quinta-feira, 11 de junho de 2015

DIA DE PORTUGAL QUE NÃO FOI DOS PORTUGUESES

As solenes datas oficiais são como estátuas jacentes. “Estão prá  ali!”, dizem os transeuntes: insensíveis, mudas, olheiras sem brilho, quanto mais vetustas e lodosas melhor. Na sua base poderia escrever-se: “Aqui jaz 1385…Aqui jaz 1640…Aqui jaz o 10 de junho de 1580”… De vez em quanto servem  para pombos e gaivotas ali montarem o seu trono real e delas fazer o que Maomé não fez ao toucinho.
Foi assim o glorioso Dia de Portugal. Em Lamego, no Funchal e outros lugarejos. Muitos turistas estrangeiros e poucos madeirenses, informava em directo o locutor de serviço. Um Portugal mudo, amarrado ao mastro, tão lodoso e incerto, por onde filhos seus vão escorregando num limbo de mágoas curtidas cá dentro, os jovens lá fora, os velhos encostados a um canto, perguntando aos dedos se a mísera reforma chega para pagar à farmácia. Sem ganas nem forças de cantar o “Esplendor” de outrora.
No entanto --- para ironia amarga e para revolta latente --- o Portugal empalidecido  veste-se de gala, farda e gravata, clarim metálico descido à terra e marcha contra canhões. Porque fazem do povo carne de canhão, o povo foge e deixa-os, como gaivotas de arribação, no palanque do Fala-Só, piando charadas e berlengas sem tradução para o povo. Por isso, o povo deserta, porque esse ´não é o seu Dia, é a Hora deles, dos amos e comensais. Então, “O Inteligente” (estou a lembrar-me de Fernando Tordo e Ary dos Santos) completa a farsa, entaramelando umas coisas como esperança e optimismo mas com uma máscara tal de mini-adamastor que mais parecia o semeador de maus agoiros.
Depois veio  o desenterro das cruzes e das medalhas,  com cheiro a naftalina. A poucos meses de deixar a casa de 10 anos, o inquilino teve de esvaziar o baú dos tesourinhos que ficaram e até foi buscar o último retalho ao fundo do guarda-fato de D. Maria  para  dá-lo ao estilista da primeira-dama. Poderia inventar mais um ou dois para oferecer ao “menino” Jesus, ganhador  do campeonato,  e ao roupeiro do Gil Vicente que tanto suou e desceu de divisão…
Com o devido respeito para o mérito de quem as aceitou, manda a experiência desvendar o que pretende o generoso doador:  à cabeça de todo este aparato cerimonioso está o puro  exibicionismo do juiz supremo e supremo benfeitor das lapelas ilustres. É também o cinismo estratégico de quem quer dar a terceiros a bofetada de luva negra com a mesma mão que enlaça o cordão ao pescoço do medalhado. E aqui na ilha das rosas, os caloiros governantes não fazem por menos no 1 de Julho, a Hora deles, que não o Dia dos madeirenses.
Poder-me-ão censurar o estilo verrinoso deste escrito. Mas outra coisa não faço senão traduzir em palavras o desprezo e o repúdio do povo por ver-se manipulado por aqueles que montam em cima da pátria para espalhar perdigotos político-partidários a favor de uns, num dia que deveria ser de todos. E ainda por cima, sem direito ao contraditório.
Nada mais ofensivo  que as condecorações, sobretudo quando o anfitrião pretende limpar a cara com que  enxovalhou, cuspiu, retalhou aquele que  hipocritamente vem agora homenagear. Bem fizeram Zeca Afonso, Herberto Helder e outros heróis que se recusaram a tão degradante humilhação!  
Faço aqui o meu registo de interesses, para justificar-me de não ter feito o mesmo, quando o então Presidente da República, Dr. Mário Soares (já lá vão 21 anos) me concedeu comenda em 10 de junho, na cidade do Porto. Recebi-a, não como o falacioso golpe de misericórdia em fim de linha, mas no aceso da luta contra a bárbara ditadura político-financeira que a governação regional moveu  ao Município de Machico, então sob a minha presidência. Os lutadores querem apoio é no campo e na hora da luta.
A propósito de condecorações e sem referir-me aos galardoados (estaria eu no mesmo saco), apraz-me terminar com aquele rasgo de eloquência do sermão do  Padre António Vieira na Capela Real de Santo António de Lisboa perante o Rei e os brasonados da corte: “Antigamente eram os ladrões que pendiam do alto das cruzes. Hoje, são as cruzes que pendem do peito dos ladrões”.
Foi a guia-de-marcha  para o exílio no Nordeste Brasileiro!
Mas a ironia ficou. E o “antecipado grito do Ipiranga”  no coração do Império!
Queremos um Dia de Portugal, mas que seja o Dia do Povo --- nos parlamentos, nas praças públicas,, nos tribunais, no conselho de ministros, nas empresas, nos hospitais. Todos os dias, Dia de Portugal!

11.Jun.2015

Martins Júnior