segunda-feira, 29 de junho de 2015

PEDRO “POPULAR” --- OU O NOSSO AUTO-RETRATO

(Foto: Facebook da Câmara Municipal de Machico)

Ontem à noite foi a véspera:  alinhei e aplaudi as romarias, as da cidade de Machico, as outras e a nossa,  com a marcha original do  “ S. Pedro da Ribeira”, leia-se, Ribeira Seca. E as de Câmara de Lobos, da Ribeira Brava, da Póvoa de Varzim, enfim, de todos os cantos e ruelas, por onde os arcos e os balões soltavam foguetes de alegria em “louvor do S. Pedro”, mas que, feitas as contas, o destinatário eram os foliões e as respectivas claques.
Hoje, 29 de Junho, foi o dia de andar com o Simão Pedro, na sua casa, no “calhau” do mar de  Tiberíades, no meio da companha do barco onde foi arrais, nos caminhos da Palestina, no monte Tabor,  no Jardim das Oliveiras, até aos tribunais do Sinédrio e ao cadafalso da crucifixão. É sempre assim todos os anos: ando com ele. E foi aí que um dia descobri o fundamento de chamarem  a  Pedro  um dos “Santos Populares”. Enquanto a multidão acha-o popular pela folia da véspera, muito participada e divertida, descobri a extensão semântica do termo “Popularidade”.
Popular é tudo quanto ---  pessoas, paisagens, objectos, sensações --- se assemelha com o povo, que lhe está próximo, que se parece com ele. Ao passar o dia com Pedro, vi "claramente visto” que é ele o protótipo, o auto-retrato de cada parcela da identidade popular. Porque?
É vê-lo,, marinheiro rostudo, destemido no mar e frágil em terra,  operacional e indeciso, fogoso e tímido consoante a circunstância, enfim,  o coração sempre ao pé da boca, capaz do melhor e do pior. Ele é a personificação da bipolaridade estrutural que enforma a psicologia popular e domina a condição humana, na sua transparência e na sua transcendência: estátua de bronze e pés de barro.
É um estado de alma o que hoje vos trago: intimista  mas, ao mesmo tempo, propulsor de energias sempre cadentes e sempre renováveis.
No rasto das “Sandálias do Pescador”, encontramo-lo ao lado do Mestre, disposto a tudo para defendê-lO, ao ponto de puxar do navalhão de cortar atum e desancá-lo na orelha de um dos soldados que vinham  prendê-lO nessa fatídica noite de Quinta-Feira, que culminou no assassinato de Sexta-Feira. Mas --- Oh paradoxo deste estranho mix, corpo-espírito --- daí a poucas horas, quando Pedro, clandestinamente a aquecer-se junto à fogueira, entre os judeus,  nessa noite fria, foi interpelado por uma mulher:
--- Tu também és do grupo d’Ele
--- Não sou, não, mulher.
--- És sim, até já te vim com Ele.
--- Não sou, estou-te a dizer e digo quantas vezes quiseres.
--- Ah, já te descobri pelo sotaque da terra d’Ele: és galileu.
--- Juro-te, mulher, nem sequer conheço esse homem. Nunca O vi na vida.

Bastou que o Mestre saísse da audiência do tribunal, cruzou com Pedro. E este corou de vergonha: Três anos a conviver com Ele, escolhido para líder do grupo,  acérrimo defensor, capaz de dar a vida por Ele… e ali, diante de uma  judia anónima, borra-se de medo e comete a suprema traição que se pode fazer a um amigo: ”Nem sequer o conheço”!
O resto já o sabemos. Das muitas vezes que foi preso, açoitado e intimado a não falar mais do Mestre em público, ripostava: “Vou continuar a falar d’Ele”. Até que, finalmente sentenciado à pena máxima, pediu ao algoz  que o crucificasse,  mas de cabeça para baixo: “Não sou digno de morrer como o meu Mestre, porque O traí”.
Aí está Pedro, o espelho de cada um de nós!  Parecido connosco, que somos capazes do melhor e do pior. Quantas vezes, o medo de afrontar directamente a adversidade, o calculismo da nossa defesa individual, a preferência pelo nosso interesse, se transformam em cobardia perante uma circunstância fortuita!... Em Pedro, consubstanciou-se, “avant la letre”,  a constatação de Ortega y Gasset: “O homem é aquilo que é, mais a sua circunstância”.  Na política, nos negócios, na religião! No indivíduo e na sociedade!
Pedro --- tão perto de nós, tão igual a cada um de nós, tão gigante e tão pigmeu como a massa de que somos feitos. O nosso auto-retrato, o teu e o meu.
O importante é prosseguir viagem, reagir. E tornar cada vez mais renováveis as energias cadentes da alma popular. Como o “Homem do Leme”  na “Mensagem” de Fernando Pessoa . Como Pedro, o último e  mais popular dos santos deste Junho de verão nascente!
 Será  esta a marcha, esta  a canção que ele mais espera de nós, como refrão perene da euforia da véspera.

29.Jun.2015

Martins Júnior