quarta-feira, 17 de junho de 2015

UMA ESCOLA VÍTIMA DO ANALFABETISMO HISTÓRICO

Não esperava uma tarde e uma noite de tanta levadia neste viçoso mês do São João. E, pela mesma razão, não esperava tão cedo apontar o dedo  a uma jovem que navega ainda na onda azul de uma lua-de-mel em fim de prazo. Mas o certo é que, perante o caudal de telefonemas e preocupações que me bateram à porta, sou obrigado a perguntar de que laranja mágica (leia-se, cabeça do noneto governamental) surgiu a peregrina ideia de colocar nas mãos do Senhor Secretário da Educação uma granada de mão que, se for desencavilhada,  vai  estilhaçar no próprio, ferindo muita gente à sua volta, muitas famílias da ilha, sobretudo  da  Ribeira Seca, algumas delas no estrangeiro, que em emotivas mensagens SMS recordam ainda o quanto lhes custou a luta por uma escola condigna.
Quero relevar, antes de tudo o mais, a gentileza do Senhor Secretário que, sem pedido prévio de audiência, me recebeu no seu gabinete e, ele próprio, inicialmente  surpreendido com a notícia que circulava de boca em boca, desvendou-me o enigma: “Não vamos fechar escola nenhuma em Machico nem na Ribeira Seca”. Mas acrescentou: “O que vamos proceder é a uma fusão de turmas, as que têm poucos alunos transitarão para a Escola do centro da cidade, em transporte assegurado pela Câmara Municipal, ficando sempre de pé a escola da Ribeira Seca como anexo”.
Não vou terçar armas, como outrora, numa refrega que compete genuinamente aos pais e à comunidade escolar. Mas, com o aditamento, o enigma transformou-se em anátema:  as crianças serão mesmo  “transladadas para a vila”,  embora não se sabendo ainda se do 1º, 2º, 3º ou 4º anos. Propus também que, na reunião agendada para 6ª feira próxima com pais e encarregados de educação, estivesse presente o Senhor Secretário, e não, como está previsto, as directoras e a Câmara Municipal que acabam por ser o elo mais fraco. Prometido ficou que viriam dois dos seus assessores.
Da minha parte, como animador socio-cultural e religioso desta comunidade e testemunha do quanto significou aquela construção,  limito-me civicamente  (e fi-lo presencialmente ao titular da pasta) a estes quatro considerandos:
I – A escola da Ribeira Seca tem uma população escolar estimada  em 80 alunos. Está inserida num vasto aglomerado populacional, o maior após o do núcleo central. Manda a boa estratégia que se confira a envolvente escolar da zona rural e suburbana e só depois  levantar-se-á a grande incógnita: Porquê a Ribeira Seca?
II – Embora se saiba que a vida não é feita só de memórias, mas a verdade é que aquela escola é um ícone, um monumento das gentes da Ribeira Seca e não só. Vem de 1978 a luta porfiada de pais, professoras e até de catequistas para libertar as crianças do pardieiro velho onde os alunos mais pareciam prisioneiros forçados na sua própria terra: as manobras, as dilações, as promessas adiadas,  as ameaças, as pancadas, os aleives que o governo regional publicamente vociferava contra este Povo, desejoso de cultura para os  seus filhos. Mas ninguém desistiu: greves às aulas, comunicados, manifestações, até culminar com a ida das crianças ao prédio da Junta Geral, onde estava e está hoje instalada a Secretaria da Educação.   Mas no fim cantaram Vitória:  começou a construção da nova escola. Tudo o que a Ribeira Seca conseguiu foi a peso duro e a um alto preço  de resistência. Aquela escola ficou como  um “santuário” da  luta de há quatro décadas. Não admira, pois, a emoção revoltosa das pessoas perante a notícia.
III – É verdade que governar é gerir a economia. Mas não, nunca o resvalar para o economicismo!  E aqui ninguém pode esconder o argumento, a-olho-nu, que as pessoas repetem: “Há dinheiro para uma escola privada, ali mesmo defronte, e só não há para a continuidade das escola pública da Ribeira Seca?!”. À consideração de Vossas Excelências.
IV – Em tempos de requalificação positiva e de reforço da “Autonomia regional face ao centralismo  do rectângulo”, como compreender e admitir a absorção da autonomia funcional de uma escola modelar na massificação do centralismo urbano?  Respeitem os corpos directivos da Escola e não os desqualifiquem como serventes despromovidos. Que direito e que ousadia malsã  será essa  de substituir por um nome qualquer o prestigioso nome de “Escola da Ribeira Seca”! Eu sou daquele tempo em que o fascismo substituiu o Estádio dos Barreiros por Estádio Marcelo Caetano. Mas  bem depressa o tempo se encarregou de restituir “o pai à criança”, voltando ao original Estádio dos Barreiros. Meus senhores, acabem com essas “lamechices”, deixem ficar o nome da Escola da Ribeira Seca e restituam o nome de “Machico” ou “Francisco Álvares de Nóbrega” à Escola Principal. Sejam coerentes com a cultura e a educação, isto é, com a verdade histórica e não com infantilismos ultrapassados.
         Muitos e mais inflamados considerandos andam na boca da população que esta noite não dorme descansada. Deixo à atenção do Senhor Secretário da Tutela este meu acervo argumentativo --- e faço-o publicamente --- porque já lho apresentei, em síntese,  na audiência que fez o favor de me conceder. E pela verticalidade que  lhe conheço, desde o tempo do seu propósito   demissionária de Director Regional do Desporto face à prepotência do seu antecessor,  aguardo e aguarda a população da Ribeira Seca a apurada sensibilidade e a melhor aquiescência às legítimas expectativas da comunidade.
E enquanto não chegar o dia de repor a serena racionalidade neste diferendo, deixo o refrão da “Escola Nova”, inserto no CD “A Igreja é do Povo, o Povo é de Deus”, originário da Ribeira Seca:
                            Viva a Escola Nova que se alevantou
                        Parabéns ao Povo que foi quem lutou
                        Uma Escola Nova dá-nos alegria
                        O Pão da Cultura é uma Eucaristia

17.Jun.2015

Martins Júnior