quarta-feira, 1 de julho de 2015

“DIA DE MACHICO” --- PRIMEIRO QUE “DIA DA REGIÃO”


       Quis o governo autónomo da Madeira antecipar-se a Machico, não no rigor da História mas na infantil ambição de chegar primeiro à meta, marcando o 1º de Julho como o  Dia do Achamento da Madeira, quando, afinal, os cronistas da época --- Gomes Eanes de Azurara, João de Barros, Damião de Góis --- atestam unanimemente que esse foi o dia 2 de Julho . E, para que não pairasse sombra de dúvida, explicitam claramente, esse foi o “Dia da Visitação de Maria a Santa Isabel”, como marca o hagiológio litúrgico. Antes que o Funchal saísse à rua, já Machico, antes do 25 de Abril (sem quaisquer encargos para a Fazenda Pública e  a expensas de genuínos “patriotas” locais) içava a bandeira das Descobertas, com vastas iniciativas sócio-culturais, pioneiras nesta ilha: recitavam-se as oitavas de Camões, de Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, de Manuel Tomás, cantava-se o “Desde a primeira hora, Machico foi, Machico é…” 
         Se a iniciativa funchalense foi a de obnubilar aquela que foi a Primeira Capitania da Madeira, chegou tarde. Antes do Funchal, Machico já era! Ininterruptamente, em cada ano, Machico engalanava-se com o brilho das suas gentes para assinalar o seu Dia, considerando a nossa baía como o “Pórtico das Descobertas” ou “Na Rosa dos Ventos, Machico à Proa”, ficando gravado para sempre o espectáculo de luz e som nos baixios da enseada em que se representou o excerto da peça “O Infante de Sagres” de Jaime Cortesão. Tempos inolvidáveis para quem os viveu por dentro e por fora!
         Parabéns a esta Junta e a esta Câmara que, ao contrário de outras, dão continuidade à tradição autóctone, através de um programa condigno previsto para amanhã.
         Após este desabafo, com entranhado sabor telúrico, extensivo a todos quantos amam Machico, a “Pária do Autor”, assim lhe chamou o nosso vate Francisco Álvares de Nóbrega, quero aproveitar a presente comemoração para mergulhar no rio destes quase 600 anos de História, ficando também, paradoxalmente, nas suas margens como observador atento. Não irei vasculhar o alfarrábio ou o livro dos fiados de seis séculos, como ridiculamente o extinto dono da ilha sujeitou o historiador do regime, mas tão-só fazer luz --- “para que os homens não esqueçam” --- sobre a clamorosa dívida que o erário público regional tem para com Machico. Nem vou tocar a finados pelas atrocidades que uma “autodura”  (deixem passar o neologismo, que mais não significa senão a justaposição  ente autonomia e ditadura) que nos governou durante 40 anos e que tudo fez para esganar o progresso e destruir o prestígio da nobre “Vila de Machico”.
         Quero referir-me a um aspecto que não foi ainda suficientemente ponderado por quem de direito. E como entrada, declaro aberto o processo  de causa-efeito inerente ao historial de todas as sociedades: os homens passam, mas as  dívidas ficam. Por outras palavras, cantam-se as vitórias, mas as vítimas perdedoras continuam a arrastar os efeitos colaterais.
         Falo hoje da construção do aeroporto da Madeira que, além dos transtornos da sua construção inicial, mais agravou o concelho de Machico com o prolongamento da pista. Desaparecem os contra-argumentos quando se olha a destruição do Aldeamento Turístico da Matur, único na Madeira, rivalizando até com  o que de melhor tinha então Portugal Continental. Não me demoro aqui com a multiplicada agitação dos debates, das divergências entre os procuradores empresa turística  e o governo regional acerca do projecto proposto. Fez-se o aeroporto. Muito bem. Mas… e o resto? As unidades hoteleiras que implodiram, as residenciais, o internacional Club de Bridge, as muitas centenas de postos de trabalho, a movimentação nos transportes, táxis e afins, a espantosa melhoria de qualidade de vida reflectida em novas habitações, investimentos levados a efeito no perímetro urbano de Machico, Água de Pena e, por contacto, o Caniçal, Santo da Serra! Já alguma vez bateu no coração e na mente dos governantes o tremendo prejuízo infligido, com mais gravosa incidência, sobre  Machico, dado que era neste concelho que se recrutava o grande volume de mão-de-obra? Sou testemunha das dificuldades inultrapassáveis que abruptamente arrasaram famílias inteiras, as lutas, as reuniões com governos de cá e de lá em que tive de participar aquando da construção, como presidente do Município!
         É esta uma dívida histórica, ainda por saldar. E não se badale mais a nauseabunda quanto estrábica acusação que  “Machico parou por causa das Câmaras da oposição”, não, porque nos mandatos das que precederam e sucederam, não mais se recompôs, pior, destruiu-se, toda a pujança de Machico, vocacionado para polo turístico alternativo ao Funchal. Disse “destruiu-se”, porque o que se fez em Machico, só por sofreguidão eleitoral, foi sobretudo betão e alcatrão para desviar desta cidade os viajantes na ilha. Aliás, esquartejou-se  anarquicamente a paisagem, o ambiente, a praia, roubou-se aos residentes o livre e amplo acesso ao mar, casos paradigmáticos os de Água de Pena e Caniçal. E se não o fizeram à praia de Machico foi porque a população opôs-se terminantemente, como terei oportunidade de demonstrar noutra altura.
         Deixo aqui este alvitre para o Dia de Machico (e, por arrasto, da Região) em forma de protesto pelo facto de Machico não ter sido cabalmente ressarcido das perdas e danos decorrentes de um equipamento que, sendo de indiscutível utilidade para o bem global da Região, causou prejuízos colaterais ainda por sanar. Não bastam os discursos anafados por fora, mas ocos por dentro. É preciso restituir o que foi levado.
         Felicito a Junta local por ter escolhido esta data para “Dia da Freguesia” e ainda por ter votado o soneto “À PÁTRIA DO AUTOR” do grande Francisco Álvares de Nóbrega para guião do hino oficial da autarquia machiquense. Bem o merece!
      
1.Jul.2015

Martins Júnior