sexta-feira, 3 de julho de 2015

AS CINZAS DO "REI" PASSEIAM-SE POR LISBOA

      
      Devo confessar que não esperava dedicar o qualitativo de  “Dia Ímpar” àquilo que o não é. E se o for, sê-lo-á pelos mais frágeis argumentos. Sei que corro o risco de, hoje por hoje, contrariar a identidade deste “Senso&Consenso”  pelo seu antónimo: “Senso&Contrassenso”. Isto, porque tudo quanto  vou dizer é tão válido como o seu contrário. Paradoxo. Mas certo. Tudo depende, como já o reconheci no dia 29 de Junho, da encosta ou do outeiro onde cada qual coloca a objectiva para  melhor interpretar a imagem envolvente.
         Falo do fastio que me causou essa requentada ementa que nos serviram as TV´s na longa tarde de hoje e que deu pelo pomposo nome de “Transladação de Eusébio da Silva Ferreira (ESF)para o Panteão Nacional.”. Foi tudo um formalismo seco, de gravatas polvilhadas, mais parecendo um “frete” sem retorno, a começar pelos próprios ocupantes da casa-mãe que deitou ao mundo o sobrenome de tão ditoso filho: a Assembleia da República, Dos 230 deputados que euforicamente aprovaram a proposta, só 50 é que puseram os pés, como almas penadas, envergonhadas, alguns até escondidos atrás das grossas colunas no cimo da monumental escadaria, lobrigando a “banda passar”, a trote de cavalaria rusticana.
        Só posso interpretar correctamente o caso, se ponderar numa das mãos a carga semântica do pódio chamado “Panteão” e na outra o peso estrutural dos felizes predestinados ao Olimpo dos Deuses.
    Adianta-se, desde logo, o argumento que ESF foi o “Rei” da monarquia futebolística. Mas por aí, até o agora Verde Jesus bem poderia, com o sua  ruiva juba, levar ao alto “os cinco violinos de Alvalade”, Jesus Correia, Vasques, Peyroteo, Travassos e Albano. Com maioria de razão, porque o valor colectivo destes heróis suplanta a distinção individualista de um só homem, que é o mesmo que um homem só.
       Depois, diz-se que ESF tornou Portugal conhecido no mundo. E eu pergunto: quais os valores substantivos e duráveis que daí verteram para o país? Também no mais primitivo tugúrio do mundo, seja na China, seja na Indonésia, o que de Portugal conhecem é o nosso Ronaldo. E que proventos navegam para cá, a não ser os magnatas asiáticos, exploradores de mão-se-obra miserável, vêm a galope rapar o melhor que temos, porque cheirou-lhes um governo que vende ao desbarato aquilo que não é seu, mas de todos os portugueses.
         Mais: ESF, dizem, deu imensas alegrias ao povo português. Se perguntarem aos vizinhos leões, aos devotos de Belém  ou aos tripeiros dragões, não sei mas adivinho que lhes terá dado o “Rei” com seus  assaltos de pantera negra: mais lágrimas que sorrisos.  E nisto de dar alegria, tem muito que se lhe diga. Há outras profissões (inclusive a mais velha do mundo) que por aí operam e  também divertem e aliviam corpos e almas, aos milhares…
         Poderia continuar neste arra-desarrazoado fado corrido, em que todos ralham e todos têm razão ou, pelo menos, as suas razões. Por este andar, o que é suposto prognosticar é que o dono do palacete terá de arranjar mais uns aposentos e reservá-los já para quantos ESF’s  e CR7’s este chão botar ao mundo.
      Finalmente, a coabitação de exemplares tão heterogéneos no mesmo “apartamento”, talvez não os deixe descansar em paz. Estou a ver a grande poetisa escrevendo que “as pessoas sensíveis são incapazes de matar uma galinha, mas são capazes de comer cem galinhas”. Do outro lado, o General Sem Medo ainda a clamar “Obviamente demito-o” (ao Salazar), mais a um canto, o “Pantera Negra” apronta a Grã-Cruz da Ordem do Infante, que lhe deu o mesmo governo da ditadura (do Salazar) e, lá ao fundo, a diva do fado entoando com repassada melancolia “Que estranha forma de vida”, querendo talvez dizer, “que estranha forma de morte”. Vai ser uma desatinada cacofonia. Não vai dar certo.
         O melhor seria construir uma imensa abóbada, tipo arco-íris,  onde coubessem todos os deuses do futebol profissional, de todas cores clubísticas, as taças, as chuteiras, os apitos dourados.  E mais umas prateleiras para os demónios da bola, os Blatter’s,  os corruptos das Fifa’s intercontinentais, regionais e locais, enfim, essa rotunda e imensa arena de traições às camisolas (o futebol profissional é a pátria dos apátridas), as luvas de milhões, os negócios obscuros,  toda essa deseducação em cadeia  com que se tem revelado o carreirismo do futebol profissional. Aplicando a filosofia do grande treinador que é o povo --- “cada macaco no seu galho” ---  dir-se-ia que a cada deus  seu panteão.
         Ressalvo, como ponto de honra, o “engenho e arte” de ESF e outros similares no exercício da sua profissão. Se algum remoque aqui vai é só para aqueles que, a troco de aproveitamentos políticos e quejandos, obrigaram a passear as cinzas do “Rei” pelas ruas de Lisboa, sem que ele o pedisse.
         E porque quem pensa ao contrário também tem a sua razão, conclui-se nesta hora  que está feito o grande milagre: o Contrassenso tornou-se Consenso, ficando cada qual com o seu senso.  

3.Julho.2015

Martins Júnior