fornecimento das hóstias da Eucaristia aos cristãos da Ribeira Seca, já está no “mundo da Verdade”, lá para onde todos caminhamos.

***  O bispo T. Faria que ordenou, em conluio com o governo, o assalto (hoje, diríamos, talibã) de 70 polícias à igreja da Ribeira Seca, também já foi desarmado do báculo e da   mitra pontificais, ficou-lhe para sempre a satânica blasfémia de   ter comparado a Jesus Cristo na cruz um pederasta, padre, seu secretário particular, condenado a 17 anos de cadeia e, depois, evadido da prisão.

***  O bispo A. Carrilho, que proibiu a entrada da Imagem Peregrina no adro e na igreja da Ribeira Seca, aí está para confirmar a subserviência da diocese ao poder político, aguardando o fim de mandato, já próximo, como inquilino do Paço Episcopal. Levará consigo no baú as muitas cartas que recebeu da comunidade da Ribeira Seca, sem nunca  ter respondido a nenhuma delas.

      Mas a Ribeira Seca continua a sua marcha : viva, livre, tranquila e feliz. Aquele templo e aquele recanto na periferia da cidade ali estão para atestar que a Instituição hierárquico-monárquica da Igreja não está com Cristo E que quanto mais longe estivermos da Instituição mais perto estaremos  d’Ele.
       Ribeira Seca existe para demonstrar que a “A IGREJA É DO POVO E O POVO É DE DEUS”, como canta no CD, cuja mensagem a comunicação social capciosamente escondeu, aquando dos 500 anos da diocese.
    Ribeira Seca permanece para demonstrar que os bispos de cá não têm fé no sacramento do Crisma, pois há 40 anos recusam-se a ir dá-lo a uma igreja do Povo cristão. Ali está para provar que na Madeira a Igreja deixou de ser sacramento da salvação: as pessoas já interiorizaram que não precisam do bispo para se salvar. Quem nos salva é Deus e a nossa consciência, eis o código da sua fé.
       Ribeira Seca permanece como aquela exemplar personagem do Journal d’un curé de campagne (“Diário de um pároco de aldeia”) de George Bernanos: “Nela, a bondosa senhora, reflectia-se, como que em contra-luz, toda a maldade do mundo à sua volta”.
     Ribeira Seca também  está ali para que o mundo saiba a fealdade e a tacanhez “islâmica” de uma Igreja egoísta, rancorosa, incorrigível na sua hipócrita  ilusão de poder, quando nomeia sucessivos párocos para aquela igreja e onde nunca puseram o pé. Ribeira Seca existe para que se veja a arrogância de quem, servindo-se do mito e do obscurantismo religioso, ainda chama seu um prédio para o qual em nada contribuiu e uma igreja que abandonou há mais de 40 anos, comportamento este previsto e punido pela lei humana do usucapião. O cônjuge que abandona a casa perder-lhe o direito.
    A Ribeira Seca existe para que um dia lhe seja feita Justiça. Para que a irresponsabilidade de uma Igreja diocesana, cobardemente engenlhada sob o guarda-chuva do poder, acorde para a vida e veja os prejuízos irreparáveis que deixou pelo caminho. Foram precisos 500 anos para que a Igreja fizesse justiça a Joana d’Arc e revogasse a sentença do bispo inquisitorial Cauchon (que a condenou à fogueira) e a reconhecesse como santa libertadora dos franceses e sua patrona oficial. Esperemos que não seja tão longa a ditadura eclesiástica.
         Mas a Ribeira Seca não tem apenas 46 anos. É tricentenária. Desde 1692, data da construção da velha ermida por Francisco Dias Franco, capitão-secretário do Município de Machico, desde então já talhava nos  socalcos e veredas o monumento da sua história. E antes, muito antes, Já nos primórdios da colonização, o italiano  Diogo da Nóia,  negociante do ramo da tinturaria,  enriquecia o tesouro do Rei com um terço do  pastel extraído dos muitos tintureiros ali existente,  produto precioso que exportava para o estrangeiro.
        Mas em toda a história   há um Antes e  Depois. Durante séculos, a Ribeira Seca viveu sob o Velho Testamento da escravidão. Há quase meio século, despertou para o Novo Testamento da Liberdade.
      Embora muito mais haja por abrir na cortina do Tempo, fico-me hoje por este relato breve de um Povo que abraçou os cravos da Vida e deles fez a bandeira que flutua no verde da paisagem e no rubro dos corações.
         Deixo para amanhã, os contornos pessoais destes 22 de Junho de 1969, respondendo directamente à pergunta em epígrafe: “46 anos --- Porquê?”

21-22.Jun.2015

Martins Júnior