terça-feira, 23 de junho de 2015

46 ANOS – O PROCESSO INACABADO II PARTE


Antes de completar  a razão de ter escolhido ontem a capicua “22”  para  meu  “Dia Ímpar”, devo confessar que não esperava tamanha receptividade àquela mensagem por parte de amigos e amigas  de dentro e de fora, inclusive do estrangeiro. É esse o objectivo nobre das redes comunicacionais: compartilharmos com os outros e, em troca, que os outros compartilhem connosco. E mesmo quanto às saudações endereçadas para mim, quero definir, sem sombra de modéstia, que elas só fazem sentido enquanto me assumo como sócio de uma colectividade, designadamente a Ribeira Seca.
Mas, precisamente neste particular, falta um esclarecimento essencial: “Porquê 46 anos? No mesmo lugar? E tanto tempo? Que interesses estarás tu a defender? Dinheiro? Poder? Palco? Orgulho? --- terão todo o direito a indagar, sejam os de fora, os de dentro, os estranhos, sejam os cépticos, os críticos.
Sei da veleidade e do ridículo que significa a quem quer que seja falar de si mesmo. Mas hoje impõe-se. Até para desvanecer dúvidas ou aleives de quem, ingenuamente ou malevolamente, pretenda equiparar o caso em apreço à sepulta longevidade de certos políticos fora-de-prazo.
Sintetizo este dever cívico em três item’s:
1º -  Porque sempre me repugnou a tremenda ambição de clérigos que, após a ordenação, renegaram a classe de onde vieram, passando de filhos de proletários a “príncipes da Igreja” e candidatos à passadeira vermelha dos que exploraram os seus próprios pais e avós.  Sempre  pertenci aos que habitaram os subterrâneos da opressão e da repressão e, como tal, achei indigno, em nome de uma vocação crística, ascender ao fastígio mundano dos hodiernos comparsas do assassinato do J:Cristo. Foi uma opção de vida. E mesmo quando me foi proposta a tribuna parlamentar, aceitei-a para puxar para cima os incontáveis “mineiros anónimos”, sofridos e amordaçados, com cujo estatuto   quero identificar-me até à morte. Dou graças por me terem enviado para o mesmo sub-mundo, onde a dureza dos trabalhadores do campo se cruza com a rudeza dos  trabalhadores do mar.

2º - E como toda a lógica tem seu rumo marcado, a militância também tem a sua inesgotável consequência. Era preciso escutar o bater da alma dos que, dobrados sobre a terra, eram os “sem-terra” e tendo ganas na garganta, eram os sem-voz no céu da boca. Pregava-se do alto dos púlpitos  o lucro no além-túmulo com a paciência e a resignação neste mundo. Mas --- sentindo subir dentro do peito a chama de Vinícius de Morais “Um dia, o operário disse: Não!” ---  também aqui o “NÂO” foi estremecedor. Ao ponto de se virarem contra a Ribeira Seca as cegas baionetas do Funchal e os torturantes chicotes do templo episcopal.  Alguns episódios breves dessa guerrilha institucional já ficaram na I PARTE editada ontem. Aprendemos então que a fraqueza dos pequenos é a força dos grandes. E quando os pequenos formam maioria invertem-se os factores. À ofensiva sem tréguas dos poderes inimigos (são mesmo inimigos da condição humana!) é preciso responder com a firmeza sem tréguas dos humilhados e ofendidos. Até que saiam derrotados e avisados a não repetir os mesmos ataques. Foi esta a história da Ribeira Seca! Aqui, a ditadura política e a inquisição eclesiástica fugiram, cobertas de vergonha sem retorno. Valeu a pena resistir. Como é possível permitir que a Verdade seja sempre esmagada pela mentira?... Por que razão só há mártires (vítimas) entre os que procuram a luz e não os há nos semeadores das trevas? Basta de vitórias “morais”, porque fictícias. Tem de haver vitórias efectivas da Verdade e do Bem! Regozijo-me de ter sido um soldado básico nesta luta. O Povo é que esteve na vanguarda. Sempre!

3º - Há mais de quarenta anos, prisioneiro (voluntário!) da periferia canónica, aguardo pacientemente aquilo que tantas vezes, por escrito e por palavra, formulei aos bispos madeirenses do pós-25 de Abril, com redobrada insistência ao actual titular da diocese: Que abra o processo de julgamento da minha suspensão “a divinis!!!” Não querem fazê-lo. Preferiram em surdina pedir ao governo regional para processar-me em tribunal, mas perderam, já em 2008. Tenho dito e redito: A Justiça de Deus (dando de barato que seja a justiça da Igreja) não pode ser menos perfeita que a justiça dos homens, isto é, respeitando o direito ao contraditório. Nunca fui ouvido nem achado em processo do foro eclesiástico. Abram o processo: se ganhar, ganhei; se perder, perdi. Tenho muito que contar… Se possível, antes de partir definitivamente para o Além. Santo Agostinho definia a Igreja-Instituição como casta meretrix”, prostituta casta, prostituta fina. É um Santo, Bispo e Doutor da Igreja, quem o disse, no século V. Que diria ele hoje desta Igreja-Instituição madeirense, contra-testemunho da liberdade e da transparência evangélicas?
Imagino que ressalta da mente de muita gente de boa-fé a matéria de acusação: “É porque foste político, deputado, presidente de Câmara”. Dêem-me licença que explique, primeiro, com um argumento ex absurdo: O Vigário Geral da Dioceses, meu professor no Seminário, Padre Dr. Agostinho Gonçalves Gomes, foi deputado à Assembleia Nacional pelo partido de Salazar, juntamente com o Dr. Agostinho Cardoso, presidente-delegado da União Nacional na Madeira. E não foi suspenso “a divinis”. E agora pergunto, como lho perguntei face a face: “Por que é o senhor padre pôde ser deputado pelo fascismo e eu não poderei sê-lo pela Democracia?”
         Segundo esclarecimento: eu só optei pelo serviço público na Assembleia Regional da Madeira, sempre como independente, depois que o bispo F. Santana me suspendeu, sem processo formado, repito. Mas, ainda que fosse esse o entendimento do julgador, já estou fora de toda a actividade política há oito anos, desde 2007. Quid juris ?...Agora questiono eu os doutores em cânones, os juristas.
Mas que overdose (desculpem o estrangeirismo) ofereci hoje a quem me endereçou parabéns! É verdade, mas 21-22-23 de junho perfazem para mim a tríade perfeita do meu “Dia Ímpar”. E posso garantir-vos que isto é apenas a ponta do véu que nunca me deixariam abrir na Madeira se não fosse a portentosa invenção das redes sociais. Fá-lo-ei um dia em formato mais alargado.
Para fechar, a minha incomensurável gratidão ao Povo da Ribeira Seca. Foi ele o obreiro destes 46 anos continuados. E, para mim, felicíssimos. Lembro-me de tantos colegas, eruditos e exemplares sacerdotes, perseguidos pela Igreja diocesana e, daí, malsinados pelo governo, que não aguentaram a tormenta. Vi-os partir e desistir, com grande mágoa minha. Não tiveram o Povo que eu tive.
Agradeço a todos os ilustres sacerdotes madeirenses que tiveram a nobilíssima ousadia de vir oficiar e falar à comunidade da Ribeira Seca. Entre outros: O saudoso humanista, meu professor de literatura, Pe. Alfredo Vieira de Freitas, o cientista botânico Pe. Manuel de Nóbrega, o poliglota Pe. Rafael Andrade e, mais perto de nós, os monumentais arautos do Evangelho,  Pe. Mário Tavares e José Luís Rodrigues. De Portugal Continental, o abraço desta comunidade para os teólogos Frei Bento Domingues e Pe. Prof.  Anselmo Borges, o presidente de Rede Europeia contra a Pobreza, Pe. Jardim Moreira, o missionário redentorista Pe. Henri Leboursicaud, o pregador Pe. Manuel Couto e o Prof. Pe. Armando Marques, estes dois últimos colegas de curso do actual bispo do Funchal.  Chamei de “nobilíssima” a sua ousadia, porque a Diocese ameaçava suspender “a divinis” todo e qualquer sacerdote que fosse à igreja da Ribeira Seca.
Para atenuar o cansaço dos que tiveram a paciência de acompanhar-me até ao fim desta II PARTE, reproduzo aquela primorosa saudação de um dos últimos sacerdotes, que acabei de citar, ao seu colega Carrilho: “António, vim à Madeira e não te pedi licença para falar ao Povo de Deus da igreja da Ribeira Seca”. E, apontando para o brasão episcopal desenhado em azulejo na parede exterior do Paço, rematou: “Vim aqui cumprir o que tens ali escrito: Caritas Christi urget nos. “A amor de  Cristo chama-nos, com urgência” (S. Paulo).
Reiterando o meu pedido de desculpa, cito a perífrase daquele amigo que escreveu ao outro uma longa, longa, longa carta: “Desculpa, porque não tive tempo de fazê-la mais curta”.
E garanto nunca mais voltar ao assunto neste “blog”, por muitos que venham a ser os “46 anos” do Ímpar Dia 22 de Junho.

23.Jun.2015

Martins Júnior