quinta-feira, 25 de junho de 2015

O QUE ME DISSE O CAMINHO DESCENDENTE DO “BARREIRO DA QUEIMADA”

Considerem,  se assim acharem, um passatempo esta minha digressão pedonal que começa  nos miradouros do alto da antiga Matur, Água de Pena, debruçados como varandas de sonho sobre o majestoso vale de Machico. Mas é da leveza do olhar que brota a profundeza do pensamento, como da paisagem singela emergem as mais ímpares  sensações.
Aproveitei o fim-de-tarde de ontem, após a comemoração do 479º  aniversário da freguesia de Água de Pena , para fazer a caminhada diária. Alcancei os miradouros e bem me apetecia ali ficar  perdido no vasto horizonte que abarcava a osmose perfeita entre o azulado e o lilás que definiam a silhueta das Ilhas Desertas e até do Porto Santo
Ali, onde o homem se sente o vértice da criação, o protótipo real do universo!  Ali, onde os nossos braços se abrem e parecem tocar as duas possantes muralhas do vale, ombro a ombro com os picos altaneiros. Lá ao fundo, o insignificante formigueiro dos telhados, dos carros-caixa de  fósforos e dos anões figurantes num rodopio de peões errantes.
Mas era preciso prosseguir viagem e fui descendo os carreiros ziguezaguantes  do velho “caminho do Rei” que há sessenta e setenta anos trepávamos em fuga  para jogar à bola no “Barreiro da Queimada”,  o local onde mais tarde viria a nascer a grande Complexo Turístico da Matur  Grão-Pará.  Para descer,  levei o triplo do tempo que nós, miúdos da escola, levávamos a subir, nessa época.
Mas  era  outro o olhar. Em cada passo, em cada curva , a ordem era “parar” e ver   que as coisas-perto, afinal,  tornavam-se longe e as coisas-longe faziam-se  perto. Após meia dúzia de voltinhas, estaquei e vi que os altos montes já não os abraçava, como no varandim do miradouro, e o breu da via-rápida , lá em baixo, era mais que um risco a tinta-da-china, Vi que o mar já não era distante, tinha subido de nível e o ar já prenunciava o afago da maresia do “calhau”.  Aí entrou em mim o espírito sadino de Sebastião da Gama quando escreveu: “O poeta em tudo se demora”.
Chegado ao sopé do promontório da Queimada, dei a última passada no “caminho do Rei” e já estava eu possuído pelo vaivém das viaturas rolantes, cuidado com as passadeiras alvi-negras, as  casas franqueavam largamente  as portas aos residentes, as saudações dos transeuntes tomavam conta das emoções, os restaurantes semi-iluminados traziam o tilintar da hora de jantar. E, no meio desta mini-arena do comum quotidiano, como lembrar-me  das montanhas?  Onde  estava o sortilégio da paisagem?  Para onde fugira a ampla e reconfortante respiração de quem “em tudo se demora”?... Afinal, a vida era esta, não a outra. Afinal, toda a poesia  se tinha alterado, senão mesmo desmoronado.
Tanto tempo, página e meia, para chegar à mais conclusiva evidência: o mundo, a vida, aquilo a que chamamos realidade, depende tudo do local onde nos posicionamos para podermos observá-lo. Consoante o chão onde colocamos o tripé da nossa objectiva, daí surge a nossa visão do mundo, das pessoas, dos acontecimentos. Daí se estrutura a nossa filosofia de vida, a visão sociológica captada pelo particularismo da situação que escolhemos ou fomos forçados a ocupar. E daí, também,  as contradições, os interesses conflituantes.
Isto, que não passa de uma verdade à Lapalisse,  bateu-me em cheio quando abri o El Mundo e deparo-me com uma bonita jovem jornalista do mesmo periódico,  cabeça envolta na característica mantilha, logo em 1º página: “Por que razão me questionam por ter abraçado esta fé?  O Islão não é o véu nem o Estado Islâmico nem nenhum terrorismo”. Onde assentou Amanda Figueras a sua objectiva  serena e convictamente contraditar a amostragem que todos dias nos aparece em casa nos écrans tintos de sangue?
Alguém viu, uma noite destas,  o arrepiante documentário sobre a indústria de curtumes no Bangladesh?  O realizador prevenia, lodo à entrada: “É para nós, europeus, vermos quanto sofrem os nativos para termos mais barato o calçado, as malas, os casacos”!  Rios contaminados, homens, mulheres e crianças enfiando pelos nossos olhos dentro o raquitismo e a imundície de vidas tão efémeras. Gente como nós.   De um lado, o preço barato, o lucro do empresário.  Do outro, a degradação humana. Onde colocaremos  as pupilas do nosso olhar?
Entremos num  arsenal de  armamento de guerra. De um lado, a produção de “riqueza”, milhares de postos de trabalho,  técnicos, criativos. Do outro, a destruição, o genocídio. Quem decide?  Em que ponto enviesado da encosta  estará o nosso observatório?
Aquela casa, comprimida num apartamento da cidade ou perdida na aldeia velha, alberga um casal, recebido segundo  o sagrado rito da Santa Madre Igreja, ajuramentado com o signo da fidelidade e da unidade  “até que a   morte os separe”.. Mas naquelas quatro paredes é a violência que impera e destrói mulher, marido, filhos, móveis, etc.. Que fazer? Que aconselhar? Onde colocar o microscópio? Na fidelidade mutuamente bombardeada, na unidade arrasada ou nos filhos, vítimas inocentes, afim de possibilitar a  separação entre os cônjuges?  O Papa Francisco pronunciou-se, há bem pouco tempo, pela segunda alternativa.
Seria um nunca mais acabar. O grande J:Cristo, que não sendo sociólogo “nem tinha biblioteca”, como nos informa o “Cântico Negro” de José Régio, prenunciou aos seus futuros mártires: “Há-de chegar um dia em que aqueles que vos matarem julgarão estar prestando um serviço a Deus”.
Com ou sem respostas às perguntas formuladas, é ponto assente que a sabedoria do julgador, como do eminente Salomão, consistirá em investigar qual o posto de observação garantidor da melhor equidade do juízo em causa. Peço aos pacientes topógrafos do nosso território  ensinem onde colocar o teodolito do meu olhar interior  para alcançar a tal visão holística do mundo, o mesmo que dizer da marcação menos incerta dos vários caminhos a percorrer nas encostas da vida.
Em que dão as voltinhas em ziguezague do velho “caminho do Rei” do “Barreiro da Queimada”

25.Jun.2015

Martins Júnior