sábado, 27 de junho de 2015

TSIPRAS E VAROUFAKIS: ESTOU COM ELES!

  
     Nas encruzilhadas da História como no circo  da humana espécie, há ventos oblíquos e há artífices tão estranhos e complexos que ficam para sempre com  a expressiva designação de “Sinal de Contradição”.  E, com sendo estranhos e complexos, são eles e elas  ---  nimbados pela auréola espinhosa da contradição ---  que marcam o rumo novo de uma nova era. Exemplo acabado é aquele em que o profético velho Simeão no Templo de Jerusalém fez estalar o coração daquela jovem-mãe: “Esta criança está posta no mundo para Sinal de Contradição, um rochedo inabalável, onde uns vão salvar-se e outros vão despedaçar-se”.
Encurtando a minha mensagem de hoje, quero referir-me à Grécia, tão exígua no tamanho, mas enorme na vanguarda do pensamento e da arte, que se constituiu a matriz civilizacional desta imensa e tão diferenciada Europa. Para uns, ela, a Grécia, não passa de  um apêndice  espúrio  a amputar, quanto antes, do corpo “cristão e ocidental”. Para outros, ela prenuncia e luta por uma Nova Ordem Europeia, uma outra interpretação do epifenómeno existencial, extensiva a toda a condição humana presente e futura, em que o termo “União” corresponda à sua riqueza semântica. Estes últimos  são os que a minoria cega do capital e das armas chama de românticos. Os primeiros são os profissionais da forca, estranguladores sem pingo d’alma, em  nada diversos dos degoladores islâmicos, fanáticos discípulos da Lei de Talião:  olho por olho, dente por dente.
Não sou letrado nesta matéria. Por isso mesmo recorro a Juan Ignacio Crespo ---  autor de Como acabar de una vez por todas com los mercados --- o qual afirma peremptoriamente: “”A dívida pública, na maior parte dos países, não se paga, renova-se”  E logo sugere a metodologia  adoptada nos finais do século XVIII quando Alexander Hamilton, Secretário  de G.Washington, se esforçou  em  unir os diversos Estados numa Confederação, o que só  conseguiu quando o “Tesouro Único” se encarregou das dívidas dos diferentes Estados. “Um exemplo que seguramente se atingirá, mas que está tardando na Europa”, acrescenta.
 Sejam quais forem os olhares --- contraditórios sempre --- sobre a nobre e pobre Grécia, quero hoje endereçar  um clamoroso Voto de Congratulação aos dois acérrimos combatentes contra o vil sistema do capitalismo selvagem que manipula e mata a economia sustentável dos povos. São eles Alexis Tsipras e Yanis Varoufakis, sejam lá de que partido forem. Eles incarnam o “alfa e o ómega” da alma helénica,   rediviva no século XXI. Em  Varoufakis espelha-se a fibra heróica do espírito de Esparta, austero e sem rodeios. Tsipras conjuga  plenamente a serena posse do espírito de Atenas, desinibido no traje e rico de olhar, onde a simpatia diplomática não contamina nem dissimula o ímpeto bélico de devolver ao seu povo a dignidade  perdida. Realizam, os dois, as linhas paralelas da concepção dialéctica da governação: um, o mal amado, Varoufakis;  o outro, Tsipras,  diplomaticamente, o bem amado. Mas ambos, confluentes no mesmo vértice  para defender, como o grande Ulisses, a honra da sua Penélope, o Povo Grego. Viagens, expectativas frustradas, reuniões de arrasar, insónias, incompreensões, manifestações, inimigos de dentro e de fora, enfim, uma luta desigual entre David e Golias, até à exaustão, mesmo que o destino seja morrer na praia. Mas, cuidem-se os armadores dos cruzeiros capitalistas, porque o naufrágio, se houver,  não ficará só pelas ilhas gregas. Tsipras e Varoufakis sabem muito bem que Lagarde’s e Draghi’s, Schaeuble´s  e  Juncker’s  não passam de secos funcionários, marionetes de feira,  às ordens  desse secreto  monstro chamado “Mercado”, antro de offshores, máfias e corrupções. E é, em grande angular, contra  o monstro que a Grécia luta, indicando o caminho para que se unam no mesmo feixe os “ofendidos e humilhados” do mundo inteiro.
Quão diversa e mísera é a  brigada de prematuros reumáticos que do sangue e das lágrimas do Povo Português fazem o ridículo verniz com que apertam  a mão e dobram-se em arco aos especuladores sem escrúpulo! Os governantes gregos lutam porfiadamente pelos compromissos assumidos nas eleições. Os nossos, traidores das promessas que fizeram quanto às pensões, abonos, subsídios de férias e natal, apresentam-se de consciência relaxada e empertigada, palheiros de aviário armados em pavões, entregando ao diabo corpos e almas que não lhes pertencem.
Dê no que der,  será sempre monumental e homérica a luta de Tsipras e Varoufakis. Estou com eles!

27.Jun.2015

Martins Júnior