segunda-feira, 1 de junho de 2015

DE 19 ANOS --- UMA MULHER DE ARMAS!


Pegou moda o “Je suis Charlie”, mas por mim dispenso-o e não me sai crânio e dos nervos, sobretudo de 30 para 31 de maio, um outro refrão, bem mais alto e interminável: “Je suis d’Arc”. Porque ainda pairam no ar que respiramos as labaredas de há 584 anos, nessa lúgubre noite de Rouen quando amarraram a uma pilha de lenha aquela rapariga de 19 anos de idade, enquanto em redor  padres da Inquisição rezavam ofícios por sua alma. Ela era, ela é e sempre será viva e incandescente para a memória sem termo: Joana d’Arc.
Dia grande em França para comemorar a sua patrona, a reconquistadora da soberania francesa contra as investidas açambarcadoras da  Inglaterra na conhecida  “Guerra dos Cem Anos”. Dia Grande para a França. Dia Memorável para a Humanidade: uma jovem camponesa, vendo a sua pátria e a sua família acossadas pelos ingleses, quando tudo parecia perdido, apresenta-se ao príncipe Carlos VII e faz-lhe um apelo veemente, tal como Moisés no antigo Egipto:  Deus manda-me libertar o meu Povo! Indeciso, depois descrente dela e ainda depois confiante na forma e no fundo do apelo rapariga de Orléans, entrega-lhe  espada, armadura  e o comando do exército francês nessa ingente campanha fatal. E ei-la que surge na vanguarda de milhares de homens contra as hostes inglesas, comandante valorosa, montada a cavalo, trajando armadura de guerreiro,  mais que o Mestre de Avis e mais que o nosso Condestável Álvares Pereira, escorraça os invasores britânicos e faz coroar o dito Carlos VII, solenemente, na catedral de Reims, como o único e verdadeiro Rei de França, em1429. Dois anos depois, é queimada viva  na praça do Vieux-Marché da cidade de Rouen.
Como foi possível consumar-se no corpo desta jovem de 19 anos a sina maldita a que são condenados os libertadores da pátria, da ciência, da cidadania e da dignidade humana?... E quem a condenou a tão atroz suplício?
A história, particularmente com a investigação do douto mestre Jules Michelet,  no-lo explica, bem como os 22.000 documentos arquivados na Biblioteca de Orléans. E sobriamente aqui se reproduz o trágico  testemunho: era o tempo da Inquisição e o bispo presidente do “Santo Tribunal” pertencia à nobreza dos de Borgonha aliados da coroa britânica. Foram estes que, por meio de uma cilada ignóbil, entregaram Jeanne d’Arc ao referido  bispo Cauchon, o qual, sob a falsa acusação de bruxa e visionária, lavra, com o prazer sádico da religiosidade, a pena máxima: a fogueira! Não se sabe se fazia lua nessa noite, mas pode bem imaginar-se o mesmo tétrico espectáculo do enforcamento do general Gomes Freire de Andrade em S. Julião da Barra, magistralmente plasmado na peça “Felizmente há luar”, do saudoso Sttau Monteiro. Mais eloquentes ainda  Artur Honegger e  Paul Claudel no imortal oratório “Jeanne d’Arc au bûcher” (Joana d’Arc na fogueira”)!
E depois, como reagiu a Hierarquia da Igreja, auto-cognominada de Cristo? Vinte anos mais tarde, o papa Calisto III mandou rever o processo, detectou a injustiça do mesmo e ordenou a reparação do crime perpetrado pelo facínora bispo Cauchon.  Mas… só 500 anos depois, Pio XII proclamou-a santa e padroeira de França, em 1920.  Cinco séculos para reparar tamanha crueldade!
Para quem ainda tenha dúvidas sobre o passado negro da Igreja Vaticana, em nada dissonante  do actual Estado Islâmico (matavam-se inocentes sob a farsa da religião) as 24 horas de 30 para 31 de maio de 1431 e os 500 anos para  repor  a justiça e a verdade dos factos, fazem-nos tremer! Razão tem o Papa Francisco para limpar a podridão hereditária da Cúria Romana e muitos dos seus serventuários bispos e cardeais, disseminados pelo planeta,  da raça de Cauchon (por aproximação fonética “cochon”, ou “porco”, em tradução portuguesa).
É dia de beijar as cinzas da jovem de Orléans  que os ventos da História trouxeram até nós, ao arquipélago que habitamos. A Joana d’Arc poderá com todo clamor atribuir-se-lhe a épica homenagem de uma sua ancestral figura bíblica,  Judit, que arriscou a vida para libertar a sua gente sitiada pelo general Holofernes: “Tu és a glória de Jerusalém. Tu és a honra do nosso Povo”!
Falei em homenagem a Joana d’Arc. Mas a maior homenagem é a convicção de um Povo, persistentemente  vigilante e interventivo,  para não permitir que se queimem em chama brava ou em lume brando aqueles e aquelas  que sonham e fazem um mundo melhor  onde todos possam respirar sem medo das fogueiras dos poderosos!
Termino com a transcrição do pensamento de Bertolt Brecht citado, tão oportunamente, pelo recém-criado semanário francês, Le 1: “Felizews os povos que não precisam de ter heróis”. Por mais paradoxal que pareça esta análise do grande dramaturgo, é nela que está o pulsar justo e harmónico do organismo social: cada um de nós terá de ser esse herói anónimo na correnteza dos dias felizes.

 31.Maio/1 de junho 2015
       Martins Júnior
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N.B. - A CEFISA-RS ( Comissão  da Ribeira Seca) editou um CD intitulado “A Igreja é do Povo/O Povo é de Deus”, de onde consta a síntese do que foi dito acima. Colocá-la-emos amanhã no facebook desta comunidade.